Mudos
de tanta beleza, os conquistadores cavalgam pela estrada.
Tenochtitlán parece arrancada das páginas de Amadís, coisas
nunca ouvidas nem vistas nem mesmo sonhadas... O sol se ergue
atrás dos vulcões, entra na lagoa e rompe em fiapos a névoa que
flutua. A cidade, ruas, açudes, templos de altas torres, se abre e
fulgura. Uma multidão sai para receber os invasores, em silêncio e
sem pressa, enquanto infinitas canoas abrem sulcos nas águas de
cobalto.
Montezuma
chega em liteira, sentado em suave pele de jaguar, debaixo de um
pálio de ouro, pérolas e plumas verdes. Os senhores do reino vão
varrendo o solo que ele pisará.
Ele
dá as boas-vindas ao deus Quetzalcóatl:
– Vieste
sentar em teu trono – diz. – Vieste entre nuvens entre
névoas. Não te vejo em sonhos não estou sonhando. Chegaste à tua
terra...
Os
que acompanham Quetzalcóatl recebem grinaldas de magnólias, rosas e
girassóis, colares de flores nos pescoços, nos braços, nos peitos:
a flor do escudo e a flor do coração, a flor de bom aroma e a muito
amarela.
Quetzalcóatl
nasceu em Extremadura e desembarcou em terras da América com uma
trouxinha de roupas ao ombro e um par de moedas no bolso. Tinha
dezenove anos quando pisou as pedras do cais de São Domingos e
perguntou: Onde está o ouro? Agora cumpriu trinta e quatro e
é capitão de grande ventura. Veste armadura de ferro negro e conduz
um exército de ginetes, lanceiros, balestreiros, escopeteiros e cães
ferozes. Prometeu aos seus soldados: Eu vos farei, em tempo muito
breve, os mais ricos homens de quantos jamais hajam passado às
Índias.
O
imperador Montezuma, que abre as portas de Tenochtitlán, acabará
logo. Daqui a pouco será chamado mulher dos espanhóis e morrerá
das pedradas de sua gente. O jovem Cuauhtémoc ocupará seu lugar.
Ele lutará.
Eduardo Galeano, in Os Nascimentos
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