sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

1558 – Cañete

A guerra continua

Com cem flechas no peito acaba Caupolicán. O grande chefe de um olho só cai derrotado pela traição. A lua costumava parar para contemplar suas façanhas e não havia entre os homens quem não o amasse ou temesse, mas um traidor pôde com ele.
No ano passado, a traição surpreendeu também Lautaro:
E tu, que fazes aqui? – perguntou o chefe dos espanhóis.
Venho oferecer-te a cabeça de Lautaro – disse o traidor.
Lautaro não entrou em Santiago chefiando seus homens, com passo de vencedor. Uma lança, a mais longa do exército espanhol, levou a Santiago sua cabeça, vinda do morro Chilipirco.
A traição é uma arma tão devastadora como o tifo, a varíola e a fome, que atormentam os araucanos enquanto a guerra vai arrasando os plantios.
Mas os lavradores e os caçadores destas terras do Chile têm outras armas. Dominam agora os cavalos que antes davam terror: atacam a cavalo, torvelinho de ginetes, e se protegem com couraças de couro cru. Sabem disparar os arcabuzes que arrancam no campo de batalha e atam as espadas nas pontas de suas lanças. Atrás dos arbustos que se movem na bruma do amanhecer, avançam sem que ninguém os veja. Depois simulam retirar-se, para que os cavalos inimigos afundem nos pântanos ou quebrem as patas nas armadilhas ocultas. As colunas de fumaça lhes dizem por onde andam as tropas espanholas: atacam e desaparecem. De repente regressam e atiram-se sobre o inimigo quando brilha forte o sol do meio-dia e os soldados estão cozinhando-se dentro das armaduras. Os laços corrediços, que Lautaro inventou, derrubam os ginetes.
Além disso, os araucanos voam. Antes de sair para a luta, esfregam no corpo as penas dos pássaros mais velozes.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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