Sosseguei.
Aí eu não devia de pensar tantas ideias. O pensar assim produzia
mal ― já era invocar o receio. Porque, então, eu sobrava fora da
roda, havia de ir esfriar sozinho. Agora, por me valer, eu tinha de
me ser como os outros, a força unida da gente mamava era no suscenso
da ira. O ódio quase sem rumo, sem porteira. Do Hermógenes e do
Ricardão? Neles eu nem pensava. Antes pensei outra vez foi no
embuste do urucuiano. Atual ele se ajoelhava dobroso, com a perna
muito atrás, a outra muito para diante. Aquele homem ― achei ―
estava mandado por Zé Bebelo, para espreitar meus atos.
A
prova que era! de que Zé Bebelo despachava traição. As espumas
dele me espirravam. Será que fosse para o urucuiano Salústio no
primeiro descuido meu me amortizar? Tanto, não; apostei. Zé Bebelo
me queria vigiado, para eu não contar aos outros a verdade. Ora bem,
que uns companheiros tinham avistado os bilhetes eu escrever ― o
fato esquisito, assim, em hora de começo de fogo; mas por certo
pensavam que era para fazendeiros amigos nossos, chefes de homens,
rogando que viessem, com retaguarda e reforço. Agora Zé Bebelo
temia que eu candongasse. Aí mandou o urucuiano fazer a minha
sombra. Mas Zé Bebelo carecia de mim, enquanto o cerco de combate
desse de durar. Traidor mesmo traidor, e eu também não precisava
dele ― da cabeça de pensar exato? Ao que, naquele tempo, eu não
sabia pensar com poder. Aprendendo eu estava? Não sabia pensar com
poder ― por isso matava. Eu aqui ― os de lá do lado de lá. A
anhanga que em riba da gente despejavam, balaços de tantos rifles,
balas que quebram tetos e portas. Ah, isso era desgraça sem mão
mandante, ofensa sem nenhum fazedor ― quase feito uma
chuva-de-pedra, acontecer de trovões e raios, tempestade ―
parecesse? Eu ia ter raiva dos homens que não enxergava? Podia ter?
Tinha, toda, era dos que eu matava bem. Mas nem bem não era mesmo
raiva; era só confirmação.
Desse
jeito foi que entardeceu, o sol piscou; a gente tendo perdido a
certeza dos horários do dia. Afã de dessossego, era só. Daí,
pegava um cansaço. Fechasse a noite, o perigo podia vir a ser maior.
Os hermógenes não iam investir, mediante trevas, para um fim ali
dentro, de coronha e faca? Morreu mais o Quiabo. Outros atestavam uns
ferimentos. Por se necessitar da capela, os defuntos a gente foi
levando para um cómodo pequeno e sem janela, que era pegado na
escadinha do corredor. Alaripe apareceu com uma vela, acendeu,
enfiada numa garrafa. Vela sozinha, para eles todos. Aí as
lamparinas e candeias não bastavam? Debaixo dum alumiar de candeia,
Zé Bebelo estava me convidando. Arte que logo entendi. Ele tinha
mandado vir Joaquim Beijú e o Quipes, para um segredado.
Agora,
aqueles dois, era para surtirem, saindo rastejando, conforme o quiçá;
e cada um levava seu punhado de bilhetes, enviados. Por uma banda um,
o outro da outra: o que Deus aprovasse, chegava. Assim eles aceitaram
de cumprir, e motivos não perguntaram. Tudo em encoberto. Então ―
se Zé Bebelo guardava uma tenção honesta ― por que, dito e
feito, era que não punha todo o mundo ciente do tramado? Ainda
esperei. Mas ― dirá o senhor ― por que era que eu também não
delatava aquilo, os efeitos e projetos, ao menos a Diadorim e Alaripe
eu não contava? Deponho que não sei. Aos perigos, os perigos. Só
duma coisa eu forte sabia... Só que eu ia vigiar sempre Zé Bebelo.
Ele trair, vivo, eu não deixava. Zé Bebelo tinha sua espécie de
natureza ― que servia ou atraiçoava? Ah, depois eu ia ver. Ah, eu
ia ver se, no engasgo da hora, ele ia querer se estrapafar.
Joaquim
Beijú e o Quipes ainda foram na cozinha, cortar um de-comer,
arranjar matula. Por essa volta, o Jacaré mesmo combatia também, às
vezes em que não estava cozinhando, e vinha atirar, da beira duma
janela, com o Mijafógo. A noite breava própria; o mais escuro ia
ser regulando em antes das dez horas, que quando depois podia subir
um caco de lua. Aos poucos, foi dando um tão respeitável silêncio,
não se atirava de parte nem de outra, a gente mesma ficava na
cautela de não se fabricar rumor nenhum, de não se pautear sem
necessidade. De noite, o clarão das pólvoras marca denúncia do
lugar do atirador. ― Noite é pra surpresas de estratagemas, noite
é de bicho no usável... ― o Alaripe baixo falou. O cearense bom!
esse permanecia em tudo igual, com ele a gente desproduzia qualquer
remorso, o brigar parava sendo obrigação de vivente, conciso dever
de homem. Por uns assim, eu punia. Por uns, assim, eu devia de ser
inteiro leal, eu mesmo. Mas, então, eu carecia de encostar Zé
Bebelo, o espremer na franca fala. A que ele soubesse de minha lei! a
que ele sem um aviso não se desgraçasse. Mesmo por causa da gente ―
porque Zé Bebelo era a perdição, mas também só ele podia ser a
salvação nossa. Então, com ele eu ia falar, o quieto desafio.
Adiantava? Aí não adiantasse. Mas, então, eu carecia de armar um
poder, carecia de subir para cima daquele homem. Eu tinha de encher
de medo as algibeiras de Zé Bebelo. Só isso era o que valia.
Contra
o quanto, ele lavorava em firmes, pelo mais pensável, não
descumpria de praxe nenhuma. Determinou o pessoal, para sono e
sentinela, revezados. Onde perto de cada um dormindo, um parava
acordado. Outros rondavam. Zé Bebelo, mesmo, ele não dormia? Sendo
esse o segredo dele. Dava o ar de querer saber o mundo universo,
administrava. Ao quase, que. A água para a serventia da casa vinha
num rego, que beirava a cozinha, encostado, no lateral, descia e
passava ainda por baixo da coberta. A gente podia encher as latas,
sem arrisco. ― O que eles hão-de, é de demover o rego, lá em
riba, botar fácil a gente a seco...
Zé
Bebelo ponderou. Mandou reservar quantia repleta! as vasilhas achadas
e procuradas. Fizemos. Mas, de destorcerem o veio do rego, nunca que
sucedeu aquilo. Até o derradeiro final, correu água bastante, todo
o tempo, fresca abarulhava. Ao se fossem também empeçonhar o de
beber? Toleima. Aonde iam ter sortimento de veneno, para águas
correntes corromper?
Deus
escritura só os livros-mestres. Na noite Zé Bebelo saíu,
engatinhando por mais escuro, e revestido com as roupas bem pretas
que arranjou, dum e doutro. Ele devia de ter ido até longe, como
rato em beira de paiol ― que coruja come. Queria era farejar com os
olhos o reprofundo. Voltou, aí deu ordem de outra coisa: que todos
aproveitassem o sem-lua para suas necessidades boçais, aquelas
tapadas estâncias. A gente ia, num vão de buracos, da banda das
senzalas. Assim Zé Bebelo instruiu; e se virou para mim. ― Inimigo
que faz igual numeração, ou menor do que a nossa. Por via disso é
que não tomam coragem de dar assalto, e é também que eles não
conhecem o interior desta boa casa... Falou o tanto, comigo. Por que
era que ele me escolhia, para os sussurros segredar? Me achava
comparsa? ― ...Os beócios, sem ideias... Não chegam a ser
contrários para mim! ― ele muxoxou, até desapontado. A modo que
eu, em Zé Bebelo, quase que tinha perdido toda minha fiança. A
amizade dele eu para longe de mim já encostava ― porquanto que,
por mão minha, no incerto, ele podia ainda vir a precisar de ser
matado. Eu estava em claro. Eu tinha preenchido aqueles bilhetes e
cartas, amanuense, os linguados de papel ― eu compartia as culpas.
A invencionice de ambicioneiro. ― Riobaldo, Tatarana, tu vem
comigo, porque tu é ponteiro bom, fica de estado-maior meu... ―
ele avolumou. Me inteirei. Ali, era a vez.
Ali
era a alçada para eu fazer e falar o que já disse, que eu estava
com essa razão na cabeça. Se tanto, pensei: E a minha viveza...
Pelo que repontei:
― E.
Eu vou, com o senhor, e o urucuiano Salústio vem comigo. Vou com o
senhor, e esse urucuiano Salústio vem comigo, mas é na hora da
situação... Aí, na hora horinha, estou junto perto, para ver. A
para ver como é, que será vai ser... O que será vai ser ou vai não
ser... ― alastrei, no mau falar, no gaguejável. Senhor sabe por
que? Só porque ele me mirou, ainda mais mór, arrepentinamente, e eu
a meio me estarreci ― apeado, goro. Apatetado? Nem não sei. Tive
medo não. Só que abaixaram meus excessos de coragem, só como um
fogo se sopita. Todo fiquei outra vez normal demais; o que eu não
queria. Tive medo não. Tive moleza, melindre. Aguentei não falar
adiante.
Zé
Bebelo luziu, ele foi de rajada!
― Ao
silêncio, Riobaldo Tatarana! Eh, eu sou o Chefe!?…
Saiba
o senhor ― lá como se diz ― no vertiginosamente!
Avistei
meus perigos. Avistei, como os olhos fechei, desvislumbrado. Aí como
as pernas queriam estremecer para amolecer. Aí eu não me formava
pessoa para enfrentar a chefia de Zé Bebelo?
Agora,
pois. Mas agora não tinha outro jeito. Ah? Mas, aí, nem sei, eu não
estava mais aceitando os olhos de Zé Bebelo me olhar. No mundo não
tem Zé Bebelo nenhum... Existiu, mas não existe... Nem nunca
existiu... Tem esse chefe nenhum...Tem criatura nem visagem nenhuma
com essa parecença presente nem com esse nome... ― eu estabeleci,
em mansas ideias. Aceitei os olhos dele não, agarrei de olhar só
para um lugarzinho, naquele peito, pinta de lugar, titiquinha de
lugar ― aonde se podia cravar certeira bala de arma, na veia grossa
do coração... Imaginar isso, no curto. Nada mais nada. Tive medo
não. Só aquele lugarzinho mortal. Teso olhei, tão docemente.
Sentei em cima de um morro de grandes calmas? Eu estava estando. Até,
quando minha tosse ouvi; depois ouvi minha voz, que falando a dável
resposta!
― Pois
é, Chefe. E eu sou nada, não sou nada, não sou nada... Não sou
mesmo nada, nadinha de nada, de nada... Sou a coisinha nenhuma, o
senhor sabe? Sou o nada coisinha mesma nenhuma de nada, o menorzinho
de todos. O senhor sabe? De nada. De nada... De nada...
Ao
dito, falei; por que? Mas Zé Bebelo me ouviu, inteiramente. As
surpresas. Ele expós uma desconfiança perturbada. Esticou o beiço.
Bateu três vezes com a cabeça. Ele não tinha medo? Tinha as
inquietações. Sei disso, soube, logo. Assim eu tinha acertado. Zé
Bebelo então se riu, modo generoso. Adiantava? Ainda falou: ― Ah,
qual, Tatarana. Tu vale o melhor. Tu é meu homem!... ― para
alargamentos. Murmurei o sósso de coisa, o que nem era palavras. ―
A bem, vamos animar esses rapazes... ― amém, ele disse,
espetaculava. Daí desapartamos, eu para a cozinha, ele para a
varanda. O que eu tinha feito? Não por saber ― mas somente pelo
querer ― eu tinha marcado. Agora, ele ia pensar em mim, mas
meditado muito. Achei. Agora, ele ia não poder trair, simples, mas
havia de raciocinar as vezes, dar de rédea para trás ― do
avançado para traição. A certa graça, a situação dele,
aparvada. Eu estava com o bom jogo.
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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