O
apóstolo Santiago contra a peste
Aqui
pagaram tributo, em dinheiro ou em milho, até os bebês de peito. Se
a peste continua, quem pagará? Braços daqui levantaram a catedral
do México. Se não cessa a peste, quem semeará estes campos? Quem
fiará e tecerá? Quem erguerá igrejas e porá pedras nas ruas?
Os
franciscanos discutem a situação no convento. Dos trinta mil índios
que existiam em Xochimilco quando os espanhóis chegaram, sobram
quatro mil, e exagerando. Muitos morreram lutando ao lado de Hernán
Cortez, conquistando homens e terras para ele, e mais morreram
trabalhando para ele e para Pedro de Alvarado, e muitos mais estão
morrendo graças à epidemia.
Frei
Jerônimo de Mendieta, guardião do convento, tem uma ideia
salvadora.
Preparam
o sorteio. Um coroinha, de olhos vendados, remexe os papeizinhos na
bacia de prata. Em cada papelzinho está escrito o nome de um santo
de provado predicamento na corte celestial. O coroinha escolhe um e o
padre Mendieta desdobra e lê:
– É
o apóstolo Santiago!
Do
balcão, faz o anúncio aos índios de Xochimilco na língua deles. O
apocalíptico frade fala de joelhos, erguendo os braços:
– Santiago
derrotará a peste!
Promete-lhe
um altar.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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