56.
O sócio capitalista aqui da firma,
sempre doente em parte incerta, quis, não sei porque capricho de que
intervalo de doença, ter um retrato do conjunto do pessoal do
escritório. E assim, anteontem, alinhámos todos, por indicação do
fotógrafo alegre, contra a barreira branca suja que divide, com
madeira frágil, o escritório geral do gabinete do patrão Vasques.
Ao centro o mesmo Vasques; nas duas alas, numa distribuição
primeiro definida, depois indefinida, de categorias, as outras almas
humanas que aqui se reúnem em corpo todos os dias para pequenos fins
cujo último intuito só o segredo dos Deuses conhece.
Hoje quando cheguei ao escritório, um
pouco tarde, e, em verdade, esquecido já do acontecimento estático
da fotografia duas vezes tirada, encontrei o Moreira, inesperadamente
matutino, e um dos caixeiros de praça debruçados rebuçadamente
sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci logo, em sobressalto,
como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de
uma, daquela que ficara melhor.
Sofri a verdade ao ver-me ali, porque,
como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive
uma ideia nobre da minha presença física, mas nunca a senti tão
nula como em comparação com as outras caras, tão minhas
conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta
fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem
intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré
morta das outras caras. Da maré morta, não. Há ali rostos
verdadeiramente expressivos. O patrão Vasques está tal qual é —
o largo rosto prazenteiro e duro, o olhar firme, o bigode rígido
completando. A energia, a esperteza do homem — afinal tão banais,
e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o
mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num
passaporte psicológico. Os dois caixeiros viajantes estão
admiráveis; o caixeiro de praça está bem, mas ficou quase por trás
de um ombro do Moreira. E o Moreira! O meu chefe Moreira, essência
da monotonia e da continuidade, está muito mais gente do que eu! Até
o moço — reparo sem poder reprimir um sentimento que busco supor
que não é inveja tem uma certeza de cara, uma expressão direta que
dista sorrisos do meu apagamento nulo de esfinge de papelaria.
O que quer isto dizer? Que verdade é
esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente
fria documenta? Quem sou, para que seja assim? Contudo... E o insulto
do conjunto?
— “Você
ficou muito bem”, diz de repente o Moreira. E depois, virando-se
para o caixeiro de praça, "É mesmo a carinha dele, hein?"
E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que atirou
para o lixo.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Nenhum comentário:
Postar um comentário