55.
Por mais que pertença, por alma, à
linhagem dos românticos, não encontro repouso senão na leitura dos
clássicos. A sua mesma estreiteza, através da qual a clareza se
exprime, me conforta não sei de quê. Colho neles uma impressão
alacre de vida larga, que contempla amplos espaços sem os percorrer.
Os mesmos deuses pagãos repousam do mistério.
A análise sobre curiosa das sensações
— por vezes das sensações que supomos ter —, a identificação do
coração com a paisagem, a revelação anatómica dos nervos todos,
o uso do desejo como vontade e da aspiração como pensamento —
todas estas coisas me são demasiado familiares para que em outrem me
tragam novidade, ou me deem sossego. Sempre que as sinto, desejaria,
exatamente porque as sinto, estar sentindo outra coisa. E, quando
leio um clássico, essa outra coisa é-me dada.
Confesso-o sem rebuço nem vergonha...
Não há trecho de Chateaubriand ou canto de Lamartine — trechos
que tantas vezes parecem ser a voz do que eu penso, cantos que tanta
vez parecem ser-me ditos para conhecer – que me enleve e me erga
como um trecho de prosa de Vieira ou uma ou outra ode daqueles nossos
poucos clássicos que seguiram deveras a Horácio.
Leio e estou liberto. Adquiro
objetividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de
ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande
clareza do mundo externo, toda ela notável, o sol que vê todos, a
lua que malha de sombras o chão quieto, os espaços largos que
acabam em mar, a solidez negra das árvores que acenam verdes em
cima, a paz sólida dos tanques das quintas, os caminhos tapados
pelas vinhas, nos declives breves das encostas.
Leio como quem abdica. E, como a coroa
e o manto régios nunca são tão grandes como quando o Rei que parte
os deixa no chão, deponho sobre os mosaicos das antecâmaras todos
os meus triunfais do tédio e do sonho, e subo a escadaria com a
única nobreza de ver.
Leio como quem passa. E é nos
clássicos, nos calmos, nos que, se sofrem, o não dizem, que me
sinto sagrado transeunte, ungido peregrino contemplador sem razão do
mundo sem propósito, Príncipe do Grande Exílio, que deu,
partindo-se, ao último mendigo, a esmola extrema da sua desolação.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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