sábado, 14 de janeiro de 2023

Natal

Paula tem duas folhas de papel à sua frente. Uma de rascunho e outra para passar a limpo. Sempre se prepara assim, para qualquer encontro com ela. Esse roteiro é para amanhã, dia 25.
Escreve, na folha de rascunho:
Oi, como vai?”
Não, não está bom para uma primeira frase. Corrige.
Tenho sentido saudade de você. ”
A outra vai perceber que é falso. E os outros também. Risca tudo.
Começar com beijinhos?
Escreve, no rascunho: “Beijinhos.”
Mas nunca se deram beijinhos. Nunca. Risca.
Escreve: “Como vai, está tudo bem?”
Isso é melhor. Então esta vai ser a primeira coisa que Paula vai dizer. “Como vai, está tudo bem?” Não vai perguntar sobre a saúde dela, saúde é uma palavra tabu. E depois do “como vai, está tudo bem?” o que deverá dizer? Vai depender da resposta dela. Mas não haverá resposta, Paula sabe disso.
Fui promovida, sou gerente de marketing.”
Como ela não está interessada na minha carreira, pensa Paula, será bom dizer isso. Vou gostar de ver a expressão do seu rosto. Paula decide que vai falar da sua promoção.
Escreve no papel as frases aprovadas:
Como vai, está tudo bem?
Fui promovida, sou gerente de marketing.
Paula dirá isso, de saída, preparada para o silêncio que certamente irá enfrentar.
Soube que vai fazer uma viagem”, escreve Paula na folha de rascunho.
Ela terá que responder alguma coisa. Mas poderá continuar calada, ou apenas assentir.
Está escrito, na folha limpa de papel:
Como vai, está tudo bem?
Fui promovida, sou gerente de marketing.
Soube que vai fazer uma viagem.
Se ela nada responder sobre a viagem, Paula dirá algo.
Paula escreve no rascunho: “Gramado é uma cidade muito interessante. Fazem um chocolate muito gostoso lá.”
Paula risca a última frase. É capaz de ela, agora, gostar de chocolate. Talvez o único sentimento que ela mantém imutável seja o desprezo por mim.
E o que ela pode responder? Poderá dizer a verdade, o Sylas me convidou para viajar, ela gosta do Sylas. Mas mesmo que o Sylas a tenha convidado, ela não dirá isso, ela não dirá coisa alguma. E Paula continuará: “Vai ser muito bom fugir do calor do Rio. A temperatura em Gramado, nesta época do ano, é muito amena.”
Paula nada sabe sobre Gramado, mas certamente o verão lá não é pior do que o do Rio. E Paula não pode deixar a conversa unilateral morrer.
Paula relê o que está escrito na folha, em que passa as frases a limpo:
Como vai, está tudo bem?
Fui promovida, sou gerente de marketing.
Soube que vai fazer uma viagem.
Gramado é uma cidade muito interessante.
Vai ser muito bom fugir do calor do Rio, a temperatura em Gramado, nesta época do ano, é muito amena.
Paula sabe que não é suficiente, é preciso mais um pouco antes de a conversa morrer. Sabe que, após cada pergunta, comentário, observação que fizer, o rosto da outra irá mudando. Ela não gosta de falar com Paula, não sabe o que dizer, então Paula se apraz em preencher os silêncios entre ambas.
Paula escreve no rascunho: “Estou gostando do seu aspecto.” Esse termo parece não ter ligação com saúde, a palavra tabu, mas tem. Aspecto não está incluído nas proibições — não fale em saúde com ela, Paula foi inúmeras vezes advertida —, mas esses termos, aspecto e aparência, felizmente não estavam interditados. Paula sabia como o rosto da outra ia se modificar quando dissesse isso.
Escreve na folha limpa, onde ficarão os diálogos que vai decorar:
Estou gostando da sua aparência.
Paula fecha os olhos e imagina o rosto da outra ao ouvir essa frase. O que responderá? “São os seus olhos”? Não, ela não é uma mulher de chavões gentis, ela é diferente de qualquer outra mulher. Pode existir alguém parecido, muito superficialmente apenas, mas exatamente como ela não há ninguém. Ninguém. É preciso dar um bom arremate à frase da aparência.
Paula, no rascunho: “Você está um pouco mais magra. Mas que mulher não quer ficar mais magra?”
No papel com o roteiro para decorar, Paula escreve:
Estou gostando da sua aparência. Está um pouco mais magra, mas que mulher não quer ficar mais magra?
É suficiente. Agora resta apenas o trabalho de decorar as frases. Paula é muito articulada e falante com todo mundo, mas quando está com a outra não sabe o que dizer. E quer falar sem titubear, sem hesitações, as frases que preparou.
Começa a decorar:
Como vai, está tudo bem?
Fui promovida, sou gerente de marketing.
Soube que vai fazer uma viagem.
Gramado é uma cidade muito interessante. Vai ser muito bom fugir do calor do Rio, a temperatura em Gramado, nesta época do ano, é muito amena.
Estou gostando da sua aparência. Está um pouco mais magra, mas que mulher não quer ficar mais magra?
Não consigo deixar de odiá-la, pensa Paula enquanto decora o texto, e isso ainda é pouco para compensar toda a angústia que ela me causou, por ter feito de mim uma pessoa amarga, infeliz, depressiva, incapaz de amar.
No dia 25, dia de Natal, a família se reúne na casa da mãe, para o almoço. Uma das raras ocasiões em que todos estão presentes.
Paula chega. Já estão na casa a mãe, a irmã Beatriz, o irmão Sylas, a tia Emerenciana, o tio Jonas, que logo ficará embriagado. Até mesmo o pai está lá, o único dia do ano em que ele se encontra com a família. O pai também é culpado, pensa Paula, mas o seu ódio foi centralizado, para ser bem forte e inextinguível.
Paula entra, fala com todos. A última é a mãe, que, quando viu Paula, afastou-se para um canto da sala.
Paula vai ao seu encontro.
Como vai? Está tudo bem? Agora sou gerente de marketing. Soube que vai...”

Rubem Fonseca, in Pequenas Criaturas

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