O pedregoso reino de Cíbola
O capitão Antonio de Espejo, que
tinha feito grande e rápida fortuna na fronteira do México, acudiu
ao chamado das sete cidades de ouro. A mando de uns quantos ginetes
guerreiros, empreendeu a odisseia do norte; e em vez do fabuloso
reino de Cíbola encontrou um imenso deserto, salpicado muito de vez
em quando de povoados em forma de fortaleza. Não há pedras
preciosas penduradas nas árvores, porque não há árvores a não
ser nos raros vales, e não há mais fulgor de ouro que o que arranca
o sol dos rochedos, quando golpeia duro.
Nestes povoados erguem os espanhóis
sua bandeira. Os índios ainda não sabem que logo serão obrigados a
mudar de nome e a levantar templos para adorar outro deus, embora o
Grande Espírito dos hopis tenha anunciado a eles há tempos que uma
nova raça chegaria, raça de homens de língua bifurcada, trazendo a
cobiça e a jactância. Os hopis recebem o capitão Espejo com
oferendas de broas de milho e perus e peles; e os índios navajos, da
serra, dão-lhe as boas-vindas trazendo água e milho.
Mais além, no alto do céu cor de
púrpura, se ergue uma fortaleza de pedra e barro. Do fio da meseta,
o povoado dos ácomas domina o vale, verdoso de milharais irrigados
por canais e represas. Os ácomas, inimigos dos navajos, têm fama de
muito ferozes, e nem Francisco Vázquez de Coronado, que andou por
aqui há quarenta anos, atreveu-se a se aproximar.
Os ácomas dançam em honra do capitão
Espejo e põem a seus pés mantas coloridas, perus, milho e peles de
veado.
Daqui a alguns anos, se negarão a
pagar tributos. O assalto durará três dias e três noites. Aos
sobreviventes cortarão um pé com um golpe de machado, e os chefes
serão jogados no precipício.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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