Dia
16 de novembro de 2008
Dizem-me
que as entrevistas valeram a pena. Eu, como de costume, duvido,
talvez porque já esteja cansado de me ouvir. O que para outros ainda
lhes poderá parecer novidade, tornou-se para mim, com o decorrer do
tempo, em caldo requentado. Ou pior, amarga-me a boca a certeza de
que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a vida não
terão, no fim de contas, nenhuma importância. E por que haveriam de
tê-la? Que significado terá o zumbido das abelhas no interior da
colmeia? Serve-lhes para se comunicarem umas com as outras? Ou é um
simples efeito da natureza, a mera consequência de estar vivo, sem
prévia consciência nem intenção, como uma macieira dá maçãs
sem ter que preocupar-se se alguém virá ou não comê-las? E nós?
Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor
evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às
nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto
tempo? E, finalmente, para quê? São perguntas ociosas, bem o sei,
próprias de quem cumpre 86 anos. Ou talvez não tão ociosas assim
se penso que meu avô Jerónimo, nas suas últimas horas, se foi
despedir das árvores que havia plantado, abraçando-as e chorando
porque sabia que não voltaria a vê-las. A lição é boa. Abraço-me
pois às palavras que escrevi, desejo-lhes longa vida e recomeço a
escrita no ponto em que tinha parado. Não há outra resposta.
José Saramago, in O caderno
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