Usava uma panela de chumbo como
chapéu,
a mesma em que cozinhava a ceia,
ao anoitecer,
nas florestas de Ohio. Vestia uma
serapilheira e caminhava
descalço, os seus pés tortos como
raízes. E para onde quer que fosse
as macieiras floriam na sua peugada,
tão encantadoras
quanto jovem raparigas.
Nenhum índio, colono ou animal
selvagem
alguma vez o maltratou, e ele, por sua
vez,
tudo honrou, toda a criatura de Deus!
Nem hesitava,
numa noite chuvosa,
em partilhar o abrigo dum tronco oco,
bem junto
a qualquer criatura que lá estivesse:
cobras,
talvez um guaxinim ou um urso
parecendo uma enorme laje.
Lembrava a Sra. Price, de Richland
County, já falecida,
cuja casa de seus pais por vezes o
recebia em visita:
apenas por uma vez
falou sobre mulheres, e aqueles olhos
cinzentos
tornaram-se gelo. “Alguma são
falsas”, sussurrara – e ela
sentira
a dor de tais palavras, recordando-a
até tarde em sua vida.
Bem, as árvores que plantou ou
ofereceu
prosperaram, e ele tornou-se
lendário entre as suas gentes,
fazes o que podes se o puderes; seja
qual for
o segredo, e a dor,
há uma decisão a tomar: morrer
ou viver, continur em frente,
tendo algo com que se importar. Na
pimavera, no Ohio,
nas florestas que sobraram ainda
consegues encontrar
os seus vestígios: manchas
de frio fogo branco.
Mary Oliver, em American Primitive (versão de Pedro Belo Clara)

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