Uma
cópia do nosso quarto, cada coisa, e pedaços da paisagem lá fora;
não
se trata de dor ou desespero, é apenas a cópia da minha alegria;
uma
cópia das suas mãos abertas, paradas, uma cópia do seu carinho,
uma
cópia dos seus olhos, uma cópia idêntica do seu modo de olhar,
em
preto e branco, cópias das tardes que hoje eram sempre a luz,
como
tangerinas, das noites em que parece arder um metal diferente,
sua
voz, o cabelo, uma festa, a cópia do seu colar, da sua lágrima,
uns
amigos, você sorri; não são a dor ou o desespero, são só as
ruas,
cópias
das ruas, milhões, que deslizam e não dependem
de
nós.
Todos
estão cegos. Todos estão loucos. Todos estão mortos.
Deuses
habilidade súplica suborno não têm nenhum poder
e
nos lançamos ao destino, ao veredito da sorte, às leis do acúmulo,
rios
hotéis palaces suítes, reproduções disso e daquilo, do que
não
vemos nem saberemos, imagens não me sirvam de consolo
mas
quando sejam o horror guardem ainda alguma beleza, a cópia
da
beleza de quando éramos nós dois e o mundo; não é o fim,
é
o dedo de ninguém sobre a tecla que nos copia, somos nós
sem
nós em cópias, à perfeita e sem fim ilusão, à perfeição
da
vertigem.
Eucanaã Ferraz, em Sentimental
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