sábado, 2 de agosto de 2025

1576 – Xochimilco

O apóstolo Santiago contra a peste

Aqui pagaram tributo, em dinheiro ou em milho, até os bebês de peito. Se a peste continua, quem pagará? Braços daqui levantaram a catedral do México. Se não cessa a peste, quem semeará estes campos? Quem fiará e tecerá? Quem erguerá igrejas e porá pedras nas ruas?
Os franciscanos discutem a situação no convento. Dos trinta mil índios que existiam em Xochimilco quando os espanhóis chegaram, sobram quatro mil, e exagerando. Muitos morreram lutando ao lado de Hernán Cortez, conquistando homens e terras para ele, e mais morreram trabalhando para ele e para Pedro de Alvarado, e muitos mais estão morrendo graças à epidemia.
Frei Jerônimo de Mendieta, guardião do convento, tem uma ideia salvadora.
Preparam o sorteio. Um coroinha, de olhos vendados, remexe os papeizinhos na bacia de prata. Em cada papelzinho está escrito o nome de um santo de provado predicamento na corte celestial. O coroinha escolhe um e o padre Mendieta desdobra e lê:
É o apóstolo Santiago!
Do balcão, faz o anúncio aos índios de Xochimilco na língua deles. O apocalíptico frade fala de joelhos, erguendo os braços:
Santiago derrotará a peste!
Promete-lhe um altar.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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