quinta-feira, 10 de novembro de 2022

O Lobo do Mar | Capítulo 18


No dia seguinte, enquanto a tempestade amainava, Wolf Larsen e eu lemos tudo que estava à mão sobre anatomia e cirurgia e ajeitamos as costelas de Mugridge. Mais tarde, quando a tempestade já tinha ido embora, Wolf Larsen percorreu toda a porção de oceano em que ela nos castigara, e foi também um pouco mais para oeste, ao mesmo tempo em que os botes eram consertados e as novas velas eram preparadas e envergadas. Avistamos e abordamos várias escunas de caça à foca, uma atrás da outra, e a maioria também estava à procura de seus botes perdidos e levava botes e tripulantes que não lhes pertenciam. O grosso da frota estivera a nosso oeste, e os botes espalhados por toda parte tinham fugido em desespero na direção do refúgio mais próximo.
Recuperamos dois de nossos botes, com todos os homens a salvo, na escuna Cisco, e, para minha dor e deleite de Wolf Larsen, encontramos Smoke, junto com Nilson e Leach, na San Diego. Desse modo, ao final de cinco dias tínhamos apenas quatro homens a menos (Henderson, Holyoak, William e Kelly) e voltamos a perseguir o bando de focas.
À medida que rumávamos para o norte, começamos a encontrar os temidos nevoeiros. Dia após dia, os botes desciam e eram encobertos quase no mesmo instante em que atingiam a água, e dali em diante tocávamos a sirene de bordo em intervalos regulares e disparávamos o rojão a cada quinze minutos. Botes eram perdidos e achados com frequência, e antes de ser reencontrado pela própria escuna era comum que um bote caçasse para qualquer escuna que o recolhesse. Mas, como era de esperar, Wolf Larsen, que tinha um bote a menos, se apoderou do primeiro bote perdido que apareceu, obrigou seus homens a caçarem para o Ghost e não permitiu que eles retornassem à própria escuna quando a avistamos. Lembro como ele coagiu o caçador e seus subordinados no convés inferior, com o rifle apontado para os seus peitos, quando o capitão deles se aproximou e sinalizou pedindo informações.
Thomas Mugridge, com seu estranho e insistente apego à vida, logo estava mancando de um lado a outro e desempenhando sua dupla função de cozinheiro e camaroteiro. Johnson e Leach eram submetidos a mais surras e intimidações do que nunca, e estavam convencidos de que perderiam a vida assim que a temporada de caça chegasse ao fim. Os outros tripulantes viviam como cães e trabalhavam como cães, subjugados a seu dono implacável. Quanto a mim e Wolf Larsen, nos dávamos bastante bem, embora eu não conseguisse me livrar totalmente da ideia de que a melhor conduta, no meu caso, seria matá-lo. Meu fascínio por ele era imensurável, assim como o meu medo. Apesar disso, eu era incapaz de imaginá-lo morto, caído no chão. Sua resistência remetia a uma juventude perpétua e se impunha de modo a proibir este cenário. Eu só podia imaginá-lo vivendo para sempre, dominando tudo para sempre, lutando e destruindo, sempre sobrevivendo.
Uma de suas diversões, quando estávamos no meio das focas e com o mar agitado demais para descer os botes, era sair à caça com dois remadores e um piloto. Ele também era um bom atirador e obteve uma porção de peles em condições de caça consideradas impossíveis pelos caçadores. Essa forma de carregar a vida nas mãos e defendê-la das ameaças mais extremas era o ar que ele respirava.
Eu aprendia a navegar cada vez melhor, tanto que, em determinado dia de céu limpo, desses que agora eram raros, tive a oportunidade de pilotar e manejar o Ghost e recolher os botes sozinho. Wolf Larsen tinha sido derrubado por uma de suas dores de cabeça, portanto permaneci ao timão do nascer do dia até a noite, singrando o oceano em busca do último barco a sotavento e depois dos outros cinco, arribando e recolhendo-os um a um, sem contar com os comandos e sugestões do capitão.
As ventanias eram frequentes, pois aquela era uma região inóspita e tempestuosa, e no meio de junho fomos apanhados por um tufão memorável e também muito importante para mim, pois sua passagem mudou meu futuro. Creio que fomos pegos quase no centro do furacão, e Wolf Larsen escapou dele para o sul, primeiro com a bujarrona duplamente enrizada, e depois com os mastros nus. Eu não sabia que podiam existir ondas tão grandes. As ondas que havíamos encontrado até então eram marolas perto dessas, que podiam ter quase um quilômetro entre uma crista e outra e se elevavam, tenho certeza, acima de nossos mastros. Eram tão grandes que nem mesmo Wolf Larsen ousou arribar, embora estivesse sendo empurrado com força ao sul, para longe do bando de focas.
Devíamos estar bem na rota dos vapores transpacíficos quando o tufão perdeu força, e naquele local, para surpresa dos caçadores, nos vimos rodeados de focas. Era um segundo bando, eles declararam, ou uma espécie de grupo de retaguarda, o que era bastante incomum. De todo modo, soaram gritos de “Botes ao mar!” e depois os estampidos dos tiros de uma chacina lamentável que se estendeu por um longo dia.
Nesta ocasião, fui abordado por Leach. Eu tinha acabado de contar as peles do último bote trazido a bordo quando ele se aproximou de mim na escuridão e disse em voz baixa:
Sabe me dizer, sr. Van Weyden, a que distância estamos da costa e para que lado está Yokohama?
Meu coração pulou de alegria, pois eu sabia o que ele tinha em mente, e dei-lhe a posição de Yokohama: oés-noroeste, oitocentos quilômetros de distância.
Obrigado, senhor — foi tudo que ele disse antes de retroceder na escuridão.
Na manhã seguinte, o bote número três tinha desaparecido junto com Johnson e Leach. As barricas d’água e lancheiras de todos os outros botes também tinham sumido, bem como a roupa de cama e as sacolas dos dois homens. Wolf Larsen ficou possesso. Ergueu velas e partiu para oés-noroeste com dois caçadores permanentemente trepados nos mastros e varrendo o oceano com lunetas, e ficou dando voltas no convés como um leão enfurecido. Estava ciente da minha simpatia pelos fugitivos e sabia que não ia adiantar nada me colocar no mastro para procurá-los.
O vento estava firme, porém inconstante, e pinçar aquele bote pequenino na imensidão azul era como procurar uma agulha no palheiro. Mesmo assim, ele pôs a escuna a toda velocidade para tentar se adiantar entre os desertores e a costa. Depois, navegou de um lado a outro pelo rumo que, de acordo com seus cálculos, eles deviam ter tomado.
Na manhã do terceiro dia, logo após o último toque de sino da guarda, Smoke gritou do alto do mastro que o bote tinha sido avistado. Todos os homens se alinharam na amurada. Uma brisa arisca soprava de oeste, prometendo ventos mais fortes, e ali, a sotavento, na prata movediça do sol nascente, um pontinho preto aparecia e desaparecia.
Estendemos as velas e corremos para lá. Meu coração parecia chumbo. Comecei a passar mal de tanta ansiedade. Encarei o brilho triunfante no olhar de Wolf Larsen e ao vê-lo aproximar-se de mim tive ganas de partir para cima dele. Só de pensar nas violências que poderiam ser cometidas contra Leach e Johnson, fiquei tão nervoso que devo ter perdido a razão. Sei que me infiltrei na baiuca sem chamar a atenção de ninguém, em estado de estupor, e que já estava subindo de novo para o convés com uma escopeta carregada em mãos quando ouvi um grito espantado:
Há cinco homens no bote!
Tentei manter o apoio na escada da escotilha, trêmulo e enfraquecido, à medida que os comentários dos outros homens iam reforçando a informação. Por fim, meus joelhos cederam e desabei no chão com o juízo recobrado, e ao mesmo tempo pasmo com o ato que estive a ponto de cometer. Ao guardar a escopeta e retornar para o convés, fui invadido por um sentimento de gratidão.
Ninguém tinha reparado na minha ausência. Quando o bote chegou um pouco mais perto, notamos que era maior que qualquer bote de caça, e de um modelo bastante diferente. À medida que nos aproximávamos, eles recolheram a vela e desenfurnaram o mastro. Os remos foram guardados no fundo e os ocupantes ficaram esperando que arribássamos para içá-los a bordo.
Smoke, que tinha descido para o convés e agora estava parado ao meu lado, soltou uma risadinha maliciosa. Eu o questionei com o olhar.
Vai ser aquela bagunça! — ele riu.
O que há de errado? — perguntei.
Ele deu outra risadinha.
Está vendo ali, perto da proa? Que eu nunca mais consiga acertar uma foca se aquilo não é uma mulher.
Forcei a vista, mas só tive certeza quando as exclamações começaram a brotar de todos os lados. O bote carregava quatro homens, e o quinto tripulante era certamente uma mulher. Estávamos vibrando de entusiasmo, todos exceto Wolf Larsen, que manifestava evidente frustração por não ter encontrado seu bote e as duas vítimas de suas maldades.
Arriamos a giba, viramos a bujarrona para barlavento, aplainamos a vela mestra e viramos de frente para o vento. Os remos entraram na água e com poucas remadas o bote emparelhou. Pela primeira vez, enxerguei bem a mulher. Estava enrolada num casaco longo, pois era uma manhã gelada, e só pude ver seu rosto e uma massa de cabelos castanhos escapando do chapéu de marinheiro que ela usava na cabeça. Seus olhos eram grandes, castanhos e lustrosos, sua boca era doce e vulnerável, e seu rosto era oval e delicado, apesar de estar um pouco avermelhado por causa do sol e do vento salgado.
Tive a impressão de que era uma criatura de outro mundo. Despertou-me um ímpeto voraz, como o de um homem faminto diante de um pedaço de pão. Não era de espantar, pois fazia muito tempo que eu não via uma mulher. Sei que me entreguei a um grande deslumbramento, quase um estupor (era isso uma mulher?), e estive a ponto de esquecer de mim mesmo e de minhas obrigações como imediato, tanto que não participei do processo de trazer os recém-chegados a bordo. Quando um dos marujos a ergueu na direção dos braços estendidos de Wolf Larsen, ela viu nossos rostos curiosos lá no alto e abriu um sorriso doce e encantador, de um tipo que apenas as mulheres são capazes, e eu não via um sorriso daqueles há tanto tempo que já tinha esquecido de sua existência.
Sr. Van Weyden!
A voz de Wolf Larsen me trouxe bruscamente de volta à realidade.
Queira descer com a moça e acomodá-la. Prepare a cabine desocupada a bombordo. Mande o Mestre-Cuca cuidar disso. E veja o que pode fazer com o rosto dela. Está bem queimado.
Ele nos deu as costas repentinamente e começou a interrogar os novos tripulantes. O bote foi deixado à deriva, embora um deles tenha dito que era “uma grande pena”, já que estávamos tão perto de Yokohama.
Senti um estranho medo dessa mulher enquanto a escoltava até a proa. Também me senti desajeitado. Era como se eu me desse conta, pela primeira vez, de como a mulher é uma criatura frágil e delicada, e ao pegar em seu braço para ajudá-la a descer a escada da escotilha fiquei impressionado com sua maciez e finura. De fato, era uma mulher esguia e delicada como poucas, mas para mim, na ocasião, essas características tinham uma qualidade tão etérea que eu estava pronto para sentir o braço desmanchar na minha mão. Menciono tudo isso para exprimir com franqueza as minhas primeiras impressões depois de um longo afastamento das mulheres em geral, e em particular de uma mulher como Maud Brewster.
Não precisa se incomodar tanto assim comigo — ela protestou quando a fiz sentar na poltrona de Wolf Larsen, que eu acabara de arrastar da cabine dele. — Os homens esperavam avistar terra a qualquer momento esta manhã, e creio que esta embarcação aportará ainda hoje à noite, não acha?
Sua confiança tão singela em relação ao futuro próximo me atingiu com impacto. Como eu poderia descrever para ela a nossa situação, o estranho homem que espreitava o mar como o Destino, tudo aquilo que eu levara meses para compreender? Mas dei uma resposta honesta.
Se nosso capitão fosse qualquer outro, eu poderia dizer que estaríamos no porto de Yokohama amanhã cedo. Mas o nosso capitão é um homem estranho, e rogo à senhorita que esteja preparada para tudo. Entendeu? Para tudo.
Eu… eu confesso que não estou entendendo muito bem — ela hesitou com uma expressão perturbada, mas não assustada. — Ou me engano ao pensar que náufragos em geral merecem ser tratados com toda a consideração? Não é quase nada, sabe. Estamos tão perto da costa.
Com toda a sinceridade, senhorita, não sei dizer — procurei acalmá-la. — Queria apenas prepará-la para o pior, caso o pior se confirme. Este homem, este capitão, é um bárbaro, um demônio, e é impossível prever sua próxima extravagância.
Eu estava começando a me empolgar, mas ela me interrompeu com um “Oh, entendo”, e sua voz soou abatida. Ela precisava fazer um esforço visível para pensar. Era evidente que estava à beira de um colapso físico.
Ela não fez mais perguntas e não acrescentei mais nenhum comentário, dedicando-me em vez disso às ordens de Wolf Larsen, que eram de garantir seu conforto. Assumindo a posição de uma dona de casa, busquei uma loção para aliviar as queimaduras de sol, assaltei a reserva privada de Wolf Larsen para trazer a garrafa de vinho do Porto que eu sabia que estava lá e mandei Thomas Mugridge preparar o camarote livre.
O vento estava ficando mais forte e o Ghost adernava cada vez mais, e quando o camarote ficou pronto a escuna já avançava em alta velocidade. Eu tinha quase esquecido da existência de Leach e Johnson, quando de repente soou pela escotilha aberta, como um trovão, um grito de “Bote à vista!”. Era a voz inconfundível de Smoke gritando do alto do mastro. Olhei de canto para a mulher, mas ela estava recostada na poltrona, de olhos fechados, derrotada pelo cansaço. Duvidei que ela tivesse escutado e resolvi protegê-la da visão da brutalidade que viria com a captura dos desertores. Ela estava cansada. Ótimo. Precisava dormir.
Depois que ordens rápidas foram proferidas no convés, soaram passos apressados e os rizes estalaram à medida que o Ghost pegava o vento e mudava de curso. Quando a escuna ganhou velocidade e adernou, a poltrona começou a escorregar pelo chão da cabine e consegui alcançá-la com um pulo no último instante, evitando que a moça fosse arremessada para fora.
Seus olhos estavam pesados demais para expressar qualquer coisa além de uma leve surpresa sonolenta, e ela veio tropeçando e cambaleando quando a conduzi até o camarote. Mugridge me encarou com um sorrisinho insinuante quando o expulsei e ordenei que retomasse suas funções na cozinha, e ele se vingou disseminando entre os caçadores relatos vívidos da excelente “dama de companhia” que eu era.
Ela apoiou todo o peso em mim e creio que adormeceu de novo no caminho entre a poltrona e o camarote. Só percebi isso quando ela quase caiu sobre a cama, bem no momento em que a escuna deu um solavanco repentino. Ela despertou, abriu um sorriso entorpecido e voltou a dormir, e eu a deixei assim adormecida, debaixo de um par de cobertores pesados, com a cabeça apoiada num travesseiro expropriado da cama de Wolf Larsen.

Jack London, in O Lobo do Mar

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