Os
filhos de Cortez
Martín
se chama o filho mais velho de Hernán Cortez, filho natural nascido
da índia Malinche. Seu pai deixou-lhe, ao morrer, uma pensão anual
magra.
Martín
se chama, também, o filho legal de Hernán Cortez, nascido de uma
espanhola filha de conde e sobrinha de duque. Este Martín herdou o
brasão e a fortuna: é o marquês do vale de Oaxaca, dono de
milhares de índios e léguas nesta terra que seu pai tinha humilhado
e amado e escolhido para dormir para sempre.
Em
poltrona de veludo carmesim e beiradas de ouro, costumava passear
Martín, o marquês, pelas ruas do México. Atrás dele marchavam
seus guardas de libré vermelha, armados de espadas. Quem se cruzava
com ele se descobria, lhe rendia homenagem e se somava ao séquito. O
outro Martín, o bastardo, fazia parte da comitiva.
Martín,
o marquês, quis romper com a Espanha, e proclamar-se rei do México.
Quando a conjura fracassou, balbuciou arrependimentos e delatou
nomes. Perdoaram-lhe a vida.
Martín,
o bastardo, que serviu a seu irmão na conspiração e em todo o
resto, se contorce agora na tortura. Ao seu lado, o escrivão anota:
Foi despido e posto na cilha. Admoestado, disse que não devia
nada.
O
verdugo dá uma volta na roda. As cordas arrebentam carne e esticam
os ossos.
O
escrivão anota: Admoestam-lhe de novo. Diz que não tem mais a
dizer do que já disse.
Segunda
volta de corda. Terceira, quarta, quinta.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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