quarta-feira, 11 de outubro de 2023

1519 – Tenochtitlán | A capital dos astecas

Mudos de tanta beleza, os conquistadores cavalgam pela estrada. Tenochtitlán parece arrancada das páginas de Amadís, coisas nunca ouvidas nem vistas nem mesmo sonhadas... O sol se ergue atrás dos vulcões, entra na lagoa e rompe em fiapos a névoa que flutua. A cidade, ruas, açudes, templos de altas torres, se abre e fulgura. Uma multidão sai para receber os invasores, em silêncio e sem pressa, enquanto infinitas canoas abrem sulcos nas águas de cobalto.
Montezuma chega em liteira, sentado em suave pele de jaguar, debaixo de um pálio de ouro, pérolas e plumas verdes. Os senhores do reino vão varrendo o solo que ele pisará.
Ele dá as boas-vindas ao deus Quetzalcóatl:
Vieste sentar em teu trono – diz. – Vieste entre nuvens entre névoas. Não te vejo em sonhos não estou sonhando. Chegaste à tua terra...
Os que acompanham Quetzalcóatl recebem grinaldas de magnólias, rosas e girassóis, colares de flores nos pescoços, nos braços, nos peitos: a flor do escudo e a flor do coração, a flor de bom aroma e a muito amarela.
Quetzalcóatl nasceu em Extremadura e desembarcou em terras da América com uma trouxinha de roupas ao ombro e um par de moedas no bolso. Tinha dezenove anos quando pisou as pedras do cais de São Domingos e perguntou: Onde está o ouro? Agora cumpriu trinta e quatro e é capitão de grande ventura. Veste armadura de ferro negro e conduz um exército de ginetes, lanceiros, balestreiros, escopeteiros e cães ferozes. Prometeu aos seus soldados: Eu vos farei, em tempo muito breve, os mais ricos homens de quantos jamais hajam passado às Índias.
O imperador Montezuma, que abre as portas de Tenochtitlán, acabará logo. Daqui a pouco será chamado mulher dos espanhóis e morrerá das pedradas de sua gente. O jovem Cuauhtémoc ocupará seu lugar. Ele lutará.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

Nenhum comentário:

Postar um comentário