terça-feira, 28 de setembro de 2021

O chapéu vermelho


Foi um bocado bom voltar para o quarto depois de sair da casa do velho Spencer, porque todo mundo estava no jogo e, para variar, o sistema de aquecimento estava funcionando em nosso quarto. Tirei o paletó, a gravata, desabotoei o colarinho e pus na cabeça um chapéu que tinha comprado em Nova York de manhã. Era um desses chapéus de caça, vermelho, com a pala bem comprida. Eu o tinha visto na vitrina de uma loja de artigos esportivos quando saímos do metrô, logo depois que descobri que havia perdido a porcaria dos floretes e tudo. Só custou um dólar. Usava o chapéu com a pala virada para trás – de um jeito meio ridículo, mas era assim mesmo que eu gostava. Aí apanhei o livro que estava lendo e sentei na minha poltrona. Havia duas poltronas em cada quarto. Eu tinha uma e meu colega de quarto, Ward Stradlater, tinha outra. Os braços estavam em petição de miséria, porque todo mundo sentava sempre em cima deles, mas eram umas poltronas um bocado confortáveis.
Estava lendo um livro que tinha apanhado por engano na biblioteca. Me deram o livro errado e só notei quando já estava de volta no quarto. Haviam me dado Fora da África, de Isak Dinesen. Pensei que ia ser uma droga, mas não era não. Até que era um livro muito bom. Sou bastante ignorante, mas leio um bocado. Meu autor preferido é meu irmão D.B. e, em segundo lugar, Ring Lardner. Meu irmão me deu um livro do Ring Lardner no meu aniversário, antes de eu ir para o Pencey. Tinha uma porção de peças malucas, engraçadas pra burro, e um conto sobre um guarda de trânsito que se apaixona por uma garota muito bonita, que dirigia sempre em excesso de velocidade. Só que o guarda era casado, e por isso não podia casar com ela nem nada. Aí a garota acaba morrendo, porque dirigia sempre em excesso de velocidade. Achei essa estória infernal. O que eu gosto mesmo é de um livro que seja engraçado, pelo menos de vez em quando. Li uma porção de livros clássicos, como A Volta do Nativo, e tudo, e gostei deles; li também vários livros de guerra e de mistério, mas nenhum desses me deixou maluco. Bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler fica querendo ser um grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que der vontade. Mas isso é raro de acontecer. Eu até que gostaria de telefonar para esse tal de Ring Lardner, só que o D. B. me disse que ele já morreu. Mas, por exemplo, esse livro do Somerset Maugham, A Servidão Humana, que li no verão passado. É um livro bom pra chuchu e tudo, mas não me dá vontade de telefonar para o Somerset Maugham. Sei lá. Não é o tipo de sujeito que a gente tenha vontade de telefonar para ele, essa é que é a verdade. Preferiria telefonar para o Thomas Hardy. Gosto muito da tal de Eustacia Vye.
Seja lá como for, pus meu chapéu novo na cabeça, sentei e comecei a ler o tal do Fora da África. Não tinha lido nem umas três páginas quando ouvi alguém atravessando as cortinas do chuveiro. Mesmo sem olhar já sabia quem era. Era o Robert Ackley, que morava no quarto ao lado do meu. Na nossa ala havia um chuveiro entre cada dois quartos, e o tal do Ackley encarnava em mim umas oitenta e cinco vezes por dia. Era provavelmente o único cara em todo o dormitório, além de mim, que não estava vendo o jogo. Ele quase nunca ia a lugar nenhum. Era um sujeito um bocado esquisito. Já estava no último ano, tinha feito o curso inteiro lá mesmo no Pencey, mas todo mundo só chamava ele de Ackley. Nem mesmo o Herb Gale, seu companheiro de quarto, chamava ele de Bob ou mesmo Ack. Se é que algum dia ele vai se casar, aposto que a mulher dele também vai chamá-lo de Ackley. Era um desses camaradas altos pra burro, de ombros largos – devia ter um metro e oitenta e sete – com uns dentes podres. O tempo todo que morou no quarto ao lado do meu, não o vi escovar os dentes nem uma única vez. Os dentes dele estavam sempre meio esverdeados, parecia até que já tinham criado musgo, e dava nojo vê-lo no refeitório, com a boca cheia de purê de batatas, ervilha ou coisa que o valha. Além disso, tinha um bocado de espinhas. Não era só na testa ou no queixo, como a maioria dos sujeitos, mas pela cara toda. E não era só isso, tinha um gênio dos diabos, o tipo do indivíduo desagradável. Confesso que não ia lá muito com as fuças dele.
Podia sentir que ele estava em pé, na borda do chuveiro, bem detrás da minha poltrona, dando uma olhada para ver se o Stradlater andava por perto. Ackley não topava o Stradlater, e nunca entrava no quarto com ele por lá. No duro mesmo, acho que o safado não topava era ninguém.
Desceu da borda do chuveiro e entrou no quarto. – Oba – disse. Ele sempre dizia isso como se estivesse terrivelmente chateado ou terrivelmente cansado. Não queria que os outros pensassem que ele estava fazendo uma visita, ou coisa parecida; queria que a gente imaginasse que ele tinha entrado por engano!
Oba – respondi, mas nem levantei a cabeça do livro. Com um sujeito como o Ackley, a gente estava perdido se levantasse a cabeça do livro. Estaria perdido de qualquer jeito, mas não tão depressa como se houvesse logo olhado para ele.
Começou a zanzar pelo quarto, devagarinho e tudo, como sempre fazia, mexendo nos objetos pessoais da gente que estivessem por cima das escrivaninhas ou das mesas. Estava sempre apanhando um objeto pessoal de alguém para dar uma olhada. Puxa, tinha horas que botava a gente nervoso.
Como é que foi a competição de esgrima? – perguntou. Mas era só para me obrigar a parar de ler e deixar de me divertir. – Ganhamos, ou como é que foi?
Ninguém ganhou – respondi. Mas sem olhar para ele.
O quê?
Ele estava sempre obrigando a gente a dizer as coisas duas vezes.
Isso mesmo. Ninguém ganhou.
Dei uma olhadela para ver o que é que ele estava fazendo na minha escrivaninha. Estava olhando o retrato de uma garota com quem eu costumava sair em Nova York, Sally Hayes. Ele já devia ter apanhado e olhado aquela droga daquele retrato umas cinco mil vezes desde o dia em que o recebi. Quando tinha se fartado de mexer numa coisa, punha sempre de volta no lugar errado. Fazia isso de propósito, evidentemente.
Ninguém ganhou, não é? Como é que pode?
Esqueci a droga dos floretes e do equipamento no metrô.
Continuava com a cara enfiada no livro.
No metrô, essa é boa! Quer dizer que você perdeu tudo?
Nós tomamos o trem errado e eu tinha que ficar me levantando para olhar a porcaria do mapa na parede.
Chegou para perto de onde eu estava e se postou bem em frente da luz. Aí eu disse: – Puxa, já li essa mesma frase umas vinte vezes desde que você chegou.
Qualquer um teria entendido a indireta, menos o Ackley. Menos ele.
E você acha que vão te fazer pagar o equipamento? – perguntou.
Sei lá, e estou pouco ligando. Que tal você se sentar ou coisa que o valha, hem, meu menino? Você está bem na frente da minha luz.
Ficava possesso quando alguém o chamava de menino. Estava sempre dizendo que eu era criança, porque eu tinha dezesseis anos e ele dezoito. Ficava maluco quando eu o chamava de meu menino.
Nem com isso saiu do lugar. Era exatamente o tipo do sujeito que não sai da frente da luz se a gente pedir. Depois de algum tempo acabava saindo, mas sempre demorava mais um pouco se a gente tivesse pedido a ele para sair.
O que é que você está lendo?
Uma droga dum livro.
Deu um empurrão no livro para ver o título e perguntou:
Como é? Vale alguma coisa?
Essa frase que eu estou lendo é genial.
Às vezes, quando me dá vontade, consigo ser um bocado sarcástico. Mas ele nem entendeu a ironia. Começou a andar outra vez pelo quarto, mexendo em todos os meus objetos pessoais e do Stradlater. Afinal, pus meu livro no chão. Ninguém consegue ler mais nada com um sujeito como o Ackley por perto. É totalmente impossível. Deixei o corpo escorregar até lá em baixo da poltrona, e fiquei olhando o sacana do Ackley se pondo à vontade, como se estivesse em casa. Estava começando a me sentir um pouco cansado da viagem a Nova York e tudo, e comecei a bocejar. Aí comecei a bancar o maluco pra fazer hora. De vez em quando eu banco o maluco uma porção de tempo, só para não ficar chateado. O que fiz foi puxar a pala do meu chapéu para a frente e dobrar para baixo, tapando os olhos. desse jeito não conseguia ver porcaria nenhuma.
Acho que estou ficando cego – eu disse, numa voz rouca pra chuchu. – Mãezinha querida, está ficando tudo tão escuro aqui.
Juro que você é maluco – disse o Ackley.
Mãezinha querida, me dá a tua mão. Por que é que você não me dá a tua mão?
Oh, por favor. Vê se cresce, tá?
Comecei a tatear na minha frente, como se fosse cego, mas sem me levantar nem nada. – Mãezinha querida, por que é que você não me dá a tua mão? – continuei dizendo, mas estava só bancando o maluco, naturalmente. Às vezes um negócio desses me diverte um bocado, e além disso eu sabia que o Ackley ficava danado com a brincadeira. Ele sempre despertava em mim uma ponta de sadismo. De vez em quando eu era um bocado sádico com ele. Acabei parando. Puxei a pala de volta para trás e sosseguei.
De quem é isso? – Ackley perguntou. Estava me mostrando a joelheira do meu companheiro de quarto. O sacaneta do Ackley mexia em qualquer troço. Era até capaz de apanhar a culhoneira da gente, ou qualquer outra coisa. Disse que era do Stradlater e ele aí jogou a joelheira em cima da cama dele. Tinha apanhado em cima da escrivaninha, por isso é que jogava em cima da cama.
Aproximou-se e sentou no braço da poltrona do Stradlater. Nunca sentava numa poltrona, tinha que ser sempre no braço da poltrona.
Onde é que você arranjou esse chapéu?
Em Nova York.
Quanto foi?
Um dólar.
Então você foi roubado.
Começou a limpar a droga das unhas com a ponta de um fósforo. Estava sempre limpando as unhas. De certo modo, era até engraçado. Os dentes dele estavam sempre esverdeados de sujeira, as orelhas eram uma imundície, mas ele não passava um dia sem limpar as unhas. Acho que pensava que isso o tornava um sujeito muito limpo. Deu outra olhadela para meu chapéu enquanto limpava as unhas.
Lá onde eu moro a gente usa esse tipo de chapéu para caçar veado, por Deus do céu. Esse chapéu só serve para caçar veado.
Nada disso.
Tirei o chapéu e olhei para ele, com um dos olhos meio fechado, como se estivesse fazendo mira.
Esse chapéu aqui é para caçar gente. Eu uso ele para caçar gente.

J. D. Salinger, in O Apanhador no Campo de Centeio

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