Natureza Morta, de Carlos Scliar
Começou
no dia 15 de setembro, e se prolongará até 30 de outubro, no MAM,
uma retrospectiva da pintura de Scliar. Aos domingos a entrada é
franca; cerca de 4 mil pessoas têm comparecido aos domingos, e uma
média de 100 diárias com entrada paga. Essa exposição é motivada
por motivos que podem parecer antagônicos. Scliar acha que agora é
que está realmente começando seu trabalho: “Passamos uma parte da
vida tentando dominar os meios para que possamos transmitir nossas
ideias, nossos sentimentos, mas para que eles sejam transmitidos
precisamos estar convencidos desses meios de que dispomos, e isso
leva uma parte de nossa vida em violento trabalho de disciplina e
teimosia”, disse-me ele. Scliar acha que hoje está começando a
dispor desses meios, e tem apenas 50 anos. Então por que a
retrospectiva? É que na realidade trata-se de um balanço para o
pintor e para os outros. Num instante em que tantos contestam e tão
poucos propõem, Scliar achou importante mostrar, para as pessoas de
seu respeito e para as outras que não conhece, mas também respeita,
que não se improvisa em arte. A exposição é belíssima.
Roberto
Pontual escreveu e organizou para a Civilização Brasileira, um
livro, Scliar – o real em reflexo e transfiguração. Com
este livro, por ter marcado os últimos 30 anos de nossa arte, com
alguns outros artistas que também a marcaram, Carlos Scliar funda a
coleção Arte: Multicosmo, com reproduções magníficas de seus
quadros. O trabalho de Roberto Pontual é um trabalho de amor,
compreensão, respeito.
De
Scliar, José Paulo Moreira da Fonseca disse: “Estamos diante de um
pintor que reverencia o mundo visível, que não o quer distorcer. O
que desaparece são as minúcias, o acidental. Eis a chave: uma
síntese refinadíssima que o pintor realiza, mediante a qual Scliar
vai retratar a essência das coisas, que em seus quadros surgem na
sua face permanente, num ser acima das vicissitudes. A obra de Scliar
oferece-nos, assim, uma tranquila reedificação do mundo, um
espetáculo de ordem, onde o visual tangencia um rigor quase
matemático, um pré-modo de ser, uma espécie de assembleia
geral.”
Walmir
Ayala assim se manifestou: “... Carlos Scliar é um artista fixado
no problema da clarificação, em busca de uma lucidez cuja
manutenção provoca no debate permanente com os jovens, como se
encontrasse neles a renovação permanente de um ponto obscuro a
desvendar, como se visse neles a fonte de dúvidas impulsoras da
confirmação, por acréscimo, do mundo de sutilezas colorísticas;
Carlos Scliar é um homem preservando a sua identidade interior,
economizando sua emoção, e que só se externa pelos caminhos
nítidos da problemática estética, reservando, para o diálogo
coracional com a maioria, o delicado sopro da flor que ergue intacta
no meio do sangue e do drama, para a oferecer numa linguagem plástica
que vivifica o silêncio...” “... Carlos Scliar está isento da
dúvida gratuita, lança-se ao desvendamento do mistério pulsante,
sob a matéria utilizada, com a frequência e a dedicação de um
filósofo. Seu instinto é liderado pelo ócio da maturidade
interior, seu vulcão se derrama sobre uma balança, e o fiel não
falha nunca...”
Vinícius
de Morais: “... Num meio artístico aloprado como o nosso, a
coerência de Scliar como pintor é admirável. Seu caminho, com
algumas raras paradas para respirar, tem sido sempre para frente e
para o alto. E a coisa linda também nesse poeta do objetivo é que o
sucesso e a prosperidade em nada afetaram o seu angelismo, em nada
comprometeram a sua inata disciplina e frugalidade. Seus ternos são
hoje de melhor pano e melhor corte, mas ele os veste com a mesma
modéstia do menino que eu conheci em São Paulo, em casa de Oswald
de Andrade...”
Em
1966, quando entrevistei Scliar para a revista Manchete, há
muito tempo que não o via – talvez desde o tempo áureo da revista
Senhor – de modo que os primeiros momentos de nosso encontro
foram gastos em efusões mútuas de amizade. Eu simplesmente gosto de
Scliar, isso é tão simples. E independentemente da grande admiração
que tenho por ele. No meio de nossa conversa, Scliar disse:
– Acho
que a comunicação é fundamental e eu sou um homem que gosta de
gente, que tem confiança nos homens que trabalham e produzem tudo
aquilo que nos rodeia. O que eu desejaria era conseguir que meus
quadros fossem uma espécie de esperanto e incutissem esperança e
força a todos.
E
mais adiante: – Todas as coisas que eu te disse não impedem que eu
seja um homem isolado. Mas acho que isso é próprio da condição de
quem produz uma obra de arte. Mas penso também que essa mesma obra
se multiplica, se amplia, se transforma em algo que eu não podia
prever nos olhos dos que me veem.
E
ainda me disse: – Acho que quando uma pessoa estrutura sua
profissão, assume uma responsabilidade para consigo mesma e para com
os outros. Creio que já deves ter percebido que sou um otimista,
porque acredito nos destinos da humanidade. Isso pode te parecer
vago, mas me considero um homem rico de tudo o que os outros
construíram para mim. Minha responsabilidade começa no instante em
que me dou conta disso e desejo retribuir. Por pouco que eu faça, se
conseguir estimular ideias e sentimentos e outras coisas que não
sei, naqueles que observarem os meus trabalhos, alguma coisa estarei
construindo.
Clarice Lispector, in Todas as crônicas

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