quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Dificuldade resolvida

Clara Ferreira Alves chegou ontem, veio para a entrevista que tínhamos combinado, sobre a Europa. O que já viu de Lanzarote tem-na deslumbrada. Levámo-la à Montanha do Fogo, a excursão obrigatória que nunca ninguém fará como desejaria, isto é, só. Hoje percebi que a praga turística seria mais suportável se esta gente, que já não pode trajar como os antigos exploradores, de caqui e chapéu de cortiça, não gostasse tanto de andar vestida com estas camisas e estes calções, berrantes de cor, estapafúrdios de desenho, capazes de ofender a mais agredida e resignada já das paisagens. Todos, sem excepção, fulminavam as montanhas com as câmaras de vídeo e as máquinas fotográficas, mas isto pode-se compreender, porque bem sabemos como a memória é esquecediça e com que frequência, quando invocada, começa a dizer uma coisa por outra. Enquanto íamos percorrendo os caminhos labirínticos do parque e se sucediam os vales e as encostas cobertas de cinzas, as caldeiras escancaradas como goelas no interior das quais imagino que o silêncio terá a espessura do próprio tempo, eu perguntava a mim mesmo por que teriam vindo aqui estes homens e estas mulheres, na sua maior parte grosseiros de palavras e de modos, e se amanhã, depois de terem visto o que viram, notarão alguma mudança na sua maneira de ser e de pensar. Porém, mais tarde, na Fundação César Manrique, lendo um poema magnífico de Rafael Alberti sobre Lanzarote, senti que me tornava um pouco menos intolerante para com a grotesca vestimenta do geral dos turistas e muito menos convicto quanto à lógica da dedução que me tinha levado das camisas às mentalidades: como toda a gente sabe, não há, em todo o mundo, camisas mais disparatadas que as de Alberti, e se ele, tendo vestida uma camisa dessas, escreveu um poema assim, então... Deixo as reticências caladas e em suspenso, que só para isso é que servem, e volto ao autocarro da Montanha do Fogo, para lançar uma pergunta que tinha ficado por fazer: que sentiram aquelas pessoas quando lhes foi contada a história de um homem — Hilário se chamava — que durante cinquenta anos viveu no alto de Timanfaya tendo como única companhia um camelo? Que fibra do corpo, que tecido do espírito estremeceram nelas quando ouviram como Hilário plantou lá no alto uma figueira e como a árvore nunca pôde dar fruto porque a sua flor não podia alimentar-se da chama?

Dificuldade resolvida. Não é preciso que as personagens do Ensaio sobre a Cegueira tenham de ir nascendo cegas, uma após outra, até substituírem, por completo, as que têm visão: podem cegar em qualquer momento. Desta maneira fica encurtado o tempo narrativo.

José Saramago, em Cadernos de Lanzarote

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