segunda-feira, 9 de junho de 2025

John Chapman


Usava uma panela de chumbo como chapéu,
a mesma em que cozinhava a ceia,
ao anoitecer,
nas florestas de Ohio. Vestia uma
serapilheira e caminhava
descalço, os seus pés tortos como raízes. E para onde quer que fosse
as macieiras floriam na sua peugada, tão encantadoras
quanto jovem raparigas.

Nenhum índio, colono ou animal selvagem
alguma vez o maltratou, e ele, por sua vez,
tudo honrou, toda a criatura de Deus! Nem hesitava,
numa noite chuvosa,
em partilhar o abrigo dum tronco oco, bem junto
a qualquer criatura que lá estivesse: cobras,
talvez um guaxinim ou um urso parecendo uma enorme laje.

Lembrava a Sra. Price, de Richland County, já falecida,
cuja casa de seus pais por vezes o recebia em visita:
apenas por uma vez
falou sobre mulheres, e aqueles olhos cinzentos
tornaram-se gelo. “Alguma são
falsas”, sussurrara – e ela sentira
a dor de tais palavras, recordando-a
até tarde em sua vida.

Bem, as árvores que plantou ou ofereceu
prosperaram, e ele tornou-se
lendário entre as suas gentes,
fazes o que podes se o puderes; seja qual for

o segredo, e a dor,

há uma decisão a tomar: morrer
ou viver, continur em frente,
tendo algo com que se importar. Na pimavera, no Ohio,
nas florestas que sobraram ainda consegues encontrar
os seus vestígios: manchas
de frio fogo branco.

Mary Oliver, em American Primitive (versão de Pedro Belo Clara)

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