Tarde,
para o lugar: fechada quieta a igreja, sua frontaria de cem palmos; o
adro mesmo ermo — com o cruzeiro e coqueiros — o céu
desestrelado.
Era
a matriz antiga, nela jazendo mortos, sob lajes, gastos os
tituleiros: “Comendador Urbano Affonso de Rojões Parente...
benfeitor... venerado...” — mementos sem recordação. “Monsenhor
Euzébio da Matta... praeclarus vir inclytus praelatus...”
Outro tempo o levara. “Dídia Doralena Almada Salgoso... na
mocidade... dorme...”
Dez
da noite e lua nova. O padre, rápido, magro como se a se emboscar,
metera-se lá dentro.
Viram-no
só os dois homens, o maçom e o sacristão, escondidos em cima, no
coro. Os habitantes evitavam a desoras a rua. De meses, o absurdo
frequentava a cidade. Um fantasma, primeiro; depois, o monstro.
O
padre, nervoso moço, ficava pequenino no meio da nave — e se
sentia ainda mais assim, canônica e teologicamente. O mundo, vão de
descomedir-se, mofoso confuso removendo-se. Vinha ele, sacerdote,
porém, de derrotar o demônio, fervorava-se tal de fiúza e virtude,
repleto. Entretanto, a não ser a frouxa lâmpada vermelha do
Sacramento, em escuro a igreja repassava-se.
Ora,
nada. Sacristão e maçom, trafeitos surpresos, do alto espiavam.
O
fantasma tinha sido de mulher. Dessueta nos trajes, sem gestos — os
tardos passantes assombrando-se — aparecera em toda a parte. Não a
pudera o padre vislumbrar. Temem-na, mais, por mirável, formosa?
— cogitara, em espécie instintiva de tristeza. Sempre visões
deviam referir o horrendo — do lado dos mortos, que, com permissão,
retornam.
Entanto
em encanto ninguém falasse, surdo só ele imaginando-a: outro lume,
morosa, obstinado seu aspecto de criatura. Desde que origem? O
padre tapava-se o espírito, de mais.
Mas
fitava qualquer papel: e tremeante nele projetava-se um que-retrato,
quase, obediente impressão, imagem feitiça. Moça — mulher — já
qual na mente se lhe representara, enlevo incaptável, nem
consolação; antes; e de distraído alvitre: Doralena... Dídia...
— relido lido em lápide.
Todos
vinham queixar-se do extra-humano. Nunca houvera ali tais fenômenos,
no século!
Virava-se
o padre, a bracejar, rezar. Voltava-se porém para a parede: e em
tela se dava, formando-se fugindo-se, o simulacro. De que prévios
traços, parcelas, recolhidas aqui, onde e lá, que datas? Não
carregava a excessiva realidade de pessoa — a beleza desordenada.
Visagem.
Apavoravam-se os créus. — “Nem há! e tem de acabar!” —
queria o maçom, amigo. Tomava água benta — “Cruz’-que!”
— o sacristão. Não sabia o padre que fortíssimo tremia, dos
punhos da sotaina ao cadarço das ceroulas.
Ele
se resguardava casto sob o tiro de tentações, orçava-lhes os
embates. O diabo pintava dentro dele? Teve de espertado temer então
os próprios pensamentos, e palavras.
Não
se reviu a moça, espectro, desaparecidamente de esquecer-se;
enquanto diligia o padre, que nem que em cerdoso burel, óculos
pretos, penitente inteiriço — a expelir oxalá de si o mal,
inaprofundável. Ele atravessava o mundo — calcadas as cabeças de
Leviatã. Capacitava-se; e, contudo.
Sendo
outro o turno, o obnóxio repetia-se. Torpitude sacrílega: de duas
vezes, na lua nova, afrontosamente a toalha do altar amanhecera
rasgada. Dada meia-noite, os cães uivassem. E alguém avistara,
entre adro, e presbitério, ignóbil animal vulto.
Tramados
para ver, maçom mais sacristão se cachavam ora na igreja —
fechada concisa, na noite comum, o céu despoento — de novo no
novilúnio. Cuidavam em malfeitor maluco, ímpio fulano, cujo
desmando e ultraje de destruírem-se as alfaias, conspurcadas.
Achavam de proteger o padre — o sandeu sacristão e o maçom
paroquiano.
Deserto
de fiéis — e paço de resignada angústia ou ardida esperança —
o sagrado botava-se enorme, sussurro nenhum ou tosse partindo de
recanto, aos cheiros de cera e incenso. Os dois consultavam as horas.
Viram o padre entrar; ele e eles ali ignoravam-se.
Ateou
no altar o padre as sete velas, viera por ato imperado. Teso, salmeou
— contra os poderes do abismo, subidores: potências-do-ar, o
maligno e o medonho. Maçom e sacristão não tinham parecer; de que
valiam lanterna e revólver? Só inaudíveis morcegos, asas
calafrias; súbitos os estalos de madeirame, a se encolher ou
espichar; e o silêncio, em seus alvéolos.
O
padre inaplacado orante — tempo sequente. Ele se ajoelhara, em cruz
os braços, lá onde estariam enterrados os corpos — hic situs
est... exstinctus... — sem figuras, só pó, no dormir infrene,
sob pedras que muito se pisavam. Todas as noites não rojam uma igual
profundeza. Cá o sacristão também se prosternou, junto ao
harmônio. Recuara o maçom, até à parede, ao grande olho gradeado.
Sendo
meia-noite. Sopitados, os três. Tanto o padre torporava?
No
repente!
O
padre — caído — dele se afastava, gerara-se, quadrúpede,
formidando, um ente... O maçom e o sacristão, em esgazeio de
estupor, viam o que tresviam. Sombração.
A
porca preta! — desdominada, massiva, peluda — pulava o gradil,
para a abside, galgava os degraus do altar, vindo estraçalhar a
toalha, mantel puríssimo de linho... Mas, empinada, relanceou para
cima — fogo, em pez e fauces. Vai e virou foi que desceu, em
tropelão, a nenhum urro, ao longo da nave desembestada, pegou enfim
para subir a escada do coro.
Sacristão
e maçom ouviam-lhe o peso e trepar, fusca massa, nos escalões de
madeira velha... Até que soltaram-se a gritar: chega um deles
pendurado puxava pelo sino, à desbadala. Acordavam de todo sono a
cidade.
A
porca porém saltara janela, avejão, no abstruso espaço —
declarou o maçom. Ou tornou a baixar, rente ao padre entranhando-se
— só disse o sacristão — no cavo chão da tara e da larva.
Madrugada,
o povo invadia a matriz de Nossa-Senhora-do-Parto, dando com os três,
que patetas corriam lá dentro, beira paredes, em direções
diversas, num incessar. Só a custo assoporaram-se.
Maçom
e sacristão duvidavam, como ainda hoje, cada vez, daquilo, de que
sempre um pouco mais se esquecem: imaginação, aparição, visão.
Nada o padre explicasse, do estranhifício.
Todavia,
desde a data, ele se transformara — afinado, novo diáfano,
reclaro, aí se sorrindo — parecia deixado de toda matéria.
Também, e tão velhinho moço, depois logo morreu, suave, leve,
justo, na sacristia ou no jardim, de costas para tudo.
Guimarães Rosa, in Tutameia
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