23/04/2025

Cadernos de Lanzarote / 29 de Setembro de 1993

Em Paris, para o lançamento do Evangelho, a entender segundo os modelos franceses: umas quantas entrevistas para a imprensa e para a rádio, neste caso um pouco mais, que veio a ser a gravação de um programa de televisão com o esperançoso nome de “Jamais sans mon livre”. Estiveram comigo três outros autores, franceses todos eles, e todos a propósito de livros que mais ou menos têm que ver com Jesus. Um deles, André Frossard, — já eu conhecia de ler Dieu en questions. Aparentemente é um velhinho simpático (poucos mais anos deve ter do que eu, mas podia ser meu avô...), derramando amor e compreensão universal, mas por trás desta máscara percebia-se a dureza do católico absoluto e absolutista que crê ser detentor da única razão e faz questão de mostrá-lo de um modo que chega a raiar a insolência. Outro, Jean-Claude Barreau autor de uma Biographie de Jésus, é um antigo padre, um défroqué, que deixou a sotaina por amor. Avisaram-me que é bastante “fascista”. Foi conselheiro de Mitterrand, e hoje é assessor de Charles Pasqua para os assuntos da imigração. Debitou umas quantas generalidades sobre Jesus e a Igreja, e, quanto a “fascismo”, não ficou claro: de qualquer maneira, estar ao lado de Pasqua não é, propriamente, o que se pode chamar uma boa recomendação. Dos três, o mais capaz, inteligente e sensível, pareceu-me ser Jean-Claude Carrière, que escreveu um romance com o título de Simon le mage. Trabalhou durante vinte anos com Luis Buñuel. Não falámos muito, mas esse pouco bastou para nos entendermos. À despedida disse-me: “Continuemos...” No que me diz respeito, reconheço que não estive nos meus melhores dias: acabado de chegar, com o meu escasso francês ainda emperrado por falta de uso, defendi-me como pude. Oxalá tenha sido, ao menos, suficiente.

José Saramago, em Cadernos de Lanzarote

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