quarta-feira, 2 de julho de 2025

Diário de Bernardo Soares

34.

Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores. E isto escrito, então, parece-me a eternidade.
Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.
Passar dos fantasmas da fé para os espectros da razão é somente ser mudado de cela. A arte, se nos liberta dos manipansos assentes e obsoletos, também nos liberta das ideias generosas e das preocupações sociais — manipansos também.
Encontrar a personalidade na perda dela — a mesma fé abona esse sentido de destino.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

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