sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O autor como leitor



Uma noite, no primeiro século da era cristã, Caio Plínio Cecílio Segundo (conhecido pelos futuros leitores como Plínio, o Jovem, para distingui-lo de seu erudito tio, Plínio, o Velho, que morreu na erupção do monte Vesúvio em 79 d.C.) saiu de casa de um amigo romano cheio de justificada cólera. Assim que chegou ao seu gabinete, sentou-se e, para ordenar os pensamentos (ou talvez de olho no volume de cartas que reuniria e publicaria mais tarde), escreveu ao advogado Cláudio Restituto sobre os acontecimentos daquela noite.
Acabei de sair indignado de uma leitura na casa de um amigo meu e sinto que preciso escrever-te neste instante, já que não posso falar-te pessoalmente. O texto que leram era exatamente polido, de qualquer ângulo que se considere, mas duas ou três pessoas espirituosas – ou que assim se julgam – escutaram-no como se fossem surdos-mudos. Em nenhum momento abriram os lábios, ou moveram as mãos, ou mesmo esticaram as pernas para mudar de posição. Qual o objetivo dessa conduta e cultura sóbria, ou, antes, dessa indolência e presunção, dessa falta de tato e bom senso que leva alguém a passar o dia inteiro sem fazer outra coisa senão causar desgosto e transformar em inimigo o querido amigo que se veio ouvir?”
É um pouco difícil para nós, a uma distância de vinte séculos, compreender a consternação de Plínio. Em sua época, a leitura feita por autores tornara-se uma cerimônia social da moda, e, como em qualquer cerimônia, havia uma etiqueta estabelecida para autores e ouvintes. Dos ouvintes, esperava-se que oferecessem uma reação crítica, com base na qual o autor aperfeiçoaria o texto – motivo pelo qual Plínio ficou tão ultrajado com a impassibilidade da plateia; ele próprio apresentava às vezes uma primeira versão de um discurso a um grupo de amigos e depois fazia alterações de acordo com a reação deles. Além disso, esperava-se que os ouvintes ficassem até o fim da apresentação, independentemente do tempo que durasse, de forma a não perder nenhuma parte da obra, e Plínio julgava que quem usava as leituras como mera diversão social não valia muito mais que um desordeiro. Escreveu furioso para outro amigo: “A maioria deles senta-se na sala de espera, perdendo tempo em vez de prestar atenção e pedindo aos seus servos que lhes digam a toda hora se o leitor chegou e já leu a introdução, ou se chegou ao fim da leitura. Somente então, e com a maior relutância, arrastam-se para dentro. E não ficam muito tempo, e saem antes do fim, alguns tentando escapar despercebidos, outros saindo sem pejo. [...] Mais louvor e honra merecem aqueles cujo amor pela escrita e leitura em voz alta não se deixa afetar pelos maus modos e arrogância da plateia”.
O autor também estava obrigado a seguir certas regras se quisesse ter sucesso em suas leituras, pois havia toda espécie de obstáculo a ser superado. Antes de mais nada, era preciso encontrar um local de leitura apropriado. Homens abastados imaginavam-se poetas e, em opulentas casas de campo, recitavam suas obras para um grande número de conhecidos - no auditorium, uma sala construída especialmente com esse objetivo.
Alguns desses poetas ricos, como Ticínio Capito, eram generosos e emprestavam seus auditórios para as apresentações de outros, mas a maioria desses espaços de recital era de uso exclusivo dos proprietários. Uma vez reunidos os amigos no local designado, o autor tinha de encará-los de uma cadeira colocada sobre um tablado, usando uma toga nova e exibindo todos os seus anéis. Segundo Plínio, esse costume atrapalhava-o duplamente: “ele se encontra em grande desvantagem pelo mero fato de ficar sentado, embora possa ser tão bem-dotado quanto oradores que ficam de pé” e tem”"os dois principais auxiliares de sua elocução, isto é, olhos e mãos”, ocupados em segurar o texto.
As habilidades oratórias eram, portanto, essenciais. Ao elogiar o desempenho de um leitor, Plínio observou que “ele mostrou uma versatilidade adequada ao elevar e baixar o tom e a mesma agilidade na passagem de temas elevados para inferiores, do simples para o complexo ou de assuntos mais leves para mais graves. A voz notavelmente agradável foi outra vantagem, realçada pela modéstia, pelos rubores e pelo nervosismo, que sempre acrescentam encanto a uma leitura. Não sei por quê, mas a timidez cai melhor num autor do que a segurança”.
Aqueles que tinham dúvidas sobre suas habilidades de leitor podiam recorrer a certos estratagemas. O próprio Plínio, confiante quando lia discursos, mas inseguro sobre sua capacidade de ler versos, teve a seguinte ideia para uma noitada de suas poesias, comunicada por carta ao amigo Suetônio, o autor de Vida dos doze Césares: “Estou planejando fazer uma leitura informal para alguns amigos e penso em utilizar um de meus escravos. Não darei grandes mostras de civilidade a meus amigos, pois o homem que escolhi não é realmente um bom leitor, mas acho que será melhor do que eu, uma vez que não é tão nervoso. [...] A questão é: o que devo fazer enquanto ele estiver lendo?
Devo sentar-me quieto e silencioso como um espectador, ou comportar-me como algumas pessoas e repetir as palavras dele com meus lábios, olhos e gestos?”. Não sabemos se Plínio ofereceu naquela noite uma das primeiras apresentações de leitura labial sincronizada da história.
Muitas dessas leituras devem ter parecido intermináveis. Plínio compareceu a uma que durou três dias. (Essa leitura, em particular, não parece tê-lo aborrecido, talvez porque o leitor anunciara à plateia: “Mas que me importam os poetas do passado, se conheço Plínio?”.) Indo de várias horas à metade de uma semana, as leituras públicas tornaram-se quase inevitáveis para quem quisesse ser conhecido como autor. Horácio queixava-se de que os leitores educados já não pareciam de fato interessados nos escritos de um poeta, tendo “transferido todo o prazer do ouvido para as delícias vazias e fugazes do olho”.
Marcial ficou tão farto de aturar poetastros ansiosos por ler suas obras em voz alta que desabafou:

Pergunto-te: quem pode suportar esse afã?
Lês para mim quando estou de pé,
Lês para mim quando estou sentado,
Lês para mim quando estou correndo,
Lês para mim quando estou cagando.

Plínio, no entanto, aprovava a leitura dos autores e via nelas os sinais de uma nova idade de ouro literária. “Dificilmente tivemos um dia em abril em que não houvesse alguém fazendo uma leitura pública”, observou satisfeito. “Estou encantado por ver a literatura florescer e o talento vicejar.” As gerações futuras discordaram do veredicto de Plínio e decidiram esquecer o nome da maioria desses poetas declamadores.
Contudo, se fosse destino de alguém ficar famoso graças a essas leituras públicas, um autor não precisava mais esperar a morte para ser consagrado. Plínio escreveu a seu amigo Valério Paulino: “As opiniões divergem, mas minha ideia de um homem verdadeiramente feliz é aquele que desfruta antecipadamente de uma boa e duradoura reputação e, confiante no veredicto da posteridade, vive na certeza da fama que virá”. A fama no presente era importante para ele. Ficava encantado quando alguém nas corridas achava que o escritor Tácito (a quem admirava muito) poderia ser Plínio. “Se Demóstenes teve o direito de se deleitar quando a velha da Ática o reconheceu com as palavras ‘aquele é Demóstenes’, eu certamente posso ficar contente ao ver meu nome bem conhecido. Na verdade, estou contente e admito isso.” Sua obra foi publicada e lida, até mesmo nos confins de Lugdunum (Lyon). A outro amigo, escreveu: “Não pensei que houvesse livreiros em Lugdunum, portanto fiquei ainda mais satisfeito ao saber por sua carta que minhas obras estão à venda. Fico contente que tenham no exterior a popularidade que conquistaram em Roma e estou começando a pensar que minha obra deve ser realmente boa, ao ver que a opinião pública de lugares tão diferentes concorda sobre ela”. Porém, agradava-lhe muito mais o louvor de uma plateia de ouvintes do que a aprovação silenciosa de leitores anônimos.
Plínio sugeriu várias razões pelas quais a leitura em público constituía um exercício benéfico. A celebridade era sem dúvida um fator muito importante, mas havia também o prazer de ouvir a própria voz. Ele justificava essa autocomplacência observando que a audição de um texto levava a plateia a comprar a peça publicada, causando assim uma demanda que satisfaria tanto os autores quanto os editores-livreiros. Na sua concepção, ler em público era a melhor maneira de um autor obter público. Na verdade, a leitura pública era em si mesma uma forma rudimentar de divulgação.
Como observou corretamente Plínio, ler em público era uma representação, um ato executado por todo o corpo para que outros percebessem. O autor que lê em público - naquela época como agora recobra as palavras com certos sons e interpreta-as com certos gestos; essa performance dá ao texto um tom que (supostamente) é aquele que o autor tinha em mente no momento da criação e, portanto, concede ao ouvinte a sensação de estar perto das intenções do autor; ela dá também ao texto um selo de autenticidade.
Mas, ao mesmo tempo, a leitura do autor deturpa o texto, melhorando-o (ou empobrecendo-o) com a interpretação. O romancista canadense Robertson Davies acrescentava camadas e mais camadas de caracterização durante as leituras, antes interpretando do que recitando sua ficção. A romancista francesa Nathalie Sarraute, ao contrário, lê numa monotonia que não faz jus aos seus textos líricos. Dylan Thomas cantava sua poesia, batendo nas tônicas como gongos e deixando pausas enormes. Eliot resmungava seus poemas como se fosse um vigário rabugento amaldiçoando seu rebanho.
Ao ser lido para uma plateia, um texto não é determinado exclusivamente pela relação entre suas características intrínsecas e aquelas de seu público arbitrário, sempre diferente, uma vez que os membros desse público não têm mais a liberdade (como os leitores comuns teriam) de voltar, reler, retardar e dar ao texto sua própria entonação conotativa. Ao contrário, ele se torna dependente do autor-intérprete, que assume o papel de leitor dos leitores, a encarnação presuntiva de cada membro da plateia cativa da leitura, ensinando-lhes o modo de ler As leituras de autores podem se tornar profundamente dogmáticas.
As leituras públicas não foram exclusividade de Roma. Os gregos liam em público. Cinco séculos antes de Plínio, por exemplo, Heródoto lia sua obra nos festivais olímpicos, onde se reunia uma grande e entusiástica plateia vinda de toda a Grécia; evitava-se assim viajar de cidade em cidade. Mas, no século VI, as leituras públicas cessaram efetivamente, porque parecia não haver mais um “público educado”. A última descrição conhecida de uma platéia romana numa leitura pública está nas cartas do poeta cristão Apolinário Sidônio, escritas na segunda metade do século V. Àquela altura, como Sidônio lamenta, o latim tornara-se uma língua especializada, estrangeira, “a linguagem da liturgia, das chancelarias e de uns poucos eruditos”. Por ironia, a Igreja cristã, que adotara o latim para difundir o evangelho entre “todos os homens em todos os lugares”, percebeu que essa língua se tornara incompreensível para a vasta maioria do rebanho. O latim passou a ser parte do “mistério” da Igreja, e, no século XI, apareceu o primeiro dicionário de latim, como forma de ajudar os estudantes e noviços para quem esse idioma não era mais a língua materna.
Mas os autores continuaram precisando do estímulo de um público imediato. No final do século XIII, Daute sugeria que a “língua vulgar” – isto é, o vernáculo – era ainda mais nobre que o latim, por três motivos: era a primeira língua falada por Adão e Eva; era “natural”, enquanto o latim era “artificial”, pois aprendido apenas nas escolas; e era universal, uma vez que todos os homens falavam uma língua vulgar e somente uns poucos sabiam latim. Embora essa defesa da língua vulgar fosse escrita, paradoxalmente, em latim, é provável que, mais para o fim da vida, na corte de Guido Novel o da polenta, em Ravena, Dante tenha lido trechos de sua Comédia na “língua vulgar” que defendera de forma tão eloquente. O certo é que, nos séculos XIV e XV, as leituras por autores voltaram a ser comuns; há muitos exemplos na literatura, tanto secular quanto religiosa.
Em 1309, Jean de Joinville dedicou sua Vida de são Luís a “vós e vossos irmãos que a ouvirão ser lida”. No final do século XIV, o historiador francês Froissart enfrentou tempestades em plena noite durante seis longas semanas de inverno para ler seu romance Méliador para o insone conde du Blois. O príncipe e poeta Charles d'Orléans, aprisionado pelos ingleses em Agincourt, em 1415, escreveu numerosos poemas durante um longo cativeiro, e, após ser libertado, em 1440, leu-os para a corte de Blois em noitadas literárias para as quais outros poetas, como François Villon, eram convidados. La Celestina, de Fernando de Rojas. deixava claro em sua introdução de 1499 que a comprida peça (ou romance em forma de peça de teatro) destinava-se a ser lida em voz alta "quando umas dez pessoas se reúnem para ouvir essa comédia"; é provável que o autor (de quem sabemos muito pouco, exceto que era um judeu convertido e pouco ansioso por chamar para sua obra a atenção da Inquisição) tivesse apresentado previamente a "comédia" a seus amigos. Em janeiro de 1507, Ariosto leu seu inacabado Orlando furioso para a convalescente Isabela Gonzaga, “fazendo com que dois dias se passassem não somente sem tédio, mas com todo o prazer”. E Geoffrey Chaucer, cujos livros estão cheios de referências à literatura lida em voz alta, certamente leu sua obra para uma plateia atenta.

[…]

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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