Paula
tem duas folhas de papel à sua frente. Uma de rascunho e outra para
passar a limpo. Sempre se prepara assim, para qualquer encontro com
ela. Esse roteiro é para amanhã, dia 25.
Escreve,
na folha de rascunho:
“Oi,
como vai?”
Não,
não está bom para uma primeira frase. Corrige.
“Tenho
sentido saudade de você. ”
A
outra vai perceber que é falso. E os outros também. Risca tudo.
Começar
com beijinhos?
Escreve,
no rascunho: “Beijinhos.”
Mas
nunca se deram beijinhos. Nunca. Risca.
Escreve:
“Como vai, está tudo bem?”
Isso
é melhor. Então esta vai ser a primeira coisa que Paula vai dizer.
“Como vai, está tudo bem?” Não vai perguntar sobre a saúde
dela, saúde é uma palavra tabu. E depois do “como vai, está tudo
bem?” o que deverá dizer? Vai depender da resposta dela. Mas não
haverá resposta, Paula sabe disso.
“Fui
promovida, sou gerente de marketing.”
Como
ela não está interessada na minha carreira, pensa Paula, será bom
dizer isso. Vou gostar de ver a expressão do seu rosto. Paula decide
que vai falar da sua promoção.
Escreve
no papel as frases aprovadas:
Como
vai, está tudo bem?
Fui
promovida, sou gerente de marketing.
Paula
dirá isso, de saída, preparada para o silêncio que certamente irá
enfrentar.
“Soube
que vai fazer uma viagem”, escreve Paula na folha de rascunho.
Ela
terá que responder alguma coisa. Mas poderá continuar calada, ou
apenas assentir.
Está
escrito, na folha limpa de papel:
Como
vai, está tudo bem?
Fui
promovida, sou gerente de marketing.
Soube
que vai fazer uma viagem.
Se
ela nada responder sobre a viagem, Paula dirá algo.
Paula
escreve no rascunho: “Gramado é uma cidade muito interessante.
Fazem um chocolate muito gostoso lá.”
Paula
risca a última frase. É capaz de ela, agora, gostar de chocolate.
Talvez o único sentimento que ela mantém imutável seja o desprezo
por mim.
E
o que ela pode responder? Poderá dizer a verdade, o Sylas me
convidou para viajar, ela gosta do Sylas. Mas mesmo que o Sylas a
tenha convidado, ela não dirá isso, ela não dirá coisa alguma. E
Paula continuará: “Vai ser muito bom fugir do calor do Rio. A
temperatura em Gramado, nesta época do ano, é muito amena.”
Paula
nada sabe sobre Gramado, mas certamente o verão lá não é pior do
que o do Rio. E Paula não pode deixar a conversa unilateral morrer.
Paula
relê o que está escrito na folha, em que passa as frases a limpo:
Como
vai, está tudo bem?
Fui
promovida, sou gerente de marketing.
Soube
que vai fazer uma viagem.
Gramado
é uma cidade muito interessante.
Vai
ser muito bom fugir do calor do Rio, a temperatura em Gramado, nesta
época do ano, é muito amena.
Paula
sabe que não é suficiente, é preciso mais um pouco antes de a
conversa morrer. Sabe que, após cada pergunta, comentário,
observação que fizer, o rosto da outra irá mudando. Ela não gosta
de falar com Paula, não sabe o que dizer, então Paula se apraz em
preencher os silêncios entre ambas.
Paula
escreve no rascunho: “Estou gostando do seu aspecto.” Esse termo
parece não ter ligação com saúde, a palavra tabu, mas tem.
Aspecto não está incluído nas proibições — não fale em saúde
com ela, Paula foi inúmeras vezes advertida —, mas esses termos,
aspecto e aparência, felizmente não estavam interditados. Paula
sabia como o rosto da outra ia se modificar quando dissesse isso.
Escreve
na folha limpa, onde ficarão os diálogos que vai decorar:
Estou
gostando da sua aparência.
Paula
fecha os olhos e imagina o rosto da outra ao ouvir essa frase. O que
responderá? “São os seus olhos”? Não, ela não é uma mulher
de chavões gentis, ela é diferente de qualquer outra mulher. Pode
existir alguém parecido, muito superficialmente apenas, mas
exatamente como ela não há ninguém. Ninguém. É preciso dar um
bom arremate à frase da aparência.
Paula,
no rascunho: “Você está um pouco mais magra. Mas que mulher não
quer ficar mais magra?”
No
papel com o roteiro para decorar, Paula escreve:
Estou
gostando da sua aparência. Está um pouco mais magra, mas que mulher
não quer ficar mais magra?
É
suficiente. Agora resta apenas o trabalho de decorar as frases. Paula
é muito articulada e falante com todo mundo, mas quando está com a
outra não sabe o que dizer. E quer falar sem titubear, sem
hesitações, as frases que preparou.
Começa
a decorar:
Como
vai, está tudo bem?
Fui
promovida, sou gerente de marketing.
Soube
que vai fazer uma viagem.
Gramado
é uma cidade muito interessante. Vai ser muito bom fugir do calor do
Rio, a temperatura em Gramado, nesta época do ano, é muito amena.
Estou
gostando da sua aparência. Está um pouco mais magra, mas que mulher
não quer ficar mais magra?
Não
consigo deixar de odiá-la, pensa Paula enquanto decora o texto, e
isso ainda é pouco para compensar toda a angústia que ela me
causou, por ter feito de mim uma pessoa amarga, infeliz, depressiva,
incapaz de amar.
No
dia 25, dia de Natal, a família se reúne na casa da mãe, para o
almoço. Uma das raras ocasiões em que todos estão presentes.
Paula
chega. Já estão na casa a mãe, a irmã Beatriz, o irmão Sylas, a
tia Emerenciana, o tio Jonas, que logo ficará embriagado. Até mesmo
o pai está lá, o único dia do ano em que ele se encontra com a
família. O pai também é culpado, pensa Paula, mas o seu ódio foi
centralizado, para ser bem forte e inextinguível.
Paula
entra, fala com todos. A última é a mãe, que, quando viu Paula,
afastou-se para um canto da sala.
Paula
vai ao seu encontro.
“Como
vai? Está tudo bem? Agora sou gerente de marketing. Soube que
vai...”
Rubem Fonseca, in Pequenas Criaturas
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