Era uma tarde de segunda-feira no The
Hungry Diamond. Só havia duas pessoas, Mel e o garçom do balcão.
Tarde de segunda-feira em Los Angeles é o agreste – mesmo noite de
sexta é o agreste –, mas sobretudo tarde de segunda-feira. O
garçom, que se chamava Carl, bebia com um copo debaixo do balcão,
parado junto de Mel, que se curvava à vontade sobre uma cerveja
verde azeda.
– Preciso te contar uma coisa –
disse Mel.
– Manda – disse o garçom.
– Bem, eu recebi um telefonema uma
noite dessas de um cara com quem eu trabalhava em Akron. Ele perdeu o
emprego por bebida, se casou com uma enfermeira, e a enfermeira
sustenta ele. Eu não gosto muito desses tipos, mas você sabe como
são as pessoas, elas como que se grudam na gente.
– É – disse o garçom.
– Seja como for, eles me ligam...
escuta, me dá outra cerveja, esta merda está com um gosto horrível.
– Tudo bem, só beba um pouco mais
rápido: ela começa a perder substância depois de uma hora.
– Tudo bem... Eles me dizem que
resolveram a falta de carne... eu penso “Que falta de carne?”...
e pra eu aparecer. Como não tenho nada a fazer, vou lá. Tem jogo
dos Rams e o cara, Al, liga a TV, e a gente fica olhando. Erica, é o
nome dela, está na cozinha, preparando uma salada, e eu levei duas
embalagens de seis garrafas. Eu digo oi, Al abre algumas garrafas, é
legal e quente ali dentro, o forno ligado. Bem, é confortável. Eles
parecem não ter tido uma briga há dias, e a situação está calma.
Al diz alguma coisa sobre Reagan e sobre o desemprego, mas eu não
posso responder, tudo isso me enche o saco. Sabe, estou cagando se o
país está na merda ou não, contanto que eu me vire.
– Certo – diz o garçom, tomando
um gole por trás do balcão.
– Tudo bem. Ela vem, se senta e toma
sua cerveja. Erica. A enfermeira. Diz que todos os médicos tratam os
pacientes como gado. Que todos os médicos só querem faturar. Acham
que a merda deles não fede. Ela prefere Al a qualquer médico que
exista. Isso é que é bobagem, não é?
– Eu não conheço Al – diz o
garçom.
– Então, a gente joga baralho e os
Rams estão perdendo na TV, e após algumas mãos Al me diz: “Sabe,
eu tenho uma esposa estranha. Ela gosta de alguém olhando quando a
gente faz aquilo”. “É mesmo”, ela diz, “é isso que me
estimula mesmo.” E Al diz: “Mas é muito difícil arranjar alguém
pra olhar. A gente pensa que seria fácil arranjar alguém pra olhar,
mas é difícil pra burro”. Eu não digo nada. Peço duas cartas e
elevo a parada cinco centavos. Ela depõe as cartas e Al também, e
os dois se levantam. Ela atravessa a sala e Al vai atrás. “Sua
puta!”, ele grita. “Sua puta dos diabos!” Lá estava aquele
cara xingando a esposa de puta. “Sua puta!”, ele grita. Acua ela
num canto da sala e cobre ela de tapa, rasga a blusa. “Sua puta!”,
torna a gritar, e cobre ela de tapa e derruba a dona. Arranca a saia
dela, e ela esperneia e grita. Ele pega a dona e beija, depois joga
ela no sofá. Se joga em cima dela, beijando ela e rasgando as roupas
dela. Depois arranca a calcinha e manda ver. Enquanto ele faz isso,
ela olha de baixo para ver se eu estou olhando. Vê que estou olhando
e começa a mexer feito uma cobra doida. Os dois vão fundo, até o
fim; ela se levanta e vai pro banheiro, e Al vai na cozinha pegar
mais cerveja. “Obrigado”, ele me diz quando volta, “você
ajudou muito.”
– E aí, que aconteceu? –
perguntou o garçom.
– Bem, aí os Rams finalmente
marcam, e tem muito barulho na TV, e ela sai do banheiro e vai pra
cozinha. Al começa a falar de Reagan de novo. Diz que é o início
do Declínio e Queda do Ocidente, como Spengler dizia. Todo mundo é
tão ganancioso e decadente, a decomposição realmente começou. E
continua nisso por algum tempo. Aí Erica chama a gente pro canto do
café da manhã, onde a mesa está posta, e a gente se senta. O
cheiro é bom: um assado. Com fatias de abacaxi em cima. Parece uma
perna; eu vejo uma coisa que quase parece um joelho. “Al”, digo,
“essa coisa realmente parece uma perna humana do joelho pra cima.”
“E é exatamente o que é”, diz Al.
– Ele disse isso? – pergunta o
garçom, tomando um gole por trás do balcão.
– É – respondeu Mel –, e quando
a gente ouve uma coisa dessa não sabe o que pensar direito. Que era
que você ia pensar?
– Eu ia pensar – disse o garçom –
que ele estava brincando.
– Claro. Por isso eu disse: “Ótimo,
me corta uma boa fatia”. E ele cortou. Tinha purê de batata,
molho, milho, pão quente e salada. Azeitonas recheadas na salada. Al
disse: “Experimente um pouco dessa mostarda apimentada na carne,
vai bem”. Eu pus um pouco. A carne não estava ruim. “Escuta,
Al”, eu disse, “isto não está nada mal. Que é?” “É o que
eu disse a você, Mel”, ele responde, “é uma perna humana, a
parte de cima. É um garoto de quatorze anos que a gente encontrou
pegando carona no Hollywood Boulevard. A gente pegou ele, deu comida
e ele viu Erica e eu fazermos a coisa durante três ou quatro dias, e
depois a gente se encheu de fazer isso e matamos ele, limpamos as
entranhas, jogamos no triturador de lixo e botamos ele no freezer. É
muito melhor que frango, embora na verdade eu não prefira isso a um
bife de lombinho.”
– Ele disse isso? – perguntou o
garçom, estendendo a mão para pegar mais um gole debaixo do balcão.
– Disse isso – respondeu Mel. –
Me dá outra cerveja.
O garçom deu-lhe outra cerveja. Mel
disse:
– Bem, eu continuei pensando que ele
estava brincando, sabe, por isso disse: “Tudo bem, me mostra seu
freezer.” E Al diz: “Claro: ali.” E abre a tampa e lá está o
tronco, uma perna e meia, dois braços e a cabeça. Cortado assim.
Parece muito higiênico, mas mesmo assim não me parece bem. A cabeça
olha pra gente, os olhos abertos e azuis, a língua saltando para
fora... congelada até o lábio inferior. “Nossa mãe, Al”, eu
digo a ele, “você é um assassino... isso é incrível, é
nojento!” “Cresça”, ele diz, “eles matam gente aos milhões
nas guerras e dão medalhas por isso. Metade das pessoas deste mundo
vai morrer de fome enquanto a gente fica por aí sentado vendo TV.”
– Eu digo a você, Carl, as paredes daquela cozinha começaram a
rodar, eu não parava de ver aquela cabeça, aqueles braços, aquela
perna cortada... Tem uma coisa tão quieta numa coisa assassinada, de
certa forma a gente começa a pensar que uma coisa assassinada devia
continuar gritando, eu não sei. Seja como for, fui até a pia da
cozinha e comecei a vomitar. Vomitei durante um longo tempo. Depois
disse a Al que precisava sair dali. Você não ia querer sair dali,
Carl?
– E rápido – disse Carl. –
Muito rápido.
– Bem, o Al se colocou diante da
porta e disse: “Escuta, não foi assassinato. Nada é assassinato.
Você só precisa romper as ideias que impuseram em você, e vira um
homem livre: livre, entende?” “Sai da frente dessa porta, Al: eu
vou dar o fora daqui!” Ele me agarra pela camisa e começa a rasgar
a camisa. Eu dou um soco na cara dele, mas ele continua rasgando
minha camisa. Bato de novo, e de novo, mas ele parece não sentir
nada. Os Rams ainda estão na TV. Eu recuo da porta, e aí a mulher
dele corre, me agarra e começa a me beijar. Eu não sei o que fazer.
Ela é uma mulher forte. Sabe todos esses truques de enfermeira.
Tento me livrar dela, mas não consigo. A boca dela grudada na minha,
é tão louca quanto ele. Começo a ter uma ereção, não posso
evitar. Ela não tem um rosto tão sensacional assim, mas tem umas
pernas e uma bunda, e o vestido mais justo que já se viu. A boca tem
gosto de cebola cozida, a língua gorda e cheia de saliva, mas usava
um vestido novo... verde... e quando eu levanto o vestido vejo a
anágua, cor de sangue, e isso me excita mesmo e aí eu olho e vejo
Al com o pau de fora, olhando. Joguei ela no sofá e mandamos ver, Al
parado ao lado respirando pesado. Fizemos todos juntos, um verdadeiro
trio, depois eu me levantei e comecei a ajeitar minha roupa. Entrei
no banheiro, joguei água no rosto, penteei o cabelo e saí. Quando
saí, os dois estavam no sofá vendo o jogo de rúgbi. Al tinha uma
garrafa de cerveja aberta para mim e eu me sentei, bebi e fumei um
cigarro. E foi só isso. Me levantei e disse que ia embora. Os dois
se despediram e Al me disse pra ligar qualquer hora. Aí eu saí do
apartamento pra rua, peguei meu carro e fui embora. E foi isso aí.
– Não foi à polícia? –
perguntou o garçom.
– Bem, você sabe, Carl, é
difícil... eles meio que me adotaram na família. Não é como se
tentassem esconder alguma coisa de mim.
– Do jeito que eu vejo, você é
cúmplice de um assassinato.
– Mas o que eu passei a pensar,
Carl, é que aquele pessoal na verdade não parece ser gente má.
Já vi pessoas que antipatizo muito mais e que nunca mataram nada.
Não sei, é realmente confuso. Até penso no cara no freezer como
uma espécie de grande coelho congelado...
O garçom puxou a Luger de trás do
balcão e apontou-a para Mel.
– Tudo bem – disse –, fique
paradinho aí enquanto eu chamo a polícia.
– Escuta, Carl... não é você que
tem de decidir isso.
– O diabo que não sou! Eu
sou um cidadão! Vocês babacas não podem simplesmente sair por aí
matando e metendo gente em freezers. Eu posso ser o próximo!
– Escuta, Carl, olha pra mim! Quero
dizer uma coisa a você...
– Tudo bem, manda.
– Foi tudo cascata.
– Quer dizer, o que você me contou?
– É, foi pura cascata. Uma
brincadeira. Peguei você. Agora guarda essa arma e põe aí um
uísque com água.
– Essa história não foi cascata.
– Acabei de dizer que foi.
– Isso não foi cascata: tinha muito
detalhe. Ninguém conta uma história assim. Não é brincadeira.
Ninguém brinca desse jeito.
– Estou dizendo a você que foi
cascata, Carl.
– Não tem jeito de eu acreditar
nisso.
Carl estendeu o braço para a esquerda
e puxou o telefone, que estava no balcão. Quando fez isso, Mel pegou
a garrafa de cerveja e atingiu-o no meio do rosto com ela. Carl
deixou cair a arma e levou as mãos ao rosto. Mel saltou o balcão,
tornou a golpeá-lo – desta vez atrás da orelha – e Carl caiu.
Mel pegou a Luger, mirou com cuidado, apertou o gatilho uma vez,
depois guardou a arma numa sacola de papel pardo, tornou a saltar o
balcão, dirigiu-se à porta e ganhou o boulevard. O parquímetro
dizia “prazo expirado” diante de seu carro, mas não havia multa.
Ele entrou e afastou-se.
Charles Bukowski, em Numa Fria

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