29.
Depois que os últimos pingos da chuva
começaram a tardar na queda dos telhados, e pelo centro pedrado da
rua o azul do céu começou a espelhar-se lentamente, o som dos
veículos tomou outro canto, mais alto e alegre, e ouviu-se o abrir
de janelas contra o desesquecimento do sol. Então, pela rua estreita
do fundo da esquina próxima, rompeu o convite alto do primeiro
cauteleiro, e os pregos pregados nos caixotes da loja da esquina
reverberaram pelo espaço claro.
Era um feriado incerto, legal e que se
não mantinha. Havia sossego e trabalho conjuntos, e eu não tinha
que fazer. Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para
existir. Passeava de um lado ao outro do quarto e sonhava alto coisas
sem nexo nem possibilidade — gestos que me esquecera de fazer,
ambições impossíveis realizadas sem rumo, conversas firmes e
contínuas que, se fossem, teriam sido. E neste devaneio sem grandeza
nem calma, neste atardar sem esperança nem fim, gastavam meus passos
a manhã livre e as minhas palavras altas, ditas baixo, soavam
múltiplas no claustro do meu simples isolamento.
A minha figura humana, se a
considerava com uma atenção externa, era do ridículo que tudo
quanto é humano assume sempre que é íntimo. Vestira, sobre os
trajes simples do sono abandonado, um sobretudo velho, que me serve
para estas vigílias matutinas. Os meus chinelos velhos estavam
rotos, principalmente o do pé esquerdo. E, com as mãos nos bolsos
do casaco póstumo, eu fazia a avenida do meu quarto curto em passos
largos e decididos, cumprindo com o devaneio inútil um sonho igual
aos de toda a gente.
Ainda, pela frescura aberta da minha
janela única, se ouviam cair dos telhados os pingos grossos da
acumulação da chuva ida. Ainda, vagos, havia frescores de haver
chovido. O céu, porém, era de um azul conquistador, e as nuvens que
restavam da chuva derrotada ou cansada cediam, retirando para sobre
os lados do Castelo, os caminhos legítimos do céu todo.
Era a ocasião de estar alegre. Mas
pesava-me qualquer coisa, uma ânsia desconhecida, um desejo sem
definição, nem até reles. Tardava-me, talvez, a sensação de
estar vivo. E quando me debrucei da janela altíssima, sobre a rua
para onde olhei sem vê-la, senti-me de repente um daqueles trapos
húmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para
secar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito que mancham
lentamente.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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