segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Scliar: trinta anos de pintura

Natureza Morta, de Carlos Scliar

Começou no dia 15 de setembro, e se prolongará até 30 de outubro, no MAM, uma retrospectiva da pintura de Scliar. Aos domingos a entrada é franca; cerca de 4 mil pessoas têm comparecido aos domingos, e uma média de 100 diárias com entrada paga. Essa exposição é motivada por motivos que podem parecer antagônicos. Scliar acha que agora é que está realmente começando seu trabalho: “Passamos uma parte da vida tentando dominar os meios para que possamos transmitir nossas ideias, nossos sentimentos, mas para que eles sejam transmitidos precisamos estar convencidos desses meios de que dispomos, e isso leva uma parte de nossa vida em violento trabalho de disciplina e teimosia”, disse-me ele. Scliar acha que hoje está começando a dispor desses meios, e tem apenas 50 anos. Então por que a retrospectiva? É que na realidade trata-se de um balanço para o pintor e para os outros. Num instante em que tantos contestam e tão poucos propõem, Scliar achou importante mostrar, para as pessoas de seu respeito e para as outras que não conhece, mas também respeita, que não se improvisa em arte. A exposição é belíssima.
Roberto Pontual escreveu e organizou para a Civilização Brasileira, um livro, Scliar – o real em reflexo e transfiguração. Com este livro, por ter marcado os últimos 30 anos de nossa arte, com alguns outros artistas que também a marcaram, Carlos Scliar funda a coleção Arte: Multicosmo, com reproduções magníficas de seus quadros. O trabalho de Roberto Pontual é um trabalho de amor, compreensão, respeito.
De Scliar, José Paulo Moreira da Fonseca disse: “Estamos diante de um pintor que reverencia o mundo visível, que não o quer distorcer. O que desaparece são as minúcias, o acidental. Eis a chave: uma síntese refinadíssima que o pintor realiza, mediante a qual Scliar vai retratar a essência das coisas, que em seus quadros surgem na sua face permanente, num ser acima das vicissitudes. A obra de Scliar oferece-nos, assim, uma tranquila reedificação do mundo, um espetáculo de ordem, onde o visual tangencia um rigor quase matemático, um pré-modo de ser, uma espécie de assembleia geral.”
Walmir Ayala assim se manifestou: “... Carlos Scliar é um artista fixado no problema da clarificação, em busca de uma lucidez cuja manutenção provoca no debate permanente com os jovens, como se encontrasse neles a renovação permanente de um ponto obscuro a desvendar, como se visse neles a fonte de dúvidas impulsoras da confirmação, por acréscimo, do mundo de sutilezas colorísticas; Carlos Scliar é um homem preservando a sua identidade interior, economizando sua emoção, e que só se externa pelos caminhos nítidos da problemática estética, reservando, para o diálogo coracional com a maioria, o delicado sopro da flor que ergue intacta no meio do sangue e do drama, para a oferecer numa linguagem plástica que vivifica o silêncio...” “... Carlos Scliar está isento da dúvida gratuita, lança-se ao desvendamento do mistério pulsante, sob a matéria utilizada, com a frequência e a dedicação de um filósofo. Seu instinto é liderado pelo ócio da maturidade interior, seu vulcão se derrama sobre uma balança, e o fiel não falha nunca...”
Vinícius de Morais: “... Num meio artístico aloprado como o nosso, a coerência de Scliar como pintor é admirável. Seu caminho, com algumas raras paradas para respirar, tem sido sempre para frente e para o alto. E a coisa linda também nesse poeta do objetivo é que o sucesso e a prosperidade em nada afetaram o seu angelismo, em nada comprometeram a sua inata disciplina e frugalidade. Seus ternos são hoje de melhor pano e melhor corte, mas ele os veste com a mesma modéstia do menino que eu conheci em São Paulo, em casa de Oswald de Andrade...”
Em 1966, quando entrevistei Scliar para a revista Manchete, há muito tempo que não o via – talvez desde o tempo áureo da revista Senhor – de modo que os primeiros momentos de nosso encontro foram gastos em efusões mútuas de amizade. Eu simplesmente gosto de Scliar, isso é tão simples. E independentemente da grande admiração que tenho por ele. No meio de nossa conversa, Scliar disse:
Acho que a comunicação é fundamental e eu sou um homem que gosta de gente, que tem confiança nos homens que trabalham e produzem tudo aquilo que nos rodeia. O que eu desejaria era conseguir que meus quadros fossem uma espécie de esperanto e incutissem esperança e força a todos.
E mais adiante: – Todas as coisas que eu te disse não impedem que eu seja um homem isolado. Mas acho que isso é próprio da condição de quem produz uma obra de arte. Mas penso também que essa mesma obra se multiplica, se amplia, se transforma em algo que eu não podia prever nos olhos dos que me veem.
E ainda me disse: – Acho que quando uma pessoa estrutura sua profissão, assume uma responsabilidade para consigo mesma e para com os outros. Creio que já deves ter percebido que sou um otimista, porque acredito nos destinos da humanidade. Isso pode te parecer vago, mas me considero um homem rico de tudo o que os outros construíram para mim. Minha responsabilidade começa no instante em que me dou conta disso e desejo retribuir. Por pouco que eu faça, se conseguir estimular ideias e sentimentos e outras coisas que não sei, naqueles que observarem os meus trabalhos, alguma coisa estarei construindo.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

Nenhum comentário:

Postar um comentário