“Mamãe
sabia de tudo”, minha irmã Sally disse. “Ela era uma bruxa.
Mesmo agora que ela está morta, eu ainda fico morrendo de medo de
que ela esteja me vendo.”
“Eu
também. Se estou fazendo alguma grande bobagem, aí é que fico
apavorada mesmo. E o mais triste é que, quando faço alguma coisa
certa, fico torcendo para que ela esteja vendo. ‘Ei, mamãe, olha
só.’ E se os mortos só ficam lá, espionando todo mundo e
morrendo de rir? Cruzes, Sally, isso que eu acabei de dizer é bem
típico dela. E se eu for igual a ela?”
Nossa
mãe costumava ficar pensando em como as cadeiras seriam se nossos
joelhos dobrassem para o outro lado. E se Cristo tivesse sido
eletrocutado? Em vez de pingentes em forma de cruz, todo mundo
andaria por aí com cadeiras penduradas no pescoço.
“Ela
disse pra mim: ‘O que quer que aconteça, não se reproduza’”,
disse Sally. “E se algum dia eu fosse burra a ponto de me casar,
que pelo menos fosse com um homem rico e que me adorasse. ‘Nunca,
jamais se case por amor. Se amar um homem, você vai querer estar com
ele, agradar-lhe, fazer coisas para ele. Vai perguntar a ele coisas
como Onde você estava? ou Em que você está pensando? ou Você me
ama?. E aí ele vai bater em você. Ou vai sair pra comprar cigarro e
nunca mais voltar.’”
“Ela
odiava a palavra amor. Falava essa palavra do mesmo jeito que as
pessoas dizem puta.”
“Ela
detestava crianças. Uma vez eu me encontrei com ela num aeroporto
quando meus quatro filhos eram pequenos. Ela berrou ‘Segura essas
feras!’, como se eles fossem um bando de dobermanns.”
“Eu
não sei se ela me renegou porque eu me casei com um mexicano ou
porque eu me casei com um católico.”
“Ela
culpava a Igreja católica por as pessoas terem tantos filhos. Dizia
que os papas tinham espalhado o boato de que o amor fazia as pessoas
felizes.”
“O
amor deixa você infeliz”, nossa mãe dizia. “Você encharca o
travesseiro chorando até dormir, embaça cabines telefônicas com as
suas lágrimas, os seus soluços fazem o cachorro uivar, você fuma
dois cigarros ao mesmo tempo.”
“O
papai te deixava infeliz?”, eu perguntei a ela.
“Quem,
ele? Ele não seria capaz de deixar ninguém infeliz.”
Mas
eu usei os conselhos de mamãe para salvar o casamento do meu próprio
filho. Coco, a mulher dele, me ligou, chorando. Ken queria passar uns
meses fora de casa. Queria ter o espaço dele. Coco adorava Ken e
estava desesperada. Eu me peguei dando conselhos para ela com a voz
da minha mãe. Literalmente, com aquela sua voz nasalada texana,
aquele seu tom debochado. “Ih, minha filha, o melhor que você faz
é dar praquele bobo uma provinha do próprio veneno dele.” Eu
disse a ela para jamais pedir que ele voltasse. “Não ligue pra
ele. Mande flores pra si mesma com cartões misteriosos. Ensine o
papagaio africano dele a dizer ‘Oi, Joe!’.” Eu a aconselhei a
fazer um estoque de homens, homens bonitos, charmosos. A pagar a
eles, se fosse preciso, só pra poder ir à casa deles de vez em
quando. A levá-los para almoçar no Chez Panisse. A dar um jeito de
ter algum homem diferente em casa sempre que fosse provável que Ken
aparecesse por lá para pegar roupas ou visitar o papagaio. Coco
continuou me ligando. Sim, ela estava seguindo os meus conselhos, mas
ele ainda não tinha voltado para casa. Por outro lado, ela não
estava mais parecendo tão infeliz.
Por
fim, um dia, Ken me ligou. “Ei, mãe, escuta essa… Sente só como
a Coco é descarada. Eu vou lá no nosso apartamento buscar uns CDs,
certo? Aí eu chego lá e dou de cara com um sujeito vestido com uma
roupa de ciclista de lycra roxa, provavelmente suado, deitado na
minha cama, vendo o programa da Oprah na minha televisão e dando
comida pro meu papagaio.”
O
que eu posso dizer? Ken e Coco têm vivido felizes desde então.
Recentemente, eu estava fazendo uma visita a eles e o telefone tocou.
Coco atendeu, ficou falando por um tempo, rindo de vez em quando.
Quando ela desligou, Ken perguntou: “Quem era?”. Coco sorriu e
disse: “Ah, era só um cara que eu conheci na academia”.
“Mamãe
arruinou o meu filme favorito”, eu disse para Sally. “A canção
de Bernadette. Eu estava estudando na St. Joseph’s na época e
queria ser freira ou, de preferência, santa. Você só tinha uns
três anos nessa época. Eu tinha visto o filme três vezes e aí,
finalmente, ela concordou em ir comigo. Pois bem, ela riu o filme
inteiro. Disse que a linda senhora não era a Virgem Maria. ‘É a
Dorothy Lamour, santo Deus.’ Depois, passou semanas zombando da
Imaculada Conceição. ‘Você pode pegar uma xícara de café pra
mim? Eu não posso me levantar. Sou a Imaculada Conceição.’ Ou,
quando telefonava para uma amiga dela, a Alice Pomeroy, ela dizia:
‘Oi, sou eu, a suada conceição’. Ou então: ‘Oi, aqui é a
apressada conceição’.”
“Ela
era espirituosa, você tem que admitir. Como quando ela dava uma
moeda para um mendigo e dizia: ‘Desculpe, meu rapaz, mas quais são
os seus sonhos e aspirações?’. Ou quando um motorista de táxi
estava mal-humorado e ela dizia pra ele: ‘Você está parecendo
meio pensativo e introspectivo hoje’.”
“Não,
até o humor dela era assustador. Os bilhetes suicidas que ela
escreveu ao longo dos anos, sempre endereçados a mim, geralmente
eram piadas. Quando cortou os pulsos, ela assinou o bilhete como
Bloody Mary. Quando tomou uma overdose, ela escreveu que tinha
tentado se enforcar, mas tinha se atrapalhado com o nó corredio. A
última carta que ela me escreveu não foi engraçada. Ela dizia que
sabia que eu jamais a perdoaria e que ela jamais conseguiria me
perdoar por eu ter estragado a minha própria vida.”
“Ela
nunca escreveu nenhum bilhete suicida pra mim.”
“Não
acredito. Sally, você realmente está com ciúme por eu ter recebido
todos os bilhetes suicidas dela?”
“Bom,
sim, estou.”
Quando
nosso pai morreu, Sally pegou um avião para ir da Cidade do México
até a Califórnia. Foi à casa da nossa mãe e bateu na porta. Mamãe
a viu pela janela, mas não quis deixá-la entrar. Tinha renegado
Sally fazia muitos anos.
“Eu
sinto falta do papai”, Sally disse a ela pela janela. “Estou com
câncer e estou morrendo. Eu preciso de você agora, mãe!” Mamãe
simplesmente fechou as persianas e ignorou as insistentes batidas na
porta.
Sally
chorava e soluçava, revivendo essa cena e outras mais tristes ainda
vezes sem conta. Por fim, ela ficou muito doente e pronta para
morrer. Tinha parado de se preocupar com os filhos. Estava serena,
extremamente afável e carinhosa. Mesmo assim, de vez em quando, a
raiva a assaltava e não a largava, negando-lhe paz.
Então,
passei a contar histórias para Sally todas as noites, como quem
narra contos de fada.
Contava
histórias engraçadas sobre a nossa mãe. Como uma vez em que ela
tinha ficado horas tentando abrir um saco de batata frita Granny
Goose e, depois, desistido. “A vida já é dura demais”, disse
ela, atirando o saco por cima do ombro.
Contei
que mamãe tinha passado trinta anos sem falar com o irmão dela,
Fortunatus. Por fim, ele a tinha convidado para almoçar no Top of
the Mark, para jogar uma pá de cal na desavença. “Só se for pra
jogar naquela cara pedante dele!”, disse mamãe. Mas ela acabou
indo à forra. Ele a forçou a pedir faisão e, quando o prato
chegou, ela perguntou ao garçom: “Ei, moço, tem ketchup?”.
Mais
que tudo, eu contava a Sally histórias sobre como nossa mãe havia
sido um dia. Antes de começar a beber, antes de nos fazer mal. Era
uma vez, há muitos e muitos anos…
“Mamãe
está debruçada na balaustrada do navio, com destino a Juneau, no
Alasca. Vai se encontrar com Ed, com quem acabou de se casar. Está a
caminho de uma vida nova. É 1930. Ela deixou a Depressão para trás,
deixou o vovô para trás. Toda a pobreza sórdida e todas as
aflições do Texas se foram. O navio desliza, próximo da terra, num
dia claro. Ela está olhando para a água azul-marinho e para os
pinheiros verdes na costa dessa terra nova, selvagem e limpa. Há
icebergs e gaivotas.
“É
essencial lembrar como ela era pequena, tinha pouco mais de um metro
e sessenta. Ela só parecia enorme para nós. Era tão jovem,
dezenove anos. E muito bonita, morena e magra. No deque do navio, ela
balança ao vento. É frágil. Treme de frio e ansiedade. Fuma. A
gola de pele do casaco está levantada, emoldurando seu rosto em
forma de coração, seu cabelo preto-azeviche.
“Tio
Guyler e tio John tinham dado aquele casaco para mamãe de presente
de casamento. Seis anos depois, ela ainda continuava usando o casaco,
então eu o conheci. Costumava enterrar o rosto na gola de pele
embaraçada e impregnada de nicotina. Não enquanto ela estava usando
o casaco. Ela não suportava ser tocada. Se você chegasse perto
demais, ela botava a mão na frente como se quisesse se proteger de
um soco.
“No
deque do navio, ela se sente bonita e adulta. Fez amigos durante a
viagem. Foi espirituosa e charmosa. O capitão flertou com ela.
Estava sempre botando mais gim no copo dela, um gim que lhe dava
vertigem e a fazia rir alto quando ele sussurrava: ‘Você está
partindo o meu coração, sua morena linda!’.
“Quando
o navio entrou no porto de Juneau, os olhos azuis dela se encheram de
lágrimas. Não, eu também nunca a vi chorando. Era mais ou menos
como a Scarlett em … E o vento levou. Ela jurou pra si mesma.
Ninguém nunca mais vai me machucar.
“Ela
sabia que Ed era um homem bom, confiável e gentil. A primeira vez em
que deixou que ele a levasse para casa, na Upson Avenue, ela tinha
ficado envergonhada. A casa era xexelenta; tio John e vovô estavam
bêbados. Ela tinha ficado com medo de que Ed não a convidasse mais
para sair. Mas ele a abraçou e disse: ‘Eu vou te proteger’.
“O
Alasca era tão maravilhoso quanto ela tinha sonhado. Eles iam para
regiões selvagens de hidroavião com esquis e pousavam em lagos
congelados, esquiavam no silêncio e viam alces, ursos-polares e
lobos. Acampavam na floresta no verão e pescavam salmão, viam
ursos-cinzentos e cabras-das-rochosas! Fizeram amigos. Ela estava num
grupo de teatro e fez o papel da médium em Blithe Spirit. Havia
festas do elenco e jantares em que cada um levava um prato e então
Ed disse que ela não podia mais fazer teatro, porque bebia demais e
agia de uma maneira indigna de alguém como ela. Aí eu nasci. Ele
teve que ir para Nome por alguns meses e ela ficou sozinha com um
bebê recém-nascido. Quando voltou, ele a encontrou bêbada,
cambaleando pela casa comigo no colo. ‘Ele arrancou você do meu
peito’, ela me disse. Então, ele assumiu por completo os cuidados
comigo, passou a me dar mamadeira. Uma mulher esquimó vinha cuidar
de mim enquanto ele estava no trabalho. Ele disse pra mamãe que ela
era fraca e ruim, como todos os Moynihan. A partir daí, ele passou a
protegê-la dela mesma, não a deixava dirigir nem lhe dava dinheiro.
Tudo o que ela podia fazer era ir a pé pra biblioteca e ler peças,
livros policiais e Zane Grey.
“Quando
a guerra começou, você nasceu e nós fomos morar no Texas. Papai
era tenente num navio-auxiliar, posicionado ao largo da costa do
Japão. Mamãe odiou voltar para a casa dos pais. Passava a maior
parte do tempo fora de casa, bebendo cada vez mais. Mamie parou de
trabalhar no consultório do vovô para poder cuidar de você. Levou
seu berço pro quarto dela; brincava com você, cantava e te ninava
até você dormir. Não deixava ninguém chegar perto de você, nem
mesmo eu.
“Era
horrível pra mim, com mamãe, com vovô. Ou sozinha, a maior parte
do tempo. Vivia me metendo em encrencas na escola, fugi de uma
escola, fui expulsa de outras duas. Uma vez, fiquei sem falar durante
seis meses. Mamãe me chamava de Semente Ruim. Descarregava toda a
raiva dela em mim. Só depois de crescida foi que eu me dei conta de
que ela e vovô provavelmente nem se lembravam do que tinham feito.
Deus dá amnésia aos bêbados porque, se eles se lembrassem do que
fizeram, certamente morreriam de vergonha.
“Depois
que papai voltou da guerra, moramos um tempo no Arizona e eles
ficaram felizes juntos. Plantaram roseiras, deram um cachorrinho
chamado Sam pra você, e ela se manteve sóbria. Só que ela já não
sabia como conviver com você e comigo. Nós achávamos que ela nos
odiava, mas ela só tinha medo de nós. Achava que éramos nós que a
tínhamos abandonado, nós que a odiávamos. E se protegia zombando e
fazendo pouco de nós, nos magoando antes que nós pudéssemos
magoá-la.
“A
mudança para o Chile parecia ser um sonho transformado em realidade
para mamãe. Ela adorava elegância e coisas bonitas, sempre tinha
desejado conhecer ‘as pessoas certas’. Papai tinha um emprego de
prestígio. Nós éramos ricos agora, tínhamos uma casa linda e
muitos criados, e havia jantares e festas com todas as pessoas
certas. No início ela até que saía bastante, mas a verdade é que
ficava apavorada demais. Arrumava o cabelo da maneira errada,
escolhia as roupas erradas. Comprava imitações caras de móveis
antigos e pinturas ruins. Morria de medo dos criados. Por outro lado,
ela tinha alguns amigos em quem confiava. Ironicamente, jogava pôquer
com padres jesuítas. Mas a maior parte do tempo ela ficava mesmo no
quarto dela. E papai a mantinha lá.
“‘No
início ele era meu protetor, depois virou meu carcereiro’, ela
dizia. Ele achava que estava ajudando a mamãe, mas durante anos e
anos ele racionou a bebida dela e a escondeu, e nunca procurou nenhum
tipo de ajuda pra ela. A gente nunca chegava perto dela, ninguém
chegava. Ela tinha ataques de fúria, se tornava cruel, irracional.
Tínhamos a sensação de que nada do que fazíamos era bom o
bastante pra ela. E ela, de fato, detestava ver a gente se sair bem,
crescer e conquistar coisas. Éramos jovens, bonitas e tínhamos um
futuro. Você entende como era difícil pra ela, Sally?”
“Entendo.
Era assim mesmo. Coitada da mamãe. Sabe, eu agora estou que nem ela.
Fico com raiva de todo mundo porque eles estão trabalhando, vivendo.
Às vezes fico com ódio de você porque você não está morrendo.
Não é horrível?”
“Não,
porque você pode dizer isso pra mim. E eu posso dizer pra você que
me sinto aliviada porque não sou eu que estou morrendo. Mas a mamãe
nunca teve ninguém pra quem ela pudesse contar coisa alguma. Naquele
dia, no navio, entrando no porto, ela achava que teria. Mamãe
acreditava que Ed estaria sempre ao lado dela. Achava que estava indo
pra casa.”
“Conta
pra mim de novo sobre quando ela estava no navio. Quando ela ficou
com os olhos cheios d’água.”
“Está
bem. Ela joga o cigarro na água. Dá pra ouvir o leve chiado, porque
as ondas estão calmas perto da costa. O navio estremece quando os
motores são desligados. Em silêncio, ao som das gaivotas, das boias
e do apito longo e triste do navio, eles deslizam em direção ao
atracadouro, esbarrando suavemente nos pneus da doca. Mamãe ajeita a
gola do casaco e o cabelo. Sorrindo, olha para a multidão, à
procura do marido. Nunca sentiu tamanha felicidade na vida.”
Sally
está chorando baixinho. “Pobrecita. Pobrecita”, ela diz. “Se
pelo menos eu tivesse sido capaz de falar com ela, de mostrar pra ela
quanto eu a amava…”
Eu…
eu não tenho compaixão.
Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

Nenhum comentário:
Postar um comentário