terça-feira, 15 de novembro de 2022

O Lobo do Mar | Capítulo 19


Subi ao convés e encontrei o Ghost navegando a favor do vento com a retranca a boreste e se aproximando de um bote conhecido que ia no mesmo rumo, um pouco mais à frente. Todos os marinheiros estavam no convés, antecipando o que aconteceria quando Leach e Johnson fossem arrastados de volta para o navio.
Estávamos na metade do quarto de vigia. Louis veio à popa e assumiu o timão. O ar estava úmido e reparei que ele usava uma capa de chuva.
O que vem por aí? — perguntei.
Uma boa e honesta ventania, é o que tá parecendo — ele respondeu —, com uns pingos só pra molhar as ventas.
Pena que eles foram avistados — comentei quando uma onda grande desviou um pouco o Ghost e o bote apareceu por trás das gibas.
Louis ajustou o timão e demorou a responder.
Acho que eles não iam conseguir chegar em terra, senhor.
Não?
Não, senhor. Sentiu isso? — Uma rajada atingiu a escuna e ele precisou fazer uma manobra brusca para desviá-la do vento. — Aquela casca de ovo aguenta mais uma hora boiando num mar desses, foi sorte deles a gente aparecer.
Wolf Larsen, que estava conversando com os homens resgatados na parte intermediária do barco, veio a passos largos até a popa. A elasticidade felina de seu andar estava um pouco mais pronunciada que o habitual e seus olhos estavam acesos e penetrantes.
Três graxeiros62 e um maquinista — disse a título de saudação. — Mas vamos transformá-los em marujos, ou pelo menos em remadores. E como está a donzela?
Não sei por quê, mas no momento em que ele a mencionou senti uma pontada como um talho de faca. Pensei ser apenas um melindre bobo de minha parte, mas a sensação persistiu contra a minha vontade e um erguer de ombros foi a única resposta que consegui dar.
Wolf Larsen contraiu os lábios e gracejou com um longo assobio.
Qual o nome dela, então? — perguntou.
Não sei — respondi. — Ela está dormindo. Estava muito cansada. Na verdade, eu esperava que o senhor soubesse de algo. Que barco era aquele?
Um vapor dos correios — ele respondeu secamente. — The City of Tokyo, de São Francisco, rumando para Yokohama. Foi danificado pelo tufão. Uma banheira velha. Ficou esburacado de cima a baixo como uma peneira. Fazia quatro dias que estavam à deriva. E você não faz ideia de quem ou o quê ela é? Empregada, esposa, viúva? Muito bem, muito bem.
Ele balançou a cabeça de um jeito brincalhão e me encarou com ar de zombaria.
O senhor pretende… — comecei a dizer. Queria saber se ele planejava deixar os náufragos em Yokohama, mas segurei a pergunta na ponta da língua.
Pretendo o quê?
O que pretende fazer com Leach e Johnson?
Ele balançou a cabeça.
Não sei, Hump, não sei mesmo. Com esses novos acréscimos, já tenho toda a tripulação de que preciso.
E eles têm a fuga que queriam — falei. — Por que não os trata de outra forma? Aceite-os a bordo e seja mais brando. O que quer que tenham feito, eles foram forçados.
Por mim?
Por você — respondi firme. — E já vou avisando, Wolf Larsen, que meu desejo de matá-lo poderá ofuscar o meu amor à vida, caso o senhor maltrate esses pobres desgraçados além da conta.
Bravo! — ele gritou. — Você me dá orgulho, Hump. Encontrou as próprias pernas, e de sobra. Um indivíduo e tanto, você. Teve o azar de ser agraciado com uma vida fácil, mas está evoluindo. Você me agrada cada vez mais.
Sua voz e expressão mudaram. Seu rosto se cobriu de seriedade.
Acredita em promessas? — perguntou. — São uma coisa sagrada?
Claro — respondi.
Então proponho um pacto — ele prosseguiu, perfeito ator que era. — Se eu prometer não pôr as mãos em Leach, você promete não tentar me matar? — E se apressou em acrescentar: — Oh, não que eu tenha medo de você, não que eu tenha medo de você.
Eu mal podia acreditar no que ouvia. O que estava dando naquele homem?
Valendo ou não? — ele perguntou, começando a perder a paciência.
Valendo — respondi.
Ele estendeu a mão e, ao apertá-la com firmeza, tive certeza de ver o brilho de uma trapaça diabólica acender por um instante em seus olhos.
Cruzamos a popa para o lado a sotavento. O bote já estava ao alcance da mão e passava por grandes apuros. Johnson pilotava e Leach baldeava a água. Nossa velocidade era quase o dobro. Wolf Larsen sinalizou para que Louis mantivesse uma pequena distância e ultrapassamos o bote lado a lado, uns poucos pés a barlavento. O Ghost o encobriu. A vela de espicha murchou e o bote se endireitou na horizontal, forçando os dois homens a trocarem rapidamente de posição. O bote perdeu o embalo e, no momento em que fomos erguidos por uma vaga enorme, despencou para o fundo do vale da onda.
Foi nesse momento que Leach e Johnson ergueram as cabeças e encararam os colegas marinheiros que estavam enfileirados na amurada a meia-nau. Não houve saudação alguma. Aos olhos dos companheiros, eles já estavam mortos, e entre eles abria-se o abismo que separa a vida e a morte.
No instante seguinte eles já tinham chegado diante da popa, onde estávamos eu e Wolf Larsen. Descemos o vale da onda enquanto eles eram erguidos pela crista. Johnson olhou para mim e vi que seu rosto estava escangalhado e exaurido. Acenei e ele devolveu o aceno, mas com um gesto impotente e derrotado. Era como se estivesse dizendo adeus. Não consegui olhar nos olhos de Leach porque ele estava encarando Wolf Larsen, com aquele velho e implacável rosnado de ódio mais intenso que nunca.
O bote estava indo para trás da popa. A vela de espicha inflou de repente e adernou a frágil embarcação, até dar a impressão de que ela iria emborcar. A crista espumante de uma onda quebrou por cima deles, arrastando um véu branco como a neve. Quando o bote parcialmente alagado reemergiu, Leach começou a baldear água enquanto Johnson, pálido e alarmado, se mantinha firme no remo de governo.
Wolf Larsen disparou uma risada curta bem no meu ouvido e foi andando até o lado da popa a barlavento. Imaginei que fosse dar ordens para o Ghost arribar, mas a embarcação seguiu no mesmo curso e ele não fez sinal algum. Louis permanecia imperturbável no timão, mas percebi que os marinheiros agrupados mais adiante nos miravam com perplexidade no olhar. O Ghost continuou avançando a toda até que o bote ficasse reduzido a um grãozinho, e então a voz de Wolf Larsen proferiu um comando e a embarcação foi manobrada até ficar com a retranca a bombordo.
Estávamos a uns três ou quatro quilômetros a barlavento daquela conchinha de marisco perdida no mar quando a giba foi arriada e a escuna parou. Os botes de caça à foca não são feitos para trabalhar de barlavento. Sua esperança reside em manter uma posição a sotavento, para que possam retornar a favor do vento em direção à escuna. Mas o único refúgio para Leach e Johnson no meio daquela vastidão selvagem era no Ghost, e eles começaram a avançar resolutamente contra o vento. Naquele mar revolto, tratava-se de um esforço vagaroso. Eles corriam o risco de ser derrubados a qualquer momento pelos vagalhões assobiantes. Cansamos de ver o bote orçar repetidas vezes contra as cristas enormes, somente para perder força e ser arremessado de volta como uma rolha.
Johnson era um marinheiro esplêndido e entendia tanto de barcos pequenos quanto de navios. Ao fim de uma hora e meia, ele já tinha quase nos alcançado, e agora, já quase alcançando a popa, tentava arrancar as últimas forças para fazer uma aproximação.
Quer dizer que mudaram de ideia? — ouvi Wolf Larsen murmurar ao mesmo tempo consigo mesmo e com eles, como se aqueles homens pudessem escutá-lo. — Querem subir a bordo, não é mesmo? Muito bem, continuem se aproximando. Força nesse leme! — ele ordenou a Oofty-Oofty, o canaca, que nesse meio-tempo havia substituído Louis no timão.
As ordens vinham uma após a outra. Assim que a escuna virou a sotavento, as velas da proa e principal foram afrouxadas para pegar a quantidade certa de vento. Estávamos a favor do vento, ganhando velocidade, quando Johnson afrouxou seu pano diante do perigo iminente e cruzou nossa esteira a trezentos metros de distância. Wolf Larsen riu mais uma vez e fez sinal com o braço para que eles continuassem nos seguindo. Estava claro, agora, que sua intenção era brincar com eles; uma lição em vez de uma surra, concluí, embora fosse uma lição um tanto perigosa, pois a frágil embarcação corria o risco iminente de afundar.
Johnson estendeu as velas sem demora e veio em nosso encalço. Não havia mais nada que ele pudesse fazer. A morte rondava em toda parte e era somente questão de tempo até que uma daquelas ondas enormes quebrasse bem em cima do barco.
É o medo da morte no coração deles — Louis sussurrou no meu ouvido quando eu passava para recolher a giba e a vela de estai na proa.
Ah, daqui a pouco ele vai parar para resgatá-los — respondi com otimismo. — Quer dar uma lição neles, só isso.
Louis me olhou de esguelha.
Acha mesmo?
Acho — respondi. — Você não?
Só acho que preciso salvar minha própria pele, ultimamente — ele respondeu. — Tô assombrado com o jeito que as coisas tão andando. Aquele uísque de São Francisco me meteu numa tremenda encrenca, mas cê vai se meter numa muito maior com aquela moça na popa. Ah, só eu vejo a besteira enorme que cê tá fazendo.
O que quer dizer com isso? — perguntei, pois ele virou as costas logo após a provocação.
O que quero dizer com isso? — ele gritou. — E cê pergunta pra mim! O problema não é o que eu quero dizer, e sim o que Wolf Larsen quer fazer. O Lobo, é o que quero dizer, o Lobo!
Se houver um problema, você ficará do meu lado? — perguntei por impulso, pois ele tinha dado voz a meus anseios.
Ficar do seu lado? Fico do lado do velho e gordo Louis, que já tem problema suficiente. Isso tudo é só o começo, tô dizendo, é só o começo.
Nunca imaginei que você fosse tão covarde — desdenhei.
Ele me dirigiu um olhar de desprezo.
Se nunca mexi um dedo pra ajudar aquele pobre idiota — ele apontou para o pequeno bote a vela atrás da popa —, acha que vou querer que me rachem a cabeça no meio por causa de uma mulher que eu nunca vi?
Com uma expressão de repulsa, me virei e fui em direção à popa.
É melhor trepar nos joanetes, sr. Van Weyden — disse Wolf Larsen quando cheguei ao tombadilho.
Senti um certo alívio, pelo menos no que dizia respeito aos dois homens do bote. Ele não pretendia se afastar muito deles. Esse pensamento me deu alguma esperança e me apressei em executar a ordem. Bastou eu abrir a boca e passar as ordens necessárias para que alguns marujos inquietos fossem logo acionando adriças e carregadeiras, enquanto outros escalavam os mastros. Esse afã da parte deles fez Wolf Larsen abrir um sorriso macabro.
Continuamos abrindo distância e, quando o bote ficou vários quilômetros para trás, finalmente paramos e aguardamos. Todos os olhares se detiveram em sua aproximação, inclusive os de Wolf Larsen. Mas ele era o único homem imperturbável a bordo. Louis olhava fixamente e seu rosto traía um incômodo que ele não conseguia disfarçar.
O bote foi chegando cada vez mais perto, singrando pelo verde fervilhante como se fosse algo vivo, subindo, empinando e corcoveando no dorso gigantesco das ondas ou desaparecendo por trás delas somente para ressurgir dali a pouco com a proa apontada para o céu. Parecia impossível que seguisse vivendo, mas a cada movimento vertiginoso o impossível acontecia. Uma rajada de vento e chuva nos encobriu e de repente o bote emergiu da cortina de água, quase em cima de nós.
Virem firme! — gritou Wolf Larsen, saltando para o timão e girando com força.
O Ghost arrancou mais uma vez e disparou a favor do vento, e Johnson e Leach ficaram duas horas em nosso encalço. Paramos e arrancamos, paramos e arrancamos, com aquele pedacinho de vela sempre batalhando à nossa popa, sendo arremessado ao céu e tragado pelos vales. O bote estava a menos de meio quilômetro de distância quando sumiu atrás de uma borrasca espessa. Não apareceu mais. O vento limpou o ar de novo mas nenhum vestígio de vela brotou da superfície turbulenta. Julguei ter visto o fundo do barco aparecer por um momento na crista de uma onda que quebrava. Na melhor hipótese, isso era tudo. Para Johnson e Leach, o esforço da existência estava encerrado.
Os homens permaneceram agrupados a meia-nau. Ninguém desceu e ninguém abria a boca. Nenhum olhar era trocado. Todos os homens pareciam atordoados ou, de certo modo, em profundo estado de contemplação, tentando compreender, sem muito sucesso, o que havia se passado. Wolf Larsen não lhes deu muito tempo para pensar. Sem demora, recolocou o Ghost na rota, a rota do bando de focas, não do porto de Yokohama. Mas os homens já não demonstravam empolgação nenhuma ao puxar e içar, e as maldições que proferiam entre si escapavam de seus lábios oprimidas, pesadas e sem vida como eles próprios. O mesmo não valia para os caçadores. O irreprimível Smoke contou uma história e eles desceram para a baiuca gargalhando alto.
Quando eu ia para o lado da cozinha a sotavento, fui abordado pelo maquinista que tínhamos resgatado. Seu rosto estava lívido e seus lábios tremiam.
Deus me acuda! Senhor, que tipo de embarcação é essa? — ele rogou.
Você tem olhos, pôde ver muito bem — respondi com um tom de voz quase brutal, movido pela dor e pelo medo que residiam em meu próprio coração.
E sua promessa? — perguntei em seguida a Wolf Larsen.
Eu não pensava em trazê-los a bordo quando fiz a promessa — ele respondeu. — De todo modo, você precisa concordar que jamais botei as mãos neles. — E riu um momento depois, dizendo: — Longe disso, longe disso.
Não respondi. Minha cabeça estava tão confusa que eu tinha perdido a capacidade de falar. Precisava de tempo para pensar, disso eu sabia. A mulher que dormia nesse exato momento no camarote sobressalente era uma responsabilidade a ser considerada, e o único pensamento racional que me atravessou a mente dizia que, para conseguir ajudá-la, eu não poderia tomar nenhuma atitude precipitada.

Jack London, in O Lobo do Mar

Nenhum comentário:

Postar um comentário