segunda-feira, 23 de junho de 2025

Quarto caderno de Kindzu




A Filha do Sol

Me chamo Farida, começou a mulher o seu relato. Falava com voz baixa, em rouquidão que vinha da timidez. Conservei-me afastado, de olhos no chão. Durante a sua longa fala me calei como uma sombra para lhe dar coragem. A mulher se trocou por palavra até quase ser manhã.
Farida era filha do Céu, estava condenada a não poder nunca olhar o arco-íris. Não lhe apresentaram à lua como fazem com todos os nascidos da sua terra. Cumpria um castigo ditado pelos milénios: era filha-gémea, tinha nascido de uma morte. Na crença da sua gente, nascimento de gémeos é sinal de grande desgraça. No dia seguinte a ela ter nascido, foi declarado chimussi: a todos estava interdito lavrar o chão. Caso uma enxada, nesse tempo, ferisse a terra, as chuvas deixariam de cair para sempre.
Dias depois, sua irmã morreu. Deixaram-na morrer com fome. Fizeram isso por bondade: para aliviar a maldição. Enterraram a menina no pequeno bosque sagrado onde dormem as crianças falecidas. Meteram-lhe numa panela de barro quebrada. Foi semeada sem quase nenhuma terra lhe cobrir. Destinaram-lhe um lugar perto do rio, onde o chão nunca seca. Assim as nuvens lembrar-se-iam sempre da obrigação de molhar a terra.
A mãe de Farida nunca mais teve filhos. Dizem que ela não foi capaz de apagar a sua impureza após o nascimento. Fizeram as cerimónias: não resultou. Queimaram a palhota, juntaram todas suas coisas numa grande fogueira. A mãe ficou ali, sofrendo culpas por ter subido ao Céu, único lugar onde se pode encontrar meninos gémeos. Chorou então o que ela não pôde chorar no enterro da filha. A tradição ordena: ninguém chore em luto, o lamento não pode senão chamar mais desgraça. Para Farida, a morte da gémea não foi nunca mencionada: tua irmã? Foi na casa da avó, ficou lá viver. Assim se murmurava.
Depois das cerimónias, mandaram que a mãe saísse da aldeia. Junto com a filha foram morar num mato próximo, de verdes desleixados. Ali viveram sem nunca receber visitas: vinham os da família mas ficavam longe, escondidos. Receavam o contágio. Gritavam dali suas mensagens. A única que lhes trazia comida era tia Euzinha, mulher larga, de muito assento. Ela conversava com elas, trazia notícias dos outros. Também Euzinha conhecia os modos de estar só, seu marido partira para a guerra, moribundando em parte incerta. Certo dia ela trançava os cabelos da sobrinha, seus dedos contando estórias de embalar, quando sua voz despertou a menina:
Sua irmã, sabe ela está onde?
Minha irmã morreu, tia.
Mentira! Sua irmã está muito viva, a morte nem lhe arranhou.
Foram suas palavras. Farida sentiu lágrimas nascerem dentro de si mas fechou-lhes caminho com um sorriso. A tia dizia coisas sem pés na cabeça.
Onde está seu fio, o colar que foste dada?
Mostrou o fio. Ela segurou-o por um tempo, apertou a pequena estátua que estava pendurada nele. Perguntou se a sobrinha sabia o que era aquela figurinha de madeira. Farida não sabia, aquele colar lhe tinha sido posto enquanto a memória não lhe tinha chegado aos olhos.
Essa madeirinha, essa estátua é sua irmã. Não vê está partida ao meio, é só uma metade? A outra metade quem tem é sua irmã, num colar igual desse.
Afinal, a mãe tinha recusado cumprir a inteira tradição. Matara a irmã-gémea só em fingimento. Na verdade, entregaram a criança a um viajante que sofria por não receber filhos de sua legítima criação. Depois, mais não se soube dela. Teria um outro nome, outro corpo, outro cheiro. Ou será que ela ainda vivia? E, se assim fosse, onde ela procedia sua vivência?
Desde essa revelação os sonhos de Farida se encheram de gritos, suores fundos. Lhe apareciam raízes quebrando o pote de barro onde sobrava sua pequena irmã. Pesadelos que duraram enquanto ali viveram.
O lugarzinho, no enquanto, foi sendo alvo de desgraças. A terra caiu em desordem, sopraram ventos que arderam no sol, secaram fontes e lagos. As nuvens, medrosas, fugiram. A fome e a morte instalaram residência. Tudo aquilo acontecia, dizem, por causa da mãe não se ter purificado. De noite, ouviam as cerimónias. Pedia-se aos antepassados o favor de alguma chuvinha. O escuro se enchia de tambores, moendo a tristeza como um pilão.
Como as chuvas demorassem, vieram buscar a mãe. No quintal dela entraram mulheres meio-nuas, essas que costumavam limpar os poços. Precisavam de uma mãe de gémeos para as cerimónias mágicas. Mandaram que ela mostrasse o túmulo de sua filha. Farida acompanhou o grupo que, em fila, foi até à margem do rio. Quando chegaram à campa, as mulheres verteram água sobre o pote fúnebre. Dançaram, xiculunguelando. Depois, meteram a velha num buraco e foram-no enchendo de água. Ela pedia: me deixem, tenho frio.
Mas as mulheres não abrandavam. A mãe de Farida visitara o Céu e se ela estivesse molhada, certamente as nuvens também se encharcariam. As chuvas viriam, por fim.
Parem, ela está sofrer, gritou Farida.
Mas elas prosseguiram, cobrindo a coitada com água fria. Até que se afastaram dançando e cantando, deixando a mãe no fundo da terra ensopada. Farida se aproximou, quis ajudá-la a sair. Mas ela recusou: devia ficar ali, matopar-se, pagar sua dívida com o mundo. Toda a noite, a filha permaneceu na cabeceira do buraco. E lhe cantou um embalo, fosse a mãe a pequenina, saída do ventre da jovem. Cansada, Farida adormeceu.
De madrugada, quando despertou, já a mãe ali não estava. Tinham-na levado, gelada de mais para se manter impura. O sangue de sua mãe, vertido em seu nascimento, já não sujava a aldeia. Nesse mesmo dia, tombaram grossas chuvas. As sementes e a esperança se tinham finalmente reconciliado.
Desde então, a infância de Farida ficou órfã. Ela cresceu, acarinhada por si mesma, na infinita espera de sua mãe. Acreditava que ela regressaria, envolta em seus tristes trapos. No sonho ela ascendia entre fumos, vinda do fundo de um buraco e trazendo nas mãos um pote igual aos que servem para enterrar os meninos. Os dedos dela eram raízes que, depois, se convertiam em cobras feitas de fogo. Essas chamas andantes se anichavam na filha e lhe queimavam o peito. Essa crença a manteve, sobreviveu graças a essa ilusão.
Nunca mais ninguém desejou notícia de Farida, ela ingressara no obscuro mundo dos sobreviventes. Mais tarde, porém, a recordaram de novo: precisavam de uma gémea para os rituais da chuva. Mandaram-lhe chamar e disseram que colhesse os nunos, esses insectos negros que abundam nas machambas. Ela que trouxesse todos os que encontrasse nos campos cultivados. Demorou uma manhã catando as folhas. Meteu todos aqueles bichinhos num velho pano e se dirigiu à lagoa. Atrás vinham as mulheres, cantando e balançando o corpo untado de ervas.
Deitou os nunos na água e viu como se afogavam, as patas estremexendo dentro da água. Até o último desaparecer, ela estava proibida de virar a cabeça. Enquanto isso, as mulheres entoavam canções vergonhosas. Pronunciavam palavras que não se ouve nunca de nenhuma mulher.
Quando todas as velhas se retiraram ela já tinha tomado a decisão de partir. Aquele lugar já estava cansado dela. Se lançou na estrada, sem nada senão as roupas. Andou, andou, andou. Passou-se uma noite, uma manhã. O sol perpendiculava-se quando lhe veio uma tontura e abandonou todos sentidos. Desmaiou.
Despertou numa casa de cimento, deitada em colchão de espuma. Lhe tinham levado para a residência de um casal de portugueses. Romão Pinto, dono das muitas terras e Dona Virgínia, sua esposa, trataram dela durante anos. Lhe ensinaram a escrever e falar, lhe corrigiram as maneiras que trazia da terra. Virigínia, assim lhe chamavam, era generosa como já não há. Foi ela que teimou em lhe adoptar como se fosse sua filha. Muitas vezes Farida sentiu desejo de a tratar por “mãe”. Mas ela não aceitou. Tua mãe não haveria de gostar, dizia ela. Suas mãos trançavam os cabelos de Farida e a cabeça dela adormecia longe de si, longe do mundo. Cresceu nessa sombra, ali lhe despontaram os seios, ali se tornou mulher. Foi nessa casa que, pela primeira vez, sentiu os olhos de um homem salivando. Romão Pinto lhe perseguia, suas mãos não paravam de lhe procurar. Às vezes, de noite, espreitava pela janela enquanto ela tomava banho. Farida estava cercada, indefesa. Não podia queixar a Dona Virgínia, menos podia enfrentar as tentativas de Romão.
O desejo dele crescia por toda a casa, como uma viscosa humidade. Ela o sentia com uma mistura de nojo e receio. Teria odiado aquela casa não fosse a velha a ter tratado como uma mãe, fazendo nascer a outra raça que agora nela existia. Virgínia, Virginha, Virgininha: quem era? Dela o quanto se sabia era pouco. Cabia em mão fechada, sobrando entre os dedos aquilo que mais queríamos agarrar. Vivia vagarosa como uma lágrima. Romão a guardava em estado de matéria, com garantia de que ela existisse simples de lembrar.
Estás proibida!
O marido lhe gritava com insistência as interdições: ler, ouvir rádio, cantar. Tudo porque ela insistia no desejo de regressar a Portugal. Era a sua única vontade, o breve círculo do seu sonhar.
Mas, mamã Virgínia: por que não gosta desta terra?
E quem te disse que não gosto?
Era por razão desse amor que ela queria partir. Porque a visão daquela terra, em tais desmandados maus tratos, era um espinho de sangrar seus todos corações. E suspirava, em imperfeita certeza: quanto tempo demora o tempo! Depois, dedo cruzando os lábios em ordem de segredo, conduzia Farida pelo corredor. Queria que a menina contemplasse o vestido verde, pendurado, pronto, sem nenhuma ruga.
É para a viagem!
E sorria, alegre desse mais tarde, consoante o sonhado. Ficava na janela olhando o país que inexistia, desenhado em geografia da saudade. Tanto esmolou a Deus um outro lugar que ela se foi fazendo remota e, aos poucos, Farida receou que sua nova mãe nunca mais se acertasse. Sobre velhas fotografias, com um lápis, a velha portuguesa desenhava outras imagens. Às vezes, recortava-as com uma tesourinha e colava as figuras de umas fotos nas outras. Era como se movesse o passado dentro do presente:
Olha, vês? Este é meu tio. Foi quando ele veio cá visitar-nos.
Um tal parente jamais estivera em África. Mas Farida nem ousava desmentir. As fotos recompostas traziam novas verdades a uma vida feita de mentiras.
Certa vez, Virginha levou a adoptiva para o quintal e ordenou que se sentassem na grande sombra da mangueira. Ela sempre mostrou temor pelas cobras que se agradam dos doces troncos da árvore. Naquele momento, parecia ter esquecido esse perigo. Lentamente, a velha desdobrou os tempos, contando episódios de sua vida. Demorou dias, em detalhes. A velha mirabolava?
Por que me conta tudo isso, mamã Virgínia?
Porque quero que me passes a escrever.
Escrever?
Era. Farida deveria enviar-lhe cartas, falseando autorias, fingindo o longe. Foi o que passou a fazer, se entretendo a ser, de cada vez, um diferente familiar. Nunca pôde imaginar quanta bondade estava criando. Virgínia lia as cartas com aquele soluço que é o tropeço do choro. Farida escutava em tal embalo que se desconhecia autora da missiva. Ou era a velha que inventava, refazendo a irrealidade do escrito? Romão Pinto chegava do bar do Ferroviário e via as duas, naquelas más horas, inclinadas com doçura no colo uma de outra. Ele nada perguntava, passava espreitando, aproveitando para roçar as pernas da jovem. As mãos do português assentavam sobre os ombros de Farida, em escondida carícia. Virginha parecia nada ver, entretida com seus devaneios.
Mas a vida é a autoridade desordeira: a segunda mãe se apressava naquela doença sem retorno. A velha já nem se confiava, cada vez mais fiel às suas falsidades. Um dia lhe disse:
Vou-te levar daqui, não podes ficar mais connosco.
Levar para onde, mãe?
Farida tremia. Sem se perceber ela lhe estava chamando de mãe. Devia ser do medo que a invadia.
Farida, escuta minha querida. A tua mãe... eu estou chegando ao fim de minhas forças. Tenho medo que, amanhã, já não mais possa cuidar de ti. É por isso que te vou levar daqui.
Aqueles olhos dela, planetários, a contemplavam sem pestanejo. Nessa mesma noite, ela lhe veio despertar. Tomou Farida pela mão com força, guiando-lhe pelo escuro do corredor. Tirou o vestido verde que guardava para a viagem e se aprontou com decisão.
Vamos!
Saíram, rumo à Missão. Foi o padre quem veio à porta, seu corpo cobrindo a luz que vinha do interior. Quando Virgínia entregou Farida ao padre a menina entendeu que a sua presença já havia sido previamente falada. Virgínia lhe deu as mãos, os dedos das duas se ameijoaram. Os corpos se despediam, sem competência para o adeus.
Vou continuar a escrever-lhe, mamã.
Não é preciso, filha. Já não preciso.
E afastou-se, suas costas mirrando no escuro. Naquele momento, começava a segunda orfandade de Farida.
Por um tempo ela ficou na Missão, num pequeno quarto cheio de sossego. Estudava, lendo o mais que podia. Se fantasiava, enchendo o tempo. Mas lhe faltava o acontecer da vida, a quentura do mundo onde nascera. Aquele lugar lhe deixava um frio interior. Afinal, todos queremos no peito o nó de um outro peito, o devolver da metade que perdemos ao nascer. Em cada noite, o corpo da jovem se amendoinhava, arredondando lentos suspiros. Foi assim que lhe nasceu a ideia de sair daquele lugar, sem nenhuma despedida. O padre era um homem de deixar, suas palavras não sendo de pregar nem o sim nem o não. O Bem nasce é de autorizadas manhas, costumava ele dizer. O sacerdote, certo dia, lhe chamou. Ele compreendera vontades que nela estavam caladas, sonhos que nunca lhe haviam aflorado.
Queres sair da Missão, eu sei. Este lugar tem pouca vida para uma menina da tua idade.
Não valia a pena ela discordar de si mesma, pensar no certo ou no incerto dos seus actos. Farida que regressasse aos lugares de sua infância se esse era o seu desejo. O mundo não tem nenhuma utilidade, disse ele. E concluiu: a felicidade só cabe no vazio da mão fechada. A felicidade é uma coisa que os poderosos criaram para ilusão dos mais pobres.
No caminho para a aldeia, Farida passou por casa de Romão Pinto. Queria ver Virginha, tocar seu rosto bom, sarar uma saudade. Quem abriu a porta foi o português, com seus olhos de morder.
Virgínia não está, foi à vila levar um doente.
Disse que a esposa voltaria nessa mesma noite. Farida que esperasse, se servisse de seu antigo quartinho de dormir. Entrou, relutante. Havia um perfume doce, vindo das goiabeiras do quintal. Contudo, naquele momento, só lhe chegavam azedas lembranças. Quem sabe fosse a ausência da Virginha que a amargava. Afinal, mesmo com o carinho de Virginha, aquela fora a casa onde ela não tivera lar.
A porta do quarto se fechou, deixando Farida só. No pente de metal, em cima da mesinha, havia ainda cabelos seus, caracoladinhos como crianças no ventre materno. Tardou em cada objecto, parecendo que as coisas que em tempos tocara, saudosas, lhe reconheciam agora. Na parede húmida estava ainda uma fotografia sua, em moldura de madeira. Aquela era sua única imagem. Por isso, lhe ocorreu levar a foto consigo. Quando a retirava viu que, no papel amarelecido, ela já não estava sozinha. Em redor do rosto dela estavam desenhadas figurinhas várias, tantas que pareciam mover-se e trocarem de posição. Sorriu, decidida a devolver a moldura à parede. Aquela era obra de Virginha, pondo vida em seu retrato. Quantas vezes não o teria ela pousado sobre o leito, discorrendo mentiras sobre a permanência da adoptiva na velha casa?
Era meia-noite e Virgínia não tinha regressado. Farida se afogou na cama, cansada. Não deu interesse a um ruído da porta. Nem despertou para aquela voz que a puxava, aqueles modos que ela inesquecera. Era Romão que rondava seu leito. Os passos dele cercavam-lhe o medo, enquanto ia esquentando suas brasas. Em silêncio, rezou com desespero. Colocou tanta fé nesse socorro que perdeu o receio do que pudesse suceder. Romão se sentou na cama, seus braços procuraram no escuro. Quando seus dedos roçaram o rosto da menina ele sentiu o molhado de caladas lágrimas. Essa tristeza ainda mais lhe afiou os apetites. Foi envolvendo Farida, cada avanço dele a doidoendo. Joelhos no peito, ela se pequeninava. Lá fora, a meiguice da lua não fazia suspeitar quanto ódio fermentava naquele quarto. Os anjos demoravam, Romão ganhava vantagem. Na aflição ela se perguntava: e afinal Deus? Por que se demora tanto?
Desistiu de esperar e se ergueu de um salto, escapulada, tirando o corpo do alcance das babas do Romão. Surpreso, o português trancou a voz nos dentes, soprando ameaças. Memórias antigas da raça lhe avisaram: melhor seria ela se deixar, sem menção nem intenção. O português se homenzarrou, abusando dela toda inteira. Transpirava imensos suores. Romão surgia cada vez mais peganhento, colajoso como um sapo. Aquele suor lhe surgiu como se fosse a prova: aquele homem era um estrangeiro, retirado do seu mundo. Na sua terra ele pouparia suores ao fazer amor. Mas ele estava deslocado como um sapo longe do seu charco. E como um sapo adormeceu em seus braços, roncando. Empurrou o peso daquele corpo como quem afasta uma culpa.
Amanhecia quando arrumou o saco e saiu por esse cacimbo que molha tanto como a chuva menininha. Chorou, chorou. Queria atar a tristeza com o fio de suas lágrimas. Chamou todo o ódio contra aquele homem que a violara. Mas o ódio não veio. A culpa era só dela, transitando entre esses mundos, num vira-revira. Ela devia, enfim, retornar ao seu lugar de origem, a ver se o tempo ainda tinha jeito para lhe embalar. Mas ela, no fundo, sabia que não havia de reencontrar o mundo onde nascera. Tia Euzinha, quando a viu chegar, traduziu esse receio:
Não devias ter voltado, filha.
Que a gente da aldeia não haveria de a querer ali, ida e voltada, outrora menina da terra, hoje mulher de visita. Se saíra, cortara os laços, não devia mostrar o golpe da partida. Porque nela lhes doía o terem ficado. A formiga incomoda é dentro das roupagens.
Nos meses que ali permaneceu uma terrível certeza lhe foi chegando: ela se barrigava, um filho nela se aninhava. Esse menino viria a nascer sem a devida cor: seria um mulato. Tia Euzinha lhe tinha avisado: não confesses a verdadeira raça dele, antes vale dizeres que ele é albino. Nascera assim porque, durante o ventre dela, fora atravessado por um relâmpago. Era essa a crença que explicava os albinos.
Mas tia, reclamou Farida, se eu apresentar o menino como albino vou criar mais um motivo para ser afastada. Euzinha bem sabia o preço dessa mentira. Ninguém mais poderia beber pelo seu copo, nenhuma mulher se deteria no caminho para lhe trocar os bons-dias. Nascida gémea primeiro, agora mãe de um albino: ela era a pior das leprosas, condenada para sempre à solidão.
Mais vale tu sofreres que a criança, teimou Euzinha.
Esse menino nasceu sem que ela nascesse mãe. Em nenhum momento Farida notou alguma vontade de lhe dar cuidados. Foi à igreja e entregou a criança como se fosse uma encomenda de ninguém, um lapso da vida. Ficou lá, na Missão, nunca mais ela o viu. Com certeza, já faleceu. Ou foi levado pelos bandos, tornado um matador de gente. Se queria ver o filho? Não sabia, lhe custava falar o assunto. Porque se era punida por sua lembrança só ganhava amargura com seu esquecimento. Não podia nomear esse filho dela, caso senão ele todo lhe vinha à boca, lhe estalavam os lábios para saírem suas porções. Essa criança está-me dentro, sobra-me. Assim dizia Farida. E acrescentava: Tenho-o dentro como um fruto abriga o caroço. Eu sou a polpa dele, estou nascendo dele, empurrada pelo seu corpo, amadurecendo até tombar na terra e ser comida pelos vermes. É assim que me sinto.
Agora, encostada nas cordas do velho barco aquela mulher desfiava dolorosas lembranças. Seu filho era o nó onde se enlaçavam todas as suas recuadas vivências. Houve um tempo que tentou regressar atrás, recuperar esse menino. Foi à Missão, era uma tarde bonita. Sentada na berma do poço estava uma freira branca. Chamava-se Lúcia, chegara há pouquinho tempo à Missão. Parecia capaz de bondades, atenta às alheias tristezas. Ela puxava um balde por uma corda, lhe doía o tanto peso. Farida se ofereceu para a ajudar. Lúcia ficou olhando em silêncio enquanto ela puxava. Recebeu a água e perguntou:
És tão bonita! De onde vens?
Quis falar mas nenhuma palavra lhe aflorava a boca. Seu filho não lhe chegava, parecia um motivo cansado. Será que ela realmente amava aquela criança?, se perguntava Farida. Se assim fosse não saberia mentir a si própria. Uma coisa a guerra faz acontecer: tudo se vai tornando verdade. Está-se pisando a fronteira, morte e vida nos trocáveis lados de um mesmo risco. Irmã Lúcia insistiu, inquirindo sobre o quê da visita de Farida.
Venho falar, Irmã.
Finalmente, ela desemudecia. Falou mas ocultando a razão da sua presença.
Diz, minha filha.
Irmã, peço: me conte estórias!
A freira se surpreendeu. A visitante lhe explicou: queria saber notícias do mundo, ouvir as cores desse longe em que seus sonhos teimavam. Pouco importava que fossem ou não verdade. A freira, então, se demorou em desfiadas estorinhas, como se adivinhasse sua carência de fantasia. Quando se calou, o sol se inclinava na varanda da tarde. A terra sofria a inundação do poente, os campos se cultivavam de poeira-laranja. Lúcia perdera a força de mais encantorias, sua voz se desbotava vencida pela força das coisas reais, o adverso presente.
Lá onde vens também há guerra?
Farida acenou a cabeça, confirmando. O sentimento da guerra a fazia calar. A noite, de repente, se espalhou em toda a parte. Finalmente, a visitante foi capaz de anunciar suas intenções. Queria reaver seu menino, renascer como mãe. A freira lhe olhou longamente, com doçura.
Teu filho é Gaspar, não é?
Ela adivinhara e, por momento, Farida teve medo que se opusesse. Perguntou apenas se ela tinha condição para tratar da criança. Respondeu que não mas que também não podia esperar essa condição. A Irmã abanou a cabeça em concordância. Então, a religiosa falou sobre demoradas tristezas de Gaspar, no sempre afundado entre os magros ombros. Não podia haver criança exercendo, neste mundo, tamanha desolação. Nunca em sua face foi visto rabisco de sorriso. Apenas de noite, enquanto dormia, o menino gargalhava. Eram risos que faziam gelar quem quer que escutasse. A Irmã era a única que, nesses momentos, se chegava ao seu leito. Ficava na cabeceira, aguardando que ele recuperasse o sossego.
Farida inspirou para fundo de si. As palavras da freira lhe faziam crescer antigos remorsos. Lhe vieram as dores da noite em que Romão lhe tomou pelo abuso, seus nervos se raspavam na memória.
Não sei se o teu filho vai aceitar este encontro. Há muitos que não querem nunca mais ver seus pais. Precisamos saber o que ele pensa. Espera, vou chamar Gaspar.
Farida se assustou. Pediu à Irmã que não fizesse, ela não estava preparada para encarar seu menino. Se levantou, tonteando em círculos. Lúcia lhe segurou as mãos, trazendo-lhe sossego.
Deixa, eu falo com ele. Marquemos para amanhã, espera-nos junto da ponte.
Farida se preparou para esse encontro como se fosse um noivado. Se vestiu com cuidados, penteou-se com mil esmeros. Esperou com coração de passarinho. Passou a hora, seu filho não compareceu. Contudo, uma estranha sensação ia tomando seu espírito desde que chegara. Lhe parecia que, do outro lado da ponte, um vulto espreitava, entrecoberto por trás de uns arbustos.
Gaspar?
Queria ter chamado: filho. Mas não lhe saiu. Não tinha acesso a essa palavra. As folhas do arbusto se imobilizaram. Farida se convenceu que era ilusão, não havia ninguém espreitando. Era já escuro, ela se retirava quando deparou com a Irmã.
Gaspar fugiu da Missão, disse Lúcia.
Nunca mais soube dele. Passaram anos mas, para ela, seu filho permanece pequenito, fugindo em desamparos pelo mato e requerendo parte de si que nunca nasceu. Por motivo dessa criança, ela só chorava lágrimas de leite. Desciam brancas na pele escura e quando as tocava, em seus dedos se arredondavam como pequeninos sóis brilhantes.
Mesmo agora, me contando tudo isso, Farida lutava com as lágrimas. Estava no fim de seu relato, sua voz estava mais firme.
Continua, pedi.
Desde então ela queria cumprir um sonho antigo: sair dali, viajar para uma terra que ficasse longe de todos os lugares. Quando soube de que um navio naufragara ela se juntou ao grupo de pescadores que se dirigia para o lugar do acidente. Os pescadores assaltaram o mais que puderam, encheram a transbordar os seus barquitos. E, no fim, lhe disseram:
Já não te vamos levar. Não há lugar para ti.
Eles tinham trocado pessoa por coisa. Porém, Farida não sentiu mágoa. Estranhamente se sentiu aliviada, aquilo era uma prenda do destino. Primeiro: em terra ela já não tinha nenhum lugar. Segundo: depois desse primeiro grupo de pescadores mais ninguém conseguiu abordar o navio náufrago. A toda volta do banco de areia se levantaram ondas que persistiam como guardiãs da solidão do navio. Estar ali era para Farida como uma estação de aguardo para uma outra vida. De uma coisa ela tinha certeza: os donos do navio viriam buscar suas propriedades. Um navio daquele tamanho, maior que uma povoação, não podia ser deixado assim. Os devidos proprietários viriam buscar-lhe e a encontrariam ali, pronta para toda a viagem.
Farida se interrompeu, em brusco silêncio. Se ergueu e chegou junto à amurada do barco. Ficou olhando o mar, calada. Entendi que me devia juntar a ela. Na realidade, me queria mostrar qualquer coisa. Apontou no escuro e disse:
Vês aquelas sombras lá? É uma pequenita ilha. Nessa ilhinha está um farol. Já não trabalha, se cansou. Quando esse farol voltar a iluminar a noite, os donos deste barco vão poder encontrar o caminho de volta. A luz desse farol é a minha esperança, apagando e acendendo tal igual a minha vontade de viver.
Fingi ver a ilha. À minha frente só se abria os escuros panos da noite. Mas Farida punha tanta verdade em sua esperança que eu não ousei contrariar. O que ela falou, a terminar, vou pôr em suas exactas palavras. Não posso transcrever seu rosto, disposto em pétalas de luz, conforme a sinceridade da lua. Assim falou Farida:
Esta é a minha estória, nem sei por que te conto. Agora, estou cansada de falar. É perigoso continuar. Quem sabe eu perderei o pensamento, as minhas lembranças se misturarão com as tuas. Pensas que estou delirando? Escuta, Kindzu: sabes quem te guiou até aqui? Não acreditas nos xipocos? Pois eu sou da família dos xipocos. Me ensinaram a apagar essa parte de mim, crenças que alimentaram nossas antigas raças. Agora, não é que acredite neles, nos espíritos. Sei que sou um deles, um espírito que vagueia em desordem por não saber a exacta fronteira que nos separa de vocês, os viventes. Nós somos sombras no teu mundo, tu jamais nos tinhas escutado. É porque vivemos do outro lado da terra, como o bicho que mora dentro do fruto. Tu estás do lado de fora da casca. Eu já te tinha visto desse outro lado, mas as tuas linhas eram de água, teu rosto era cacimbo. Fui eu que te trouxe, fui eu que te chamei. Quando queremos que vocês, os da luz, venham até nós, espetamos uma semente no tecto do mundo. Tu foste um que semeámos, nasceste da nossa vontade. Eu sabia que vinhas. Te esperava, Kindzu.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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