Pensei
entregar-me a meu trabalho literário com mais dedicação e mais
força. O contato com a Espanha tinha me fortificado e amadurecido.
As horas amargas de minha poesia deviam terminar. O subjetivismo
melancólico de meus 20 Poemas de Amor ou a comoção dolorosa
de Residencia en la Tierra chegavam ao fim. Pareceu-me
encontrar um veio enterrado, não sob as rochas subterrâneas mas sob
as folhas dos livros. Pode a poesia servir aos nossos semelhantes?
Pode acompanhar as lutas dos homens? Já tinha caminhado bastante
pelo terreno do irracional e do negativo. Devia deter-me e buscar o
caminho do humanismo, banido da literatura contemporânea mas
enraizado profundamente nas aspirações do ser humano.
Comecei
a trabalhar em meu Canto general.
Para
isto precisava de um lugar de trabalho. Encontrei uma casa de pedra
defronte do mar num lugar desconhecido para todo o mundo, chamado
Isla Negra. Dom Eladio Sobrino, o proprietário, um velho socialista
espanhol, capitão de navio, estava construindo-a para sua família
mas quis vender. Como compraria? Ofereci o projeto de meu livro Canto
general mas fui rechaçado pela Editora Ercilla, que então
publicava minhas obras. Com ajuda de outros editores, que pagaram
diretamente ao proprietário, pude finalmente comprar, no ano de
1939, minha casa de trabalho em Isla Negra.
A
ideia de um poema central que agrupasse as incidências históricas,
as condições geográficas, a vida e as lutas de nossos povos,
apresentava-se a mim como uma tarefa urgente. A costa selvagem da
Isla Negra, com o tumultuoso movimento oceânico, permitia que eu me
entregasse com paixão à empresa de meu novo canto.
Pablo Neruda, em Confesso que vivi
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