Uma noite, no primeiro século da era
cristã, Caio Plínio Cecílio Segundo (conhecido pelos futuros
leitores como Plínio, o Jovem, para distingui-lo de seu erudito tio,
Plínio, o Velho, que morreu na erupção do monte Vesúvio em 79
d.C.) saiu de casa de um amigo romano cheio de justificada cólera.
Assim que chegou ao seu gabinete, sentou-se e, para ordenar os
pensamentos (ou talvez de olho no volume de cartas que reuniria e
publicaria mais tarde), escreveu ao advogado Cláudio Restituto sobre
os acontecimentos daquela noite.
“Acabei de sair indignado de uma
leitura na casa de um amigo meu e sinto que preciso escrever-te neste
instante, já que não posso falar-te pessoalmente. O texto que leram
era exatamente polido, de qualquer ângulo que se considere, mas duas
ou três pessoas espirituosas – ou que assim se julgam –
escutaram-no como se fossem surdos-mudos. Em nenhum momento abriram
os lábios, ou moveram as mãos, ou mesmo esticaram as pernas para
mudar de posição. Qual o objetivo dessa conduta e cultura sóbria,
ou, antes, dessa indolência e presunção, dessa falta de tato e bom
senso que leva alguém a passar o dia inteiro sem fazer outra coisa
senão causar desgosto e transformar em inimigo o querido amigo que
se veio ouvir?”
É um pouco difícil para nós, a uma
distância de vinte séculos, compreender a consternação de Plínio.
Em sua época, a leitura feita por autores tornara-se uma cerimônia
social da moda, e, como em qualquer cerimônia, havia uma etiqueta
estabelecida para autores e ouvintes. Dos ouvintes, esperava-se que
oferecessem uma reação crítica, com base na qual o autor
aperfeiçoaria o texto – motivo pelo qual Plínio ficou tão
ultrajado com a impassibilidade da plateia; ele próprio apresentava
às vezes uma primeira versão de um discurso a um grupo de amigos e
depois fazia alterações de acordo com a reação deles. Além
disso, esperava-se que os ouvintes ficassem até o fim da
apresentação, independentemente do tempo que durasse, de forma a
não perder nenhuma parte da obra, e Plínio julgava que quem usava
as leituras como mera diversão social não valia muito mais que um
desordeiro. Escreveu furioso para outro amigo: “A maioria deles
senta-se na sala de espera, perdendo tempo em vez de prestar atenção
e pedindo aos seus servos que lhes digam a toda hora se o leitor
chegou e já leu a introdução, ou se chegou ao fim da leitura.
Somente então, e com a maior relutância, arrastam-se para dentro. E
não ficam muito tempo, e saem antes do fim, alguns tentando escapar
despercebidos, outros saindo sem pejo. [...] Mais louvor e honra
merecem aqueles cujo amor pela escrita e leitura em voz alta não se
deixa afetar pelos maus modos e arrogância da plateia”.
O autor também estava obrigado a
seguir certas regras se quisesse ter sucesso em suas leituras, pois
havia toda espécie de obstáculo a ser superado. Antes de mais nada,
era preciso encontrar um local de leitura apropriado. Homens
abastados imaginavam-se poetas e, em opulentas casas de campo,
recitavam suas obras para um grande número de conhecidos - no
auditorium, uma sala construída especialmente com esse
objetivo.
Alguns desses poetas ricos, como
Ticínio Capito, eram generosos e emprestavam seus auditórios para
as apresentações de outros, mas a maioria desses espaços de
recital era de uso exclusivo dos proprietários. Uma vez reunidos os
amigos no local designado, o autor tinha de encará-los de uma
cadeira colocada sobre um tablado, usando uma toga nova e exibindo
todos os seus anéis. Segundo Plínio, esse costume atrapalhava-o
duplamente: “ele se encontra em grande desvantagem pelo mero fato
de ficar sentado, embora possa ser tão bem-dotado quanto oradores
que ficam de pé” e tem”"os dois principais auxiliares de
sua elocução, isto é, olhos e mãos”, ocupados em segurar o
texto.
As habilidades oratórias eram,
portanto, essenciais. Ao elogiar o desempenho de um leitor, Plínio
observou que “ele mostrou uma versatilidade adequada ao elevar e
baixar o tom e a mesma agilidade na passagem de temas elevados para
inferiores, do simples para o complexo ou de assuntos mais leves para
mais graves. A voz notavelmente agradável foi outra vantagem,
realçada pela modéstia, pelos rubores e pelo nervosismo, que sempre
acrescentam encanto a uma leitura. Não sei por quê, mas a timidez
cai melhor num autor do que a segurança”.
Aqueles que tinham dúvidas sobre suas
habilidades de leitor podiam recorrer a certos estratagemas. O
próprio Plínio, confiante quando lia discursos, mas inseguro sobre
sua capacidade de ler versos, teve a seguinte ideia para uma noitada
de suas poesias, comunicada por carta ao amigo Suetônio, o autor de
Vida dos doze Césares: “Estou planejando fazer uma leitura
informal para alguns amigos e penso em utilizar um de meus escravos.
Não darei grandes mostras de civilidade a meus amigos, pois o homem
que escolhi não é realmente um bom leitor, mas acho que será
melhor do que eu, uma vez que não é tão nervoso. [...] A questão
é: o que devo fazer enquanto ele estiver lendo?
Devo sentar-me quieto e silencioso
como um espectador, ou comportar-me como algumas pessoas e repetir as
palavras dele com meus lábios, olhos e gestos?”. Não sabemos se
Plínio ofereceu naquela noite uma das primeiras apresentações de
leitura labial sincronizada da história.
Muitas dessas leituras devem ter
parecido intermináveis. Plínio compareceu a uma que durou três
dias. (Essa leitura, em particular, não parece tê-lo aborrecido,
talvez porque o leitor anunciara à plateia: “Mas que me importam
os poetas do passado, se conheço Plínio?”.) Indo de várias horas
à metade de uma semana, as leituras públicas tornaram-se quase
inevitáveis para quem quisesse ser conhecido como autor. Horácio
queixava-se de que os leitores educados já não pareciam de fato
interessados nos escritos de um poeta, tendo “transferido todo o
prazer do ouvido para as delícias vazias e fugazes do olho”.
Marcial ficou tão farto de aturar
poetastros ansiosos por ler suas obras em voz alta que desabafou:
Pergunto-te: quem pode suportar
esse afã?
Lês para mim quando estou de pé,
Lês para mim quando estou sentado,
Lês para mim quando estou
correndo,
Lês para mim quando estou cagando.
Plínio, no entanto, aprovava a
leitura dos autores e via nelas os sinais de uma nova idade de ouro
literária. “Dificilmente tivemos um dia em abril em que não
houvesse alguém fazendo uma leitura pública”, observou
satisfeito. “Estou encantado por ver a literatura florescer e o
talento vicejar.” As gerações futuras discordaram do veredicto de
Plínio e decidiram esquecer o nome da maioria desses poetas
declamadores.
Contudo, se fosse destino de alguém
ficar famoso graças a essas leituras públicas, um autor não
precisava mais esperar a morte para ser consagrado. Plínio escreveu
a seu amigo Valério Paulino: “As opiniões divergem, mas minha
ideia de um homem verdadeiramente feliz é aquele que desfruta
antecipadamente de uma boa e duradoura reputação e, confiante no
veredicto da posteridade, vive na certeza da fama que virá”. A
fama no presente era importante para ele. Ficava encantado quando
alguém nas corridas achava que o escritor Tácito (a quem admirava
muito) poderia ser Plínio. “Se Demóstenes teve o direito de se
deleitar quando a velha da Ática o reconheceu com as palavras
‘aquele é Demóstenes’, eu certamente posso ficar contente ao
ver meu nome bem conhecido. Na verdade, estou contente e
admito isso.” Sua obra foi publicada e lida, até mesmo nos confins
de Lugdunum (Lyon). A outro amigo, escreveu: “Não pensei que
houvesse livreiros em Lugdunum, portanto fiquei ainda mais satisfeito
ao saber por sua carta que minhas obras estão à venda. Fico
contente que tenham no exterior a popularidade que conquistaram em
Roma e estou começando a pensar que minha obra deve ser realmente
boa, ao ver que a opinião pública de lugares tão diferentes
concorda sobre ela”. Porém, agradava-lhe muito mais o louvor de
uma plateia de ouvintes do que a aprovação silenciosa de leitores
anônimos.
Plínio sugeriu várias razões pelas
quais a leitura em público constituía um exercício benéfico. A
celebridade era sem dúvida um fator muito importante, mas havia
também o prazer de ouvir a própria voz. Ele justificava essa
autocomplacência observando que a audição de um texto levava a
plateia a comprar a peça publicada, causando assim uma demanda que
satisfaria tanto os autores quanto os editores-livreiros. Na sua
concepção, ler em público era a melhor maneira de um autor obter
público. Na verdade, a leitura pública era em si mesma uma forma
rudimentar de divulgação.
Como observou corretamente Plínio,
ler em público era uma representação, um ato executado por todo o
corpo para que outros percebessem. O autor que lê em público -
naquela época como agora recobra as palavras com certos sons e
interpreta-as com certos gestos; essa performance dá ao texto um tom
que (supostamente) é aquele que o autor tinha em mente no momento da
criação e, portanto, concede ao ouvinte a sensação de estar perto
das intenções do autor; ela dá também ao texto um selo de
autenticidade.
Mas, ao mesmo tempo, a leitura do
autor deturpa o texto, melhorando-o (ou empobrecendo-o) com a
interpretação. O romancista canadense Robertson Davies acrescentava
camadas e mais camadas de caracterização durante as leituras, antes
interpretando do que recitando sua ficção. A romancista francesa
Nathalie Sarraute, ao contrário, lê numa monotonia que não faz jus
aos seus textos líricos. Dylan Thomas cantava sua poesia, batendo
nas tônicas como gongos e deixando pausas enormes. Eliot resmungava
seus poemas como se fosse um vigário rabugento amaldiçoando seu
rebanho.
Ao ser lido para uma plateia, um texto
não é determinado exclusivamente pela relação entre suas
características intrínsecas e aquelas de seu público arbitrário,
sempre diferente, uma vez que os membros desse público não têm
mais a liberdade (como os leitores comuns teriam) de voltar, reler,
retardar e dar ao texto sua própria entonação conotativa. Ao
contrário, ele se torna dependente do autor-intérprete, que assume
o papel de leitor dos leitores, a encarnação presuntiva de cada
membro da plateia cativa da leitura, ensinando-lhes o modo de ler As
leituras de autores podem se tornar profundamente dogmáticas.
As leituras públicas não foram
exclusividade de Roma. Os gregos liam em público. Cinco séculos
antes de Plínio, por exemplo, Heródoto lia sua obra nos festivais
olímpicos, onde se reunia uma grande e entusiástica plateia vinda
de toda a Grécia; evitava-se assim viajar de cidade em cidade. Mas,
no século VI, as leituras públicas cessaram efetivamente, porque
parecia não haver mais um “público educado”. A última
descrição conhecida de uma platéia romana numa leitura pública
está nas cartas do poeta cristão Apolinário Sidônio, escritas na
segunda metade do século V. Àquela altura, como Sidônio lamenta, o
latim tornara-se uma língua especializada, estrangeira, “a
linguagem da liturgia, das chancelarias e de uns poucos eruditos”.
Por ironia, a Igreja cristã, que adotara o latim para difundir o
evangelho entre “todos os homens em todos os lugares”, percebeu
que essa língua se tornara incompreensível para a vasta maioria do
rebanho. O latim passou a ser parte do “mistério” da Igreja, e,
no século XI, apareceu o primeiro dicionário de latim, como forma
de ajudar os estudantes e noviços para quem esse idioma não era
mais a língua materna.
Mas os autores continuaram precisando
do estímulo de um público imediato. No final do século XIII, Daute
sugeria que a “língua vulgar” – isto é, o vernáculo – era
ainda mais nobre que o latim, por três motivos: era a primeira
língua falada por Adão e Eva; era “natural”, enquanto o latim
era “artificial”, pois aprendido apenas nas escolas; e era
universal, uma vez que todos os homens falavam uma língua vulgar e
somente uns poucos sabiam latim. Embora essa defesa da língua vulgar
fosse escrita, paradoxalmente, em latim, é provável que, mais para
o fim da vida, na corte de Guido Novel o da polenta, em Ravena, Dante
tenha lido trechos de sua Comédia na “língua vulgar” que
defendera de forma tão eloquente. O certo é que, nos séculos XIV e
XV, as leituras por autores voltaram a ser comuns; há muitos
exemplos na literatura, tanto secular quanto religiosa.
Em 1309, Jean de Joinville dedicou sua
Vida de são Luís a “vós e vossos irmãos que a ouvirão
ser lida”. No final do século XIV, o historiador francês
Froissart enfrentou tempestades em plena noite durante seis longas
semanas de inverno para ler seu romance Méliador para o
insone conde du Blois. O príncipe e poeta Charles d'Orléans,
aprisionado pelos ingleses em Agincourt, em 1415, escreveu numerosos
poemas durante um longo cativeiro, e, após ser libertado, em 1440,
leu-os para a corte de Blois em noitadas literárias para as quais
outros poetas, como François Villon, eram convidados. La
Celestina, de Fernando de Rojas. deixava claro em sua introdução
de 1499 que a comprida peça (ou romance em forma de peça de teatro)
destinava-se a ser lida em voz alta "quando umas dez pessoas se
reúnem para ouvir essa comédia"; é provável que o autor (de
quem sabemos muito pouco, exceto que era um judeu convertido e pouco
ansioso por chamar para sua obra a atenção da Inquisição) tivesse
apresentado previamente a "comédia" a seus amigos. Em
janeiro de 1507, Ariosto leu seu inacabado Orlando furioso
para a convalescente Isabela Gonzaga, “fazendo com que dois dias se
passassem não somente sem tédio, mas com todo o prazer”. E
Geoffrey Chaucer, cujos livros estão cheios de referências à
literatura lida em voz alta, certamente leu sua obra para uma plateia
atenta.
[…]
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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