A
Filha do Sol
Me
chamo Farida, começou a mulher o seu relato. Falava com voz
baixa, em rouquidão que vinha da timidez. Conservei-me afastado, de
olhos no chão. Durante a sua longa fala me calei como uma sombra
para lhe dar coragem. A mulher se trocou por palavra até quase ser
manhã.
Farida
era filha do Céu, estava condenada a não poder nunca olhar o
arco-íris. Não lhe apresentaram à lua como fazem com todos os
nascidos da sua terra. Cumpria um castigo ditado pelos milénios: era
filha-gémea, tinha nascido de uma morte. Na crença da sua gente,
nascimento de gémeos é sinal de grande desgraça. No dia seguinte a
ela ter nascido, foi declarado chimussi: a todos estava interdito
lavrar o chão. Caso uma enxada, nesse tempo, ferisse a terra, as
chuvas deixariam de cair para sempre.
Dias
depois, sua irmã morreu. Deixaram-na morrer com fome. Fizeram isso
por bondade: para aliviar a maldição. Enterraram a menina no
pequeno bosque sagrado onde dormem as crianças falecidas.
Meteram-lhe numa panela de barro quebrada. Foi semeada sem quase
nenhuma terra lhe cobrir. Destinaram-lhe um lugar perto do rio, onde
o chão nunca seca. Assim as nuvens lembrar-se-iam sempre da
obrigação de molhar a terra.
A
mãe de Farida nunca mais teve filhos. Dizem que ela não foi capaz
de apagar a sua impureza após o nascimento. Fizeram as cerimónias:
não resultou. Queimaram a palhota, juntaram todas suas coisas numa
grande fogueira. A mãe ficou ali, sofrendo culpas por ter subido ao
Céu, único lugar onde se pode encontrar meninos gémeos. Chorou
então o que ela não pôde chorar no enterro da filha. A tradição
ordena: ninguém chore em luto, o lamento não pode senão chamar
mais desgraça. Para Farida, a morte da gémea não foi nunca
mencionada: tua irmã? Foi na casa da avó, ficou lá viver.
Assim se murmurava.
Depois
das cerimónias, mandaram que a mãe saísse da aldeia. Junto com a
filha foram morar num mato próximo, de verdes desleixados. Ali
viveram sem nunca receber visitas: vinham os da família mas ficavam
longe, escondidos. Receavam o contágio. Gritavam dali suas
mensagens. A única que lhes trazia comida era tia Euzinha, mulher
larga, de muito assento. Ela conversava com elas, trazia notícias
dos outros. Também Euzinha conhecia os modos de estar só, seu
marido partira para a guerra, moribundando em parte incerta. Certo
dia ela trançava os cabelos da sobrinha, seus dedos contando
estórias de embalar, quando sua voz despertou a menina:
— Sua
irmã, sabe ela está onde?
— Minha
irmã morreu, tia.
— Mentira!
Sua irmã está muito viva, a morte nem lhe arranhou.
Foram
suas palavras. Farida sentiu lágrimas nascerem dentro de si mas
fechou-lhes caminho com um sorriso. A tia dizia coisas sem pés na
cabeça.
— Onde
está seu fio, o colar que foste dada?
Mostrou
o fio. Ela segurou-o por um tempo, apertou a pequena estátua que
estava pendurada nele. Perguntou se a sobrinha sabia o que era aquela
figurinha de madeira. Farida não sabia, aquele colar lhe tinha sido
posto enquanto a memória não lhe tinha chegado aos olhos.
— Essa
madeirinha, essa estátua é sua irmã. Não vê está partida ao
meio, é só uma metade? A outra metade quem tem é sua irmã, num
colar igual desse.
Afinal,
a mãe tinha recusado cumprir a inteira tradição. Matara a
irmã-gémea só em fingimento. Na verdade, entregaram a criança a
um viajante que sofria por não receber filhos de sua legítima
criação. Depois, mais não se soube dela. Teria um outro nome,
outro corpo, outro cheiro. Ou será que ela ainda vivia? E, se assim
fosse, onde ela procedia sua vivência?
Desde
essa revelação os sonhos de Farida se encheram de gritos, suores
fundos. Lhe apareciam raízes quebrando o pote de barro onde sobrava
sua pequena irmã. Pesadelos que duraram enquanto ali viveram.
O
lugarzinho, no enquanto, foi sendo alvo de desgraças. A terra caiu
em desordem, sopraram ventos que arderam no sol, secaram fontes e
lagos. As nuvens, medrosas, fugiram. A fome e a morte instalaram
residência. Tudo aquilo acontecia, dizem, por causa da mãe não se
ter purificado. De noite, ouviam as cerimónias. Pedia-se aos
antepassados o favor de alguma chuvinha. O escuro se enchia de
tambores, moendo a tristeza como um pilão.
Como
as chuvas demorassem, vieram buscar a mãe. No quintal dela entraram
mulheres meio-nuas, essas que costumavam limpar os poços. Precisavam
de uma mãe de gémeos para as cerimónias mágicas. Mandaram que ela
mostrasse o túmulo de sua filha. Farida acompanhou o grupo que, em
fila, foi até à margem do rio. Quando chegaram à campa, as
mulheres verteram água sobre o pote fúnebre. Dançaram,
xiculunguelando. Depois, meteram a velha num buraco e foram-no
enchendo de água. Ela pedia: me deixem, tenho frio.
Mas
as mulheres não abrandavam. A mãe de Farida visitara o Céu e se
ela estivesse molhada, certamente as nuvens também se encharcariam.
As chuvas viriam, por fim.
— Parem,
ela está sofrer, gritou Farida.
Mas
elas prosseguiram, cobrindo a coitada com água fria. Até que se
afastaram dançando e cantando, deixando a mãe no fundo da terra
ensopada. Farida se aproximou, quis ajudá-la a sair. Mas ela
recusou: devia ficar ali, matopar-se, pagar sua dívida com o mundo.
Toda a noite, a filha permaneceu na cabeceira do buraco. E lhe cantou
um embalo, fosse a mãe a pequenina, saída do ventre da jovem.
Cansada, Farida adormeceu.
De
madrugada, quando despertou, já a mãe ali não estava. Tinham-na
levado, gelada de mais para se manter impura. O sangue de sua mãe,
vertido em seu nascimento, já não sujava a aldeia. Nesse mesmo dia,
tombaram grossas chuvas. As sementes e a esperança se tinham
finalmente reconciliado.
Desde
então, a infância de Farida ficou órfã. Ela cresceu, acarinhada
por si mesma, na infinita espera de sua mãe. Acreditava que ela
regressaria, envolta em seus tristes trapos. No sonho ela ascendia
entre fumos, vinda do fundo de um buraco e trazendo nas mãos um pote
igual aos que servem para enterrar os meninos. Os dedos dela eram
raízes que, depois, se convertiam em cobras feitas de fogo. Essas
chamas andantes se anichavam na filha e lhe queimavam o peito. Essa
crença a manteve, sobreviveu graças a essa ilusão.
Nunca
mais ninguém desejou notícia de Farida, ela ingressara no obscuro
mundo dos sobreviventes. Mais tarde, porém, a recordaram de novo:
precisavam de uma gémea para os rituais da chuva. Mandaram-lhe
chamar e disseram que colhesse os nunos, esses insectos negros que
abundam nas machambas. Ela que trouxesse todos os que encontrasse nos
campos cultivados. Demorou uma manhã catando as folhas. Meteu todos
aqueles bichinhos num velho pano e se dirigiu à lagoa. Atrás vinham
as mulheres, cantando e balançando o corpo untado de ervas.
Deitou
os nunos na água e viu como se afogavam, as patas estremexendo
dentro da água. Até o último desaparecer, ela estava proibida de
virar a cabeça. Enquanto isso, as mulheres entoavam canções
vergonhosas. Pronunciavam palavras que não se ouve nunca de nenhuma
mulher.
Quando
todas as velhas se retiraram ela já tinha tomado a decisão de
partir. Aquele lugar já estava cansado dela. Se lançou na estrada,
sem nada senão as roupas. Andou, andou, andou. Passou-se uma noite,
uma manhã. O sol perpendiculava-se quando lhe veio uma tontura e
abandonou todos sentidos. Desmaiou.
Despertou
numa casa de cimento, deitada em colchão de espuma. Lhe tinham
levado para a residência de um casal de portugueses. Romão Pinto,
dono das muitas terras e Dona Virgínia, sua esposa, trataram dela
durante anos. Lhe ensinaram a escrever e falar, lhe corrigiram as
maneiras que trazia da terra. Virigínia, assim lhe chamavam, era
generosa como já não há. Foi ela que teimou em lhe adoptar como se
fosse sua filha. Muitas vezes Farida sentiu desejo de a tratar por
“mãe”. Mas ela não aceitou. Tua mãe não haveria de gostar,
dizia ela. Suas mãos trançavam os cabelos de Farida e a cabeça
dela adormecia longe de si, longe do mundo. Cresceu nessa sombra, ali
lhe despontaram os seios, ali se tornou mulher. Foi nessa casa que,
pela primeira vez, sentiu os olhos de um homem salivando. Romão
Pinto lhe perseguia, suas mãos não paravam de lhe procurar. Às
vezes, de noite, espreitava pela janela enquanto ela tomava banho.
Farida estava cercada, indefesa. Não podia queixar a Dona Virgínia,
menos podia enfrentar as tentativas de Romão.
O
desejo dele crescia por toda a casa, como uma viscosa humidade. Ela o
sentia com uma mistura de nojo e receio. Teria odiado aquela casa não
fosse a velha a ter tratado como uma mãe, fazendo nascer a outra
raça que agora nela existia. Virgínia, Virginha, Virgininha: quem
era? Dela o quanto se sabia era pouco. Cabia em mão fechada,
sobrando entre os dedos aquilo que mais queríamos agarrar. Vivia
vagarosa como uma lágrima. Romão a guardava em estado de matéria,
com garantia de que ela existisse simples de lembrar.
— Estás
proibida!
O
marido lhe gritava com insistência as interdições: ler, ouvir
rádio, cantar. Tudo porque ela insistia no desejo de regressar a
Portugal. Era a sua única vontade, o breve círculo do seu sonhar.
— Mas,
mamã Virgínia: por que não gosta desta terra?
— E
quem te disse que não gosto?
Era
por razão desse amor que ela queria partir. Porque a visão daquela
terra, em tais desmandados maus tratos, era um espinho de sangrar
seus todos corações. E suspirava, em imperfeita certeza: quanto
tempo demora o tempo! Depois, dedo cruzando os lábios em ordem de
segredo, conduzia Farida pelo corredor. Queria que a menina
contemplasse o vestido verde, pendurado, pronto, sem nenhuma ruga.
— É
para a viagem!
E
sorria, alegre desse mais tarde, consoante o sonhado. Ficava na
janela olhando o país que inexistia, desenhado em geografia da
saudade. Tanto esmolou a Deus um outro lugar que ela se foi fazendo
remota e, aos poucos, Farida receou que sua nova mãe nunca mais se
acertasse. Sobre velhas fotografias, com um lápis, a velha
portuguesa desenhava outras imagens. Às vezes, recortava-as com uma
tesourinha e colava as figuras de umas fotos nas outras. Era como se
movesse o passado dentro do presente:
— Olha,
vês? Este é meu tio. Foi quando ele veio cá visitar-nos.
Um
tal parente jamais estivera em África. Mas Farida nem ousava
desmentir. As fotos recompostas traziam novas verdades a uma vida
feita de mentiras.
Certa
vez, Virginha levou a adoptiva para o quintal e ordenou que se
sentassem na grande sombra da mangueira. Ela sempre mostrou temor
pelas cobras que se agradam dos doces troncos da árvore. Naquele
momento, parecia ter esquecido esse perigo. Lentamente, a velha
desdobrou os tempos, contando episódios de sua vida. Demorou dias,
em detalhes. A velha mirabolava?
— Por
que me conta tudo isso, mamã Virgínia?
— Porque
quero que me passes a escrever.
— Escrever?
Era.
Farida deveria enviar-lhe cartas, falseando autorias, fingindo o
longe. Foi o que passou a fazer, se entretendo a ser, de cada vez, um
diferente familiar. Nunca pôde imaginar quanta bondade estava
criando. Virgínia lia as cartas com aquele soluço que é o tropeço
do choro. Farida escutava em tal embalo que se desconhecia autora da
missiva. Ou era a velha que inventava, refazendo a irrealidade do
escrito? Romão Pinto chegava do bar do Ferroviário e via as duas,
naquelas más horas, inclinadas com doçura no colo uma de outra. Ele
nada perguntava, passava espreitando, aproveitando para roçar as
pernas da jovem. As mãos do português assentavam sobre os ombros de
Farida, em escondida carícia. Virginha parecia nada ver, entretida
com seus devaneios.
Mas
a vida é a autoridade desordeira: a segunda mãe se apressava
naquela doença sem retorno. A velha já nem se confiava, cada vez
mais fiel às suas falsidades. Um dia lhe disse:
— Vou-te
levar daqui, não podes ficar mais connosco.
— Levar
para onde, mãe?
Farida
tremia. Sem se perceber ela lhe estava chamando de mãe. Devia ser do
medo que a invadia.
— Farida,
escuta minha querida. A tua mãe... eu estou chegando ao fim de
minhas forças. Tenho medo que, amanhã, já não mais possa cuidar
de ti. É por isso que te vou levar daqui.
Aqueles
olhos dela, planetários, a contemplavam sem pestanejo. Nessa mesma
noite, ela lhe veio despertar. Tomou Farida pela mão com força,
guiando-lhe pelo escuro do corredor. Tirou o vestido verde que
guardava para a viagem e se aprontou com decisão.
— Vamos!
Saíram,
rumo à Missão. Foi o padre quem veio à porta, seu corpo cobrindo a
luz que vinha do interior. Quando Virgínia entregou Farida ao padre
a menina entendeu que a sua presença já havia sido previamente
falada. Virgínia lhe deu as mãos, os dedos das duas se ameijoaram.
Os corpos se despediam, sem competência para o adeus.
— Vou
continuar a escrever-lhe, mamã.
— Não
é preciso, filha. Já não preciso.
E
afastou-se, suas costas mirrando no escuro. Naquele momento, começava
a segunda orfandade de Farida.
Por
um tempo ela ficou na Missão, num pequeno quarto cheio de sossego.
Estudava, lendo o mais que podia. Se fantasiava, enchendo o tempo.
Mas lhe faltava o acontecer da vida, a quentura do mundo onde
nascera. Aquele lugar lhe deixava um frio interior. Afinal, todos
queremos no peito o nó de um outro peito, o devolver da metade que
perdemos ao nascer. Em cada noite, o corpo da jovem se amendoinhava,
arredondando lentos suspiros. Foi assim que lhe nasceu a ideia de
sair daquele lugar, sem nenhuma despedida. O padre era um homem de
deixar, suas palavras não sendo de pregar nem o sim nem o não. O
Bem nasce é de autorizadas manhas, costumava ele dizer. O sacerdote,
certo dia, lhe chamou. Ele compreendera vontades que nela estavam
caladas, sonhos que nunca lhe haviam aflorado.
— Queres
sair da Missão, eu sei. Este lugar tem pouca vida para uma menina da
tua idade.
Não
valia a pena ela discordar de si mesma, pensar no certo ou no incerto
dos seus actos. Farida que regressasse aos lugares de sua infância
se esse era o seu desejo. O mundo não tem nenhuma utilidade, disse
ele. E concluiu: a felicidade só cabe no vazio da mão fechada. A
felicidade é uma coisa que os poderosos criaram para ilusão dos
mais pobres.
No
caminho para a aldeia, Farida passou por casa de Romão Pinto. Queria
ver Virginha, tocar seu rosto bom, sarar uma saudade. Quem abriu a
porta foi o português, com seus olhos de morder.
— Virgínia
não está, foi à vila levar um doente.
Disse
que a esposa voltaria nessa mesma noite. Farida que esperasse, se
servisse de seu antigo quartinho de dormir. Entrou, relutante. Havia
um perfume doce, vindo das goiabeiras do quintal. Contudo, naquele
momento, só lhe chegavam azedas lembranças. Quem sabe fosse a
ausência da Virginha que a amargava. Afinal, mesmo com o carinho de
Virginha, aquela fora a casa onde ela não tivera lar.
A
porta do quarto se fechou, deixando Farida só. No pente de metal, em
cima da mesinha, havia ainda cabelos seus, caracoladinhos como
crianças no ventre materno. Tardou em cada objecto, parecendo que as
coisas que em tempos tocara, saudosas, lhe reconheciam agora. Na
parede húmida estava ainda uma fotografia sua, em moldura de
madeira. Aquela era sua única imagem. Por isso, lhe ocorreu levar a
foto consigo. Quando a retirava viu que, no papel amarelecido, ela já
não estava sozinha. Em redor do rosto dela estavam desenhadas
figurinhas várias, tantas que pareciam mover-se e trocarem de
posição. Sorriu, decidida a devolver a moldura à parede. Aquela
era obra de Virginha, pondo vida em seu retrato. Quantas vezes não o
teria ela pousado sobre o leito, discorrendo mentiras sobre a
permanência da adoptiva na velha casa?
Era
meia-noite e Virgínia não tinha regressado. Farida se afogou na
cama, cansada. Não deu interesse a um ruído da porta. Nem despertou
para aquela voz que a puxava, aqueles modos que ela inesquecera. Era
Romão que rondava seu leito. Os passos dele cercavam-lhe o medo,
enquanto ia esquentando suas brasas. Em silêncio, rezou com
desespero. Colocou tanta fé nesse socorro que perdeu o receio do que
pudesse suceder. Romão se sentou na cama, seus braços procuraram no
escuro. Quando seus dedos roçaram o rosto da menina ele sentiu o
molhado de caladas lágrimas. Essa tristeza ainda mais lhe afiou os
apetites. Foi envolvendo Farida, cada avanço dele a doidoendo.
Joelhos no peito, ela se pequeninava. Lá fora, a meiguice da lua não
fazia suspeitar quanto ódio fermentava naquele quarto. Os anjos
demoravam, Romão ganhava vantagem. Na aflição ela se perguntava: e
afinal Deus? Por que se demora tanto?
Desistiu
de esperar e se ergueu de um salto, escapulada, tirando o corpo do
alcance das babas do Romão. Surpreso, o português trancou a voz nos
dentes, soprando ameaças. Memórias antigas da raça lhe avisaram:
melhor seria ela se deixar, sem menção nem intenção. O português
se homenzarrou, abusando dela toda inteira. Transpirava imensos
suores. Romão surgia cada vez mais peganhento, colajoso como um
sapo. Aquele suor lhe surgiu como se fosse a prova: aquele homem era
um estrangeiro, retirado do seu mundo. Na sua terra ele pouparia
suores ao fazer amor. Mas ele estava deslocado como um sapo longe do
seu charco. E como um sapo adormeceu em seus braços, roncando.
Empurrou o peso daquele corpo como quem afasta uma culpa.
Amanhecia
quando arrumou o saco e saiu por esse cacimbo que molha tanto como a
chuva menininha. Chorou, chorou. Queria atar a tristeza com o fio de
suas lágrimas. Chamou todo o ódio contra aquele homem que a
violara. Mas o ódio não veio. A culpa era só dela, transitando
entre esses mundos, num vira-revira. Ela devia, enfim, retornar ao
seu lugar de origem, a ver se o tempo ainda tinha jeito para lhe
embalar. Mas ela, no fundo, sabia que não havia de reencontrar o
mundo onde nascera. Tia Euzinha, quando a viu chegar, traduziu esse
receio:
— Não
devias ter voltado, filha.
Que
a gente da aldeia não haveria de a querer ali, ida e voltada,
outrora menina da terra, hoje mulher de visita. Se saíra, cortara os
laços, não devia mostrar o golpe da partida. Porque nela lhes doía
o terem ficado. A formiga incomoda é dentro das roupagens.
Nos
meses que ali permaneceu uma terrível certeza lhe foi chegando: ela
se barrigava, um filho nela se aninhava. Esse menino viria a nascer
sem a devida cor: seria um mulato. Tia Euzinha lhe tinha avisado: não
confesses a verdadeira raça dele, antes vale dizeres que ele é
albino. Nascera assim porque, durante o ventre dela, fora atravessado
por um relâmpago. Era essa a crença que explicava os albinos.
Mas
tia, reclamou Farida, se
eu apresentar o menino como albino vou criar mais um motivo para ser
afastada. Euzinha bem sabia o preço dessa mentira. Ninguém mais
poderia beber pelo seu copo, nenhuma mulher se deteria no caminho
para lhe trocar os bons-dias. Nascida gémea primeiro, agora mãe de
um albino: ela era a pior das leprosas, condenada para sempre à
solidão.
— Mais
vale tu sofreres que a criança, teimou Euzinha.
Esse
menino nasceu sem que ela nascesse mãe. Em nenhum momento Farida
notou alguma vontade de lhe dar cuidados. Foi à igreja e entregou a
criança como se fosse uma encomenda de ninguém, um lapso da vida.
Ficou lá, na Missão, nunca mais ela o viu. Com certeza, já
faleceu. Ou foi levado pelos bandos, tornado um matador de gente. Se
queria ver o filho? Não sabia, lhe custava falar o assunto. Porque
se era punida por sua lembrança só ganhava amargura com seu
esquecimento. Não podia nomear esse filho dela, caso senão ele todo
lhe vinha à boca, lhe estalavam os lábios para saírem suas
porções. Essa criança está-me dentro, sobra-me. Assim dizia
Farida. E acrescentava: Tenho-o dentro como um fruto abriga o caroço.
Eu sou a polpa dele, estou nascendo dele, empurrada pelo seu corpo,
amadurecendo até tombar na terra e ser comida pelos vermes. É assim
que me sinto.
Agora,
encostada nas cordas do velho barco aquela mulher desfiava dolorosas
lembranças. Seu filho era o nó onde se enlaçavam todas as suas
recuadas vivências. Houve um tempo que tentou regressar atrás,
recuperar esse menino. Foi à Missão, era uma tarde bonita. Sentada
na berma do poço estava uma freira branca. Chamava-se Lúcia,
chegara há pouquinho tempo à Missão. Parecia capaz de bondades,
atenta às alheias tristezas. Ela puxava um balde por uma corda, lhe
doía o tanto peso. Farida se ofereceu para a ajudar. Lúcia ficou
olhando em silêncio enquanto ela puxava. Recebeu a água e
perguntou:
— És
tão bonita! De onde vens?
Quis
falar mas nenhuma palavra lhe aflorava a boca. Seu filho não lhe
chegava, parecia um motivo cansado. Será que ela realmente amava
aquela criança?, se perguntava Farida. Se assim fosse não saberia
mentir a si própria. Uma coisa a guerra faz acontecer: tudo se vai
tornando verdade. Está-se pisando a fronteira, morte e vida nos
trocáveis lados de um mesmo risco. Irmã Lúcia insistiu, inquirindo
sobre o quê da visita de Farida.
— Venho
falar, Irmã.
Finalmente,
ela desemudecia. Falou mas ocultando a razão da sua presença.
— Diz,
minha filha.
— Irmã,
peço: me conte estórias!
A
freira se surpreendeu. A visitante lhe explicou: queria saber
notícias do mundo, ouvir as cores desse longe em que seus sonhos
teimavam. Pouco importava que fossem ou não verdade. A freira,
então, se demorou em desfiadas estorinhas, como se adivinhasse sua
carência de fantasia. Quando se calou, o sol se inclinava na varanda
da tarde. A terra sofria a inundação do poente, os campos se
cultivavam de poeira-laranja. Lúcia perdera a força de mais
encantorias, sua voz se desbotava vencida pela força das coisas
reais, o adverso presente.
— Lá
onde vens também há guerra?
Farida
acenou a cabeça, confirmando. O sentimento da guerra a fazia calar.
A noite, de repente, se espalhou em toda a parte. Finalmente, a
visitante foi capaz de anunciar suas intenções. Queria reaver seu
menino, renascer como mãe. A freira lhe olhou longamente, com
doçura.
— Teu
filho é Gaspar, não é?
Ela
adivinhara e, por momento, Farida teve medo que se opusesse.
Perguntou apenas se ela tinha condição para tratar da criança.
Respondeu que não mas que também não podia esperar essa condição.
A Irmã abanou a cabeça em concordância. Então, a religiosa falou
sobre demoradas tristezas de Gaspar, no sempre afundado entre os
magros ombros. Não podia haver criança exercendo, neste mundo,
tamanha desolação. Nunca em sua face foi visto rabisco de sorriso.
Apenas de noite, enquanto dormia, o menino gargalhava. Eram risos que
faziam gelar quem quer que escutasse. A Irmã era a única que,
nesses momentos, se chegava ao seu leito. Ficava na cabeceira,
aguardando que ele recuperasse o sossego.
Farida
inspirou para fundo de si. As palavras da freira lhe faziam crescer
antigos remorsos. Lhe vieram as dores da noite em que Romão lhe
tomou pelo abuso, seus nervos se raspavam na memória.
— Não
sei se o teu filho vai aceitar este encontro. Há muitos que não
querem nunca mais ver seus pais. Precisamos saber o que ele pensa.
Espera, vou chamar Gaspar.
Farida
se assustou. Pediu à Irmã que não fizesse, ela não estava
preparada para encarar seu menino. Se levantou, tonteando em
círculos. Lúcia lhe segurou as mãos, trazendo-lhe sossego.
— Deixa,
eu falo com ele. Marquemos para amanhã, espera-nos junto da ponte.
Farida
se preparou para esse encontro como se fosse um noivado. Se vestiu
com cuidados, penteou-se com mil esmeros. Esperou com coração de
passarinho. Passou a hora, seu filho não compareceu. Contudo, uma
estranha sensação ia tomando seu espírito desde que chegara. Lhe
parecia que, do outro lado da ponte, um vulto espreitava,
entrecoberto por trás de uns arbustos.
— Gaspar?
Queria
ter chamado: filho. Mas não lhe saiu. Não tinha acesso a essa
palavra. As folhas do arbusto se imobilizaram. Farida se convenceu
que era ilusão, não havia ninguém espreitando. Era já escuro, ela
se retirava quando deparou com a Irmã.
— Gaspar
fugiu da Missão, disse Lúcia.
Nunca
mais soube dele. Passaram anos mas, para ela, seu filho permanece
pequenito, fugindo em desamparos pelo mato e requerendo parte de si
que nunca nasceu. Por motivo dessa criança, ela só chorava lágrimas
de leite. Desciam brancas na pele escura e quando as tocava, em seus
dedos se arredondavam como pequeninos sóis brilhantes.
Mesmo
agora, me contando tudo isso, Farida lutava com as lágrimas. Estava
no fim de seu relato, sua voz estava mais firme.
— Continua,
pedi.
Desde
então ela queria cumprir um sonho antigo: sair dali, viajar para uma
terra que ficasse longe de todos os lugares. Quando soube de que um
navio naufragara ela se juntou ao grupo de pescadores que se dirigia
para o lugar do acidente. Os pescadores assaltaram o mais que
puderam, encheram a transbordar os seus barquitos. E, no fim, lhe
disseram:
— Já
não te vamos levar. Não há lugar para ti.
Eles
tinham trocado pessoa por coisa. Porém, Farida não sentiu mágoa.
Estranhamente se sentiu aliviada, aquilo era uma prenda do destino.
Primeiro: em terra ela já não tinha nenhum lugar. Segundo: depois
desse primeiro grupo de pescadores mais ninguém conseguiu abordar o
navio náufrago. A toda volta do banco de areia se levantaram ondas
que persistiam como guardiãs da solidão do navio. Estar ali era
para Farida como uma estação de aguardo para uma outra vida. De uma
coisa ela tinha certeza: os donos do navio viriam buscar suas
propriedades. Um navio daquele tamanho, maior que uma povoação, não
podia ser deixado assim. Os devidos proprietários viriam buscar-lhe
e a encontrariam ali, pronta para toda a viagem.
Farida
se interrompeu, em brusco silêncio. Se ergueu e chegou junto à
amurada do barco. Ficou olhando o mar, calada. Entendi que me devia
juntar a ela. Na realidade, me queria mostrar qualquer coisa. Apontou
no escuro e disse:
— Vês
aquelas sombras lá? É uma pequenita ilha. Nessa ilhinha está um
farol. Já não trabalha, se cansou. Quando esse farol voltar a
iluminar a noite, os donos deste barco vão poder encontrar o caminho
de volta. A luz desse farol é a minha esperança, apagando e
acendendo tal igual a minha vontade de viver.
Fingi
ver a ilha. À minha frente só se abria os escuros panos da noite.
Mas Farida punha tanta verdade em sua esperança que eu não ousei
contrariar. O que ela falou, a terminar, vou pôr em suas exactas
palavras. Não posso transcrever seu rosto, disposto em pétalas de
luz, conforme a sinceridade da lua. Assim falou Farida:
— Esta
é a minha estória, nem sei por que te conto. Agora, estou cansada
de falar. É perigoso continuar. Quem sabe eu perderei o pensamento,
as minhas lembranças se misturarão com as tuas. Pensas que estou
delirando? Escuta, Kindzu: sabes quem te guiou até aqui? Não
acreditas nos xipocos? Pois eu sou da família dos xipocos. Me
ensinaram a apagar essa parte de mim, crenças que alimentaram nossas
antigas raças. Agora, não é que acredite neles, nos espíritos.
Sei que sou um deles, um espírito que vagueia em desordem por não
saber a exacta fronteira que nos separa de vocês, os viventes. Nós
somos sombras no teu mundo, tu jamais nos tinhas escutado. É porque
vivemos do outro lado da terra, como o bicho que mora dentro do
fruto. Tu estás do lado de fora da casca. Eu já te tinha visto
desse outro lado, mas as tuas linhas eram de água, teu rosto era
cacimbo. Fui eu que te trouxe, fui eu que te chamei. Quando queremos
que vocês, os da luz, venham até nós, espetamos uma semente no
tecto do mundo. Tu foste um que semeámos, nasceste da nossa vontade.
Eu sabia que vinhas. Te esperava, Kindzu.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula

Nenhum comentário:
Postar um comentário