domingo, 22 de junho de 2025

1568 – Cidade do México

Os filhos de Cortez

Martín se chama o filho mais velho de Hernán Cortez, filho natural nascido da índia Malinche. Seu pai deixou-lhe, ao morrer, uma pensão anual magra.
Martín se chama, também, o filho legal de Hernán Cortez, nascido de uma espanhola filha de conde e sobrinha de duque. Este Martín herdou o brasão e a fortuna: é o marquês do vale de Oaxaca, dono de milhares de índios e léguas nesta terra que seu pai tinha humilhado e amado e escolhido para dormir para sempre.
Em poltrona de veludo carmesim e beiradas de ouro, costumava passear Martín, o marquês, pelas ruas do México. Atrás dele marchavam seus guardas de libré vermelha, armados de espadas. Quem se cruzava com ele se descobria, lhe rendia homenagem e se somava ao séquito. O outro Martín, o bastardo, fazia parte da comitiva.
Martín, o marquês, quis romper com a Espanha, e proclamar-se rei do México. Quando a conjura fracassou, balbuciou arrependimentos e delatou nomes. Perdoaram-lhe a vida.
Martín, o bastardo, que serviu a seu irmão na conspiração e em todo o resto, se contorce agora na tortura. Ao seu lado, o escrivão anota: Foi despido e posto na cilha. Admoestado, disse que não devia nada.
O verdugo dá uma volta na roda. As cordas arrebentam carne e esticam os ossos.
O escrivão anota: Admoestam-lhe de novo. Diz que não tem mais a dizer do que já disse.
Segunda volta de corda. Terceira, quarta, quinta.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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