Um
piano dentro da noite. Seria Lautréamont compondo, Lautréamont o
trânsfuga? O estilo era bem de Lautréamont, tanto quanto me foi
possível ouvi-lo a distância, na escuridão da minha insônia, pela
noite adentro. As notas batiam nos meus nervos, uma após outra,
insolitamente, e quando não batiam eu ficava à sua espera, olhos
abertos, a respiração suspensa, como se me houvessem roubado em
alguma coisa, em minha alma, e não houvesse ninguém a quem eu
pudesse apelar dentro do enorme silêncio, sem polícia e sem
revólveres.
O
resultado é que a missa não me pareceu tão bela, dado o meu estado
de cansaço na manhã fria e brumosa, ainda com as teclas do piano me
martelando os tímpanos e a raiz do cérebro, em notas soltas e
perfeitamente demoníacas. O Dr. Keither, que se sentou ao meu lado
com o seu cache-nez cor de fogo, queixou-se da mesma coisa e
exibiu-me um par de olheiras impressionantes como prova de sua
vigília sonora e sem remédio. Atrás de nós, contritos e como duas
estátuas de mármore, o legado pontifício e seu secretário
silencioso; e no banco da frente, atentos e respeitosos, o prof.
Dilthey, de regra tão violento, e um desconhecido de cor indefinida
entre o azinhavre e o açafrão e que a todo instante coçava o
fundilho das calças, com grande preocupação por parte do potentado
hindu, que se achava no banco à direita.
Houve
muita música e um sermão perfeitamente idiota, proferido por um
padre rubicundo e de forte sotaque alemão, que discorreu sobre a
vida do Cristo da idade dos 12 anos até os 33, com detalhes que
estarreceram a todos os presentes menos a mim, que já estou
acostumado com todas essas vigarices à custa do Nazareno e de sua
respeitabilíssima família. O sono às vezes me fazia pender a
cabeça sobre o ombro forte do Dr. Keihter, que por sua vez me pagava
na mesma moeda e caía de cheio sobre o meu corpo, com grande
escândalo do legado pontifício & Cia., a dois palmos de nossas
bundas.
O
instante de sensação, que valeu por todo o espetáculo, foi quando,
à hora da elevação da hóstia e quando as campainhas soavam mais
forte, o anarquista anônimo e de olhar flamejante subiu ao seu banco
e, com a voz portentosa que nunca lhe falta nessas ocasiões, se pôs
a invectivar contra o clero de um modo geral e contra o oficiante da
missa de um modo particular, em palavras como sempre do mais baixo
calão e sem o menor respeito pelas senhoras presentes. Agarraram-no
à força, como da outra vez, e o levaram aos brados para fora da
igreja, onde sua voz à Savonarola ainda continuou por algum tempo
percutindo no ar frio da manhã, com grande escândalo dos que se
preparavam para a comunhão. Entre estes percebi logo o hipócrita e
obeso mister Boss, com o seu sorriso maquiavélico, e o tortíssimo
sobrinho de Napoleão Bonaparte, todo vestido de preto e com um ar de
virgem na face esquálida. Duas ou três senhoras de boa família,
que não conheço, infiltraram-se entre os prisioneiros e conseguiram
arranjar sua comunhãozinha à custa deles, não sem um protesto
velado e a meia voz do legado pontifício às minhas costas, que em
sinal de repulsa cuspiu sua hóstia fora.
Dali
fomos levados, em fila quase indiana, ao centro do grande pátio de
recreio, onde se achava instalada uma mesa realmente monumental, com
uma árvore de Natal no meio. Não sei com que objetivos políticos
ou religiosos, o certo é que a grande mesa estava toda coberta de
bolos e doces de todas as qualidades e aparências, numa orgia de
cores que não deixou de impressionar-me vivamente, mesmo porque
minha fome a essa altura já era grande. Após uma alocução breve
do capelão do campo, que ninguém ouviu, atiramo-nos vorazmente
sobre os petiscos e os embrulhos de presentes que tínhamos sob os
nossos narizes, a mim me cabendo apenas cinco dos embrulhos que pude
captar num raio de 3 metros quadrados, e que logo constatei serem
apenas livros de nenhuma importância e uma corneta de escoteiro que
generosamente doei ao Dr. Keither. Os doces e salgados eram bem
feitos mas traziam um indisfarçável cheiro de sacristia, e
limitei-me a prová-los com uma rapidez espantosa, atirando os restos
sem a menor cerimônia na cara dos que se achavam do outro lado da
mesa e que me respondiam gentilmente da mesma forma. Dentro em pouco
o banquete improvisado se transformou numa autêntica batalha de
confete, com pedaços de bolo e caroços de azeitona voando
indistintamente de uma extremidade da mesa à outra, em meio a
impropérios e palavrões que nem de longe penso repetir aqui.
Quando
acabou a batalha naval, o mesmo capelão de antes tentou repetir sua
oratória mambembe, mas foi estridentemente vaiado por todos os
presentes em estado de exaltação, inclusive pelo legado pontifício
que lhe atirou um pastel na cara e o fez sentar-se meio atônito.
Ao
som da Noite Feliz, executada numa vitrola invisível,
fizeram-nos entrar de novo em fila indiana e levaram-nos às pressas
até as nossas respectivas celas, onde ficamos trancafiados o resto
da manhã, até a hora do almoço, quando os ânimos já estavam
serenados e pudemos sem maiores protestos voltar à rotina de todos
os dias, com um almoço que não tinha sequer linguiça ou frango
ensopado para variar.
Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia
Nenhum comentário:
Postar um comentário