quinta-feira, 17 de novembro de 2022

A Lua Vem da Ásia | Capítulo 103

Um piano dentro da noite. Seria Lautréamont compondo, Lautréamont o trânsfuga? O estilo era bem de Lautréamont, tanto quanto me foi possível ouvi-lo a distância, na escuridão da minha insônia, pela noite adentro. As notas batiam nos meus nervos, uma após outra, insolitamente, e quando não batiam eu ficava à sua espera, olhos abertos, a respiração suspensa, como se me houvessem roubado em alguma coisa, em minha alma, e não houvesse ninguém a quem eu pudesse apelar dentro do enorme silêncio, sem polícia e sem revólveres.
O resultado é que a missa não me pareceu tão bela, dado o meu estado de cansaço na manhã fria e brumosa, ainda com as teclas do piano me martelando os tímpanos e a raiz do cérebro, em notas soltas e perfeitamente demoníacas. O Dr. Keither, que se sentou ao meu lado com o seu cache-nez cor de fogo, queixou-se da mesma coisa e exibiu-me um par de olheiras impressionantes como prova de sua vigília sonora e sem remédio. Atrás de nós, contritos e como duas estátuas de mármore, o legado pontifício e seu secretário silencioso; e no banco da frente, atentos e respeitosos, o prof. Dilthey, de regra tão violento, e um desconhecido de cor indefinida entre o azinhavre e o açafrão e que a todo instante coçava o fundilho das calças, com grande preocupação por parte do potentado hindu, que se achava no banco à direita.
Houve muita música e um sermão perfeitamente idiota, proferido por um padre rubicundo e de forte sotaque alemão, que discorreu sobre a vida do Cristo da idade dos 12 anos até os 33, com detalhes que estarreceram a todos os presentes menos a mim, que já estou acostumado com todas essas vigarices à custa do Nazareno e de sua respeitabilíssima família. O sono às vezes me fazia pender a cabeça sobre o ombro forte do Dr. Keihter, que por sua vez me pagava na mesma moeda e caía de cheio sobre o meu corpo, com grande escândalo do legado pontifício & Cia., a dois palmos de nossas bundas.
O instante de sensação, que valeu por todo o espetáculo, foi quando, à hora da elevação da hóstia e quando as campainhas soavam mais forte, o anarquista anônimo e de olhar flamejante subiu ao seu banco e, com a voz portentosa que nunca lhe falta nessas ocasiões, se pôs a invectivar contra o clero de um modo geral e contra o oficiante da missa de um modo particular, em palavras como sempre do mais baixo calão e sem o menor respeito pelas senhoras presentes. Agarraram-no à força, como da outra vez, e o levaram aos brados para fora da igreja, onde sua voz à Savonarola ainda continuou por algum tempo percutindo no ar frio da manhã, com grande escândalo dos que se preparavam para a comunhão. Entre estes percebi logo o hipócrita e obeso mister Boss, com o seu sorriso maquiavélico, e o tortíssimo sobrinho de Napoleão Bonaparte, todo vestido de preto e com um ar de virgem na face esquálida. Duas ou três senhoras de boa família, que não conheço, infiltraram-se entre os prisioneiros e conseguiram arranjar sua comunhãozinha à custa deles, não sem um protesto velado e a meia voz do legado pontifício às minhas costas, que em sinal de repulsa cuspiu sua hóstia fora.
Dali fomos levados, em fila quase indiana, ao centro do grande pátio de recreio, onde se achava instalada uma mesa realmente monumental, com uma árvore de Natal no meio. Não sei com que objetivos políticos ou religiosos, o certo é que a grande mesa estava toda coberta de bolos e doces de todas as qualidades e aparências, numa orgia de cores que não deixou de impressionar-me vivamente, mesmo porque minha fome a essa altura já era grande. Após uma alocução breve do capelão do campo, que ninguém ouviu, atiramo-nos vorazmente sobre os petiscos e os embrulhos de presentes que tínhamos sob os nossos narizes, a mim me cabendo apenas cinco dos embrulhos que pude captar num raio de 3 metros quadrados, e que logo constatei serem apenas livros de nenhuma importância e uma corneta de escoteiro que generosamente doei ao Dr. Keither. Os doces e salgados eram bem feitos mas traziam um indisfarçável cheiro de sacristia, e limitei-me a prová-los com uma rapidez espantosa, atirando os restos sem a menor cerimônia na cara dos que se achavam do outro lado da mesa e que me respondiam gentilmente da mesma forma. Dentro em pouco o banquete improvisado se transformou numa autêntica batalha de confete, com pedaços de bolo e caroços de azeitona voando indistintamente de uma extremidade da mesa à outra, em meio a impropérios e palavrões que nem de longe penso repetir aqui.
Quando acabou a batalha naval, o mesmo capelão de antes tentou repetir sua oratória mambembe, mas foi estridentemente vaiado por todos os presentes em estado de exaltação, inclusive pelo legado pontifício que lhe atirou um pastel na cara e o fez sentar-se meio atônito.
Ao som da Noite Feliz, executada numa vitrola invisível, fizeram-nos entrar de novo em fila indiana e levaram-nos às pressas até as nossas respectivas celas, onde ficamos trancafiados o resto da manhã, até a hora do almoço, quando os ânimos já estavam serenados e pudemos sem maiores protestos voltar à rotina de todos os dias, com um almoço que não tinha sequer linguiça ou frango ensopado para variar.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

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