A
guerra continua
Com
cem flechas no peito acaba Caupolicán. O grande chefe de um olho só
cai derrotado pela traição. A lua costumava parar para contemplar
suas façanhas e não havia entre os homens quem não o amasse ou
temesse, mas um traidor pôde com ele.
No
ano passado, a traição surpreendeu também Lautaro:
– E
tu, que fazes aqui? – perguntou o chefe dos espanhóis.
– Venho
oferecer-te a cabeça de Lautaro – disse o traidor.
Lautaro
não entrou em Santiago chefiando seus homens, com passo de vencedor.
Uma lança, a mais longa do exército espanhol, levou a Santiago sua
cabeça, vinda do morro Chilipirco.
A
traição é uma arma tão devastadora como o tifo, a varíola e a
fome, que atormentam os araucanos enquanto a guerra vai arrasando os
plantios.
Mas
os lavradores e os caçadores destas terras do Chile têm outras
armas. Dominam agora os cavalos que antes davam terror: atacam a
cavalo, torvelinho de ginetes, e se protegem com couraças de couro
cru. Sabem disparar os arcabuzes que arrancam no campo de batalha e
atam as espadas nas pontas de suas lanças. Atrás dos arbustos que
se movem na bruma do amanhecer, avançam sem que ninguém os veja.
Depois simulam retirar-se, para que os cavalos inimigos afundem nos
pântanos ou quebrem as patas nas armadilhas ocultas. As colunas de
fumaça lhes dizem por onde andam as tropas espanholas: atacam e
desaparecem. De repente regressam e atiram-se sobre o inimigo quando
brilha forte o sol do meio-dia e os soldados estão cozinhando-se
dentro das armaduras. Os laços corrediços, que Lautaro inventou,
derrubam os ginetes.
Além
disso, os araucanos voam. Antes de sair para a luta, esfregam no
corpo as penas dos pássaros mais velozes.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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