Em Paris, para o lançamento do
Evangelho, a entender segundo os modelos franceses: umas
quantas entrevistas para a imprensa e para a rádio, neste caso um
pouco mais, que veio a ser a gravação de um programa de televisão
com o esperançoso nome de “Jamais sans mon livre”. Estiveram
comigo três outros autores, franceses todos eles, e todos a
propósito de livros que mais ou menos têm que ver com Jesus. Um
deles, André Frossard, — já eu conhecia de ler Dieu en
questions. Aparentemente é um velhinho simpático (poucos mais
anos deve ter do que eu, mas podia ser meu avô...), derramando amor
e compreensão universal, mas por trás desta máscara percebia-se a
dureza do católico absoluto e absolutista que crê ser detentor da
única razão e faz questão de mostrá-lo de um modo que chega a
raiar a insolência. Outro, Jean-Claude Barreau autor de uma
Biographie de Jésus, é um antigo padre, um défroqué,
que deixou a sotaina por amor. Avisaram-me que é bastante
“fascista”. Foi conselheiro de Mitterrand, e hoje é assessor de
Charles Pasqua para os assuntos da imigração. Debitou umas quantas
generalidades sobre Jesus e a Igreja, e, quanto a “fascismo”, não
ficou claro: de qualquer maneira, estar ao lado de Pasqua não é,
propriamente, o que se pode chamar uma boa recomendação. Dos três,
o mais capaz, inteligente e sensível, pareceu-me ser Jean-Claude
Carrière, que escreveu um romance com o título de Simon le mage.
Trabalhou durante vinte anos com Luis Buñuel. Não falámos muito,
mas esse pouco bastou para nos entendermos. À despedida disse-me:
“Continuemos...” No que me diz respeito, reconheço que não
estive nos meus melhores dias: acabado de chegar, com o meu escasso
francês ainda emperrado por falta de uso, defendi-me como pude.
Oxalá tenha sido, ao menos, suficiente.
José Saramago, em Cadernos de Lanzarote
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