Clara
Ferreira Alves chegou ontem, veio para a entrevista que tínhamos
combinado, sobre a Europa. O que já viu de Lanzarote tem-na
deslumbrada. Levámo-la à Montanha do Fogo, a excursão obrigatória
que nunca ninguém fará como desejaria, isto é, só. Hoje percebi
que a praga turística seria mais suportável se esta gente, que já
não pode trajar como os antigos exploradores, de caqui e chapéu de
cortiça, não gostasse tanto de andar vestida com estas camisas e
estes calções, berrantes de cor, estapafúrdios de desenho, capazes
de ofender a mais agredida e resignada já das paisagens. Todos, sem
excepção, fulminavam as montanhas com as câmaras de vídeo e as
máquinas fotográficas, mas isto pode-se compreender, porque bem
sabemos como a memória é esquecediça e com que frequência, quando
invocada, começa a dizer uma coisa por outra. Enquanto íamos
percorrendo os caminhos labirínticos do parque e se sucediam os
vales e as encostas cobertas de cinzas, as caldeiras escancaradas
como goelas no interior das quais imagino que o silêncio terá a
espessura do próprio tempo, eu perguntava a mim mesmo por que teriam
vindo aqui estes homens e estas mulheres, na sua maior parte
grosseiros de palavras e de modos, e se amanhã, depois de terem
visto o que viram, notarão alguma mudança na sua maneira de ser e
de pensar. Porém, mais tarde, na Fundação César Manrique, lendo
um poema magnífico de Rafael Alberti sobre Lanzarote, senti que me
tornava um pouco menos intolerante para com a grotesca vestimenta do
geral dos turistas e muito menos convicto quanto à lógica da
dedução que me tinha levado das camisas às mentalidades: como toda
a gente sabe, não há, em todo o mundo, camisas mais disparatadas
que as de Alberti, e se ele, tendo vestida uma camisa dessas,
escreveu um poema assim, então... Deixo as reticências caladas e em
suspenso, que só para isso é que servem, e volto ao autocarro da
Montanha do Fogo, para lançar uma pergunta que tinha ficado por
fazer: que sentiram aquelas pessoas quando lhes foi contada a
história de um homem — Hilário se chamava — que durante
cinquenta anos viveu no alto de Timanfaya tendo como única companhia
um camelo? Que fibra do corpo, que tecido do espírito estremeceram
nelas quando ouviram como Hilário plantou lá no alto uma figueira e
como a árvore nunca pôde dar fruto porque a sua flor não podia
alimentar-se da chama?
Dificuldade
resolvida. Não é preciso que as personagens do Ensaio sobre a
Cegueira tenham de ir nascendo cegas, uma após outra, até
substituírem, por completo, as que têm visão: podem cegar em
qualquer momento. Desta maneira fica encurtado o tempo narrativo.
José Saramago, em Cadernos de Lanzarote
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