“Não,
no momento não tenho namorada.”
“Um
homem como você não tem namorada? Difícil de acreditar. Todas as
minhas amigas acham você muito atraente.”
“Estou
falando a verdade.”
“Espero
que sim. Eu odeio homem mentiroso. Odeio.”
“Sempre
sonhei em namorar você.”
“Dormindo
ou acordado?”
“Dormindo
e acordado.”
“Os
sonhos acordados são sempre bons. Se você é otimista. Dormindo só
tenho pesadelo. Qual foi o poeta que usou pela primeira vez essa
palavra simbolizando beleza, fantasia, desejo, anseios? Meus sonhos
são sempre pesadelos.”
“Pesadelos?”
“Não
são propriamente pesadelos. Mas são sempre frustrantes. Eles não
têm um final, não fecham, sabe como é?”
“Nunca
tenho pesadelos.”
“Sonho...
Deixa eu ver. Sonho, do latim somniu. Substantivo masculino.
Sequência de fenômenos psíquicos, imagens, representações, atos,
ideias etc., que involuntariamente ocorrem durante o sono. O objeto
do sonho; aquilo com que se sonha. Sequência de pensamentos, de
ideias vagas, mais ou menos agradáveis, mais ou menos incoerentes,
às quais o espírito se entrega em estado de vigília, geralmente
para fugir à realidade; devaneio, fantasia. Desejo veemente;
aspiração. Aquilo que enleva, transporta, pela extraordinária
beleza natural ou estética. Coisa ou pessoa muito bonita; visão.
Ideia dominante perseguida com interesse e paixão. O que é produto
da imaginação; fantasia, ilusão; quimera. Doce muito fofo,
preparado com farinha de trigo cozida, leite e ovos, frito em gordura
quente e passado em açúcar e canela, ou servido com calda rala,
podendo também ser recheado. Sonho dourado. Sonho ou aspiração
dominante. Esperança de felicidade.”
“Fecha
esse dicionário, meu bem.”
“Eu
gosto. Carrego sempre um na bolsa.”
“Se
eu disser que no meu sonho eu vou para a cama com você?”
“É
um devaneio.”
“Não.
Um desejo veemente. Estou citando o seu dicionário. Não, não abre
ele não, põe de volta na bolsa, por favor.”
“Você
é muito egoísta. Gosto de ler o dicionário. Não existe livro mais
útil.”
“Mas
não quando um homem e uma mulher estão sozinhos num apartamento.”
“Um
homem e uma mulher sozinhos num apartamento não podem ler
dicionários? Devem fazer o quê?”
“Você
quer saber?”
“Quero.”
“Eles
devem... foder.”
“Então
você acha que eu vim aqui para isso?”
“É
o meu sonho.”
“Não
esperava que fosse usar essa palavra vulgar comigo. Grosseira.”
“Se
você olhar aí no seu dicionário verá que vem do latim futere,
futuere. Pode ser vulgar mas tem uma origem vetusta.”
“Não
faça mais isso. As palavras obscenas não devem ser usadas de
maneira corriqueira. Para não perderem a sua pompa, o seu
esplendor.”
“No
quarto pode?”
“Mas
não estamos no quarto. Ou isto aqui é o seu quarto?”
“O
quarto é lá dentro.”
“Você
é muito apressado.”
“De
pleno acordo. Foi um equívoco.”
“Você
gosta de falar essas palavras, naquelas ocasiões?”
“Falo.
Trocadilho involuntário”
“E
gosta de ouvir?”
“Gosto
muito.”
“Hum...
O assunto era o sonho. Será que o esgotamos? Que tal uma citação
poética de sonho?”
“Existem
milhões. Mas minha memória é péssima.”
“Eu
devia ter trazido meu dicionário de citações.”
“Não
brinca. Você costuma carregar também um dicionário de citações?”
“Quando
você vir uma mulher com uma bolsa grande como a minha fica sabendo
que ela tem lá dentro coisas do arco-da-velha.”
“Posso
ver?”
“Claro
que não. É o mesmo que pedir para ver as minhas amídalas.”
“E
por que você não pode me mostrar as suas amídalas?”
“Você
não vai atender ao telefone? A pessoa está insistindo. Pode ser uma
das suas amigas. Eu não me incomodo.”
“Alô.
Agora estou ocupado. Depois eu telefono. Não posso falar, entendeu?”
“Eu
não disse que era uma das suas amigas?”
“Era
a minha mãe.”
“Que
falta de imaginação. E você fica sussurrando no telefone com sua
mãe?”
“Eu
não estava sussurrando. Falava num tom mais baixo.”
“Com
a sua mãe?”
“Eu
não tenho cara de quem tem mãe?”
“Você
não tem cara de quem tem mãe que liga às nove da noite.”
“Você
não conhece a minha mãe.”
“E
você fica assim tenso quando a sua mãe telefona?”
“Ela
está com amidalite. Estou brincando, ela tem um problema psíquico.”
“E
você pode dizer qual é esse problema da coitadinha?”
“Ela
é maníaco-depressiva. Três enfermeiras se revezam tomando conta
dela. Na verdade, quem telefonou foi uma das enfermeiras.”
“Então
não era a sua mãe, era uma enfermeira.”
“Enfermeira
da minha mãe.”
“Meu
caro, você é demais.”
“Como
assim?”
“Já
me haviam alertado sobre você. Só não tinham dito que também era
mentiroso.”
“Não
minto nunca. Esse é o meu problema.”
“Desculpe
a franqueza, mas você não inspira confiança. Confiança é
fundamental.”
“Não,
por favor, não abre esse dicionário. Eu sei o que é confiança.”
“Então
sabe que sem confiança, não dá. Aliás, eu passei aqui só para
tomar um cafezinho.”
“Eu
não convidei você para tomar um cafezinho, não sei fazer
cafezinho. Quando quero tomar um cafezinho, saio e tomo na rua. Neste
bairro tem os melhores expressos da cidade.”
“Então
na próxima vez a gente se encontra no botequim.”
“Você
já vai embora?”
“Já.”
“Por
favor, não vai não. Desculpe, me dá um tempo, para você me
conhecer melhor. Pega o dicionário na bolsa, lê para mim a
definição de, de...”
“Mentira?
Tenho mesmo que ir. Não adianta fazer essa cara hipócrita. Liga
para a sua amiga. Ainda dá tempo, assim você não perde esta noite
de sábado. Tchau.”
“Alô,
mamãe? Qual era o problema? Desculpe, eu estava aqui com uma amiga e
não podia falar. Não, ela já foi embora. Mamãe, a senhora tem que
tomar os remédios como o médico mandou. Não chora, mamãe, quem é
que está aí? Põe ela no telefone, por favor. Giselda, a mamãe não
pode deixar de tomar o remédio. Não interessa se o estômago dela
está doendo, o remédio é essencial, que tipo de enfermeira você
é? Ganha muito bem, tem que ser mais competente. O quê? Não, deixa
que eu mesmo ligo para o celular do médico, eu sei o que ele vai
dizer. Telefono para aí, depois.”
Rubem Fonseca, in Pequenas Criaturas

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