sexta-feira, 16 de maio de 2025

Causa primária de todas as coisas verdadeiras

Age injustamente quem age impiamente. A natureza universal criou os animais racionais uns para os outros—para se ajudarem conforme seus méritos, e não para se prejudicarem. Quem transgride a vontade natural, bem como quem mente, é culpado de impiedade em relação à divindade suprema. Afinal, a natureza do universo é a mesma natureza das coisas existentes, e essas se relacionam com tudo que vem à existência. Ademais, a natureza universal é denominada “verdade” e é a causa primária de todas as coisas verdadeiras.
Quem mente de modo voluntário demonstra falta de piedade, na medida em que é injusto ao enganar. Quem mente de maneira involuntária, idem, visto que diverge da natureza do universo e que perturba a ordem ao contrariá-la. Além disso, afasta-se da verdade, pois, apesar de a natureza ter provido aptidões, negligencia a sua aptidão para distinguir o que é falso do que é verdadeiro.
De maneira análoga, é impiedoso aquele que persegue o prazer como se fosse um bem e evita a dor como se fosse um mal. Necessariamente, tal homem critica a natureza universal com frequência, alegando que ela atribui coisas desmerecidas aos homens maus e aos bons. Alega que os maus gozam do prazer e das coisas prazerosas, ao passo que os bons sofrem devido ao que lhes foi proporcionado e às coisas dolorosas.
Quem teme a dor às vezes também teme acontecimentos futuros—demonstrando impiedade. Quem busca o prazer não abdica da injustiça, o que é nitidamente impiedoso.
A natureza universal é afetada com igualdade pelas coisas indiferentes — afinal, a dor e o prazer não teriam sido criados caso não a afetassem igualmente. Quem pretende seguir a natureza deve partilhar da sua mente e ser igualmente afetado por essas coisas. Logo, age de maneira ímpia quem, diferente da natureza do universo, não emprega da mesma forma a dor e o prazer, a morte e a vida ou a honra e a desonra.
Quando digo que a natureza universal emprega as coisas indiferentes de modo idêntico, quero dizer que essas acontecem da mesma maneira para o que é produzido em uma sequência de eventos e para o que sucede a partir de um movimento original da providência. Segundo esse impulso, o que é indiferente se moveu do início até a presente ordem das coisas, concebeu os princípios das coisas que viriam a existir e atribuiu a capacidade de produzir coisas existentes, metamorfoses e sucessões.

Marco Aurélio, em Meditações

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