quarta-feira, 13 de março de 2019

Pranto de coqueiro

Foi evento que saiu no jornal da Nação, oficial e autenticado. O alvoroço dos coqueirais de Inhambane mereceu título e honrosas colunas. Tudo começou quando, sentado na marginal de Inhambane, meu amigo Suleimane Ibraímo partiu a casca de um coco. Pois de dentro do fruto não jorrou a habitual água-doce mas sangue. Exatamesmo: sangue, certificado e indiscutível sangue. Mas não foi o único pasmo do assunto. Do fruto brotou ainda humana voz em choros e lamentos. Suleimane não esteve com meias desmedidas: as mãos boquiabertas deixaram tombar o coco e o vermelho se espalhou em mancha. Ficou assim, atarantonto, trapalhaço, sem gota. O susto lhe fez esvair a alma em maré baixa.
Quando acorri ao lugar ele ainda estava na mesma posição, cabeça ajoelhada no peito. Restos do incidente tinham sido removidos, as mãos lavadas, amnésicas. Só a voz ainda lhe tremia enquanto me relatava o episódio. Eu desconfiava. A dúvida, sabemos, é a inveja de não nos suceder a nós as impossíveis surpresas.
Me desculpe, Suleimane: um coco que falava, chorava, sangrava?
Eu bem sabia: você não ia acreditar.
Não é não acreditar, mano. É duvidar.
Então pergunte aí, por esse povo afora, pergunte a sucedência desses cocos.
Enchi o peito para a paciência respirar. Coisas estranhas já tenho hábito. Tenho até gosto em tropeçar nessas inocorrências. Mas aquele não era o momento. Há muito que deveríamos ter saído daquele lugar. O nosso trabalho já tinha terminado há uma semana e nós ainda aguardávamos notícias do barco que nos havia de transportar de regresso a Maputo. Não que o lugar não nos desse um minucioso descanso. Inhambane é uma cidade de modos árabes, sem pressa de entrar no tempo. As casas pequenas, obsclaras, suspiram no cansaço desse eterno medir forças entre a cal e a luz. As ruas estreitas são boas de namorar, parece que nelas, por mais que andemos, nunca nos afastamos de casa.
Olho na baía o azul feminino, esse mar que não faz onda nem pede urgências. Mas meu companheiro de viagem já tem pulga e ouvido desencontrados. Quando pergunto sobre a chegada do próximo barco, Suleimane oscila, um pé e outro pé, como fazem os prisioneiros.
Cada vez há-de vir hoje.
O homem falava na imperfeita certeza. Porque naquele mesmo instante, fossem saindo de suas palavras, começaram a excrescer as brisas. Ventaniava. Primeiro, se abanaram as bananeiras. Trejeitosas, as folhas balançaram, obsolentas. Nem ligámos.
Afinal, só um risco de vento é preciso para abanar as frutuosas plantas. Se deveriam chamar, no caso, as abananeiras. Mas depois, outros verdes começaram a sacudir-se em agitada dança. Suleimane se põe mais gago:
Esta ventania não vai autorizar nenhum barco.
Me sento ali, milvagaroso para mostrar que não tenho opinião. Desembrulho os bolinhos que comprei faz pouco às mamanas do mercado. Um miúdo se aproxima. Penso: lá vem mais um pedinchorar. Mas não, a criança se guarda para além da mendigável distância. Já meus dentes se preparam para o sabor quando o miúdo se arregala, subindo o grito na garganta:
Senhor, não come esse bolo!
Estanquei o dente, boca em assombro de não-sei-quê. O menino renova a sentença: eu que não metesse saliva no pastel. Explicar ele não sabia mas a mãe se apresentaria, em repentina chegada, por chamamento da criança. A senhora se encenou em vasto volume, segurando a hábil capulana:
A criança tem razão, me desculpe. Esses bolos foram feitos de coco verde, foram cozinhados com lenho.
Só então entendo: ofenderam a tradição local que põe no sagrado o coco quando ainda verde. Interdito colher, interdito vender. O fruto não maduro, o lenho como é chamado, é para ser deixado na tranquila altura dos coqueiros. Mas agora, com a guerra, tinham vindo os defora, mais crentes em dinheiro que no respeito dos mandamentos.
Muito-muito são esses deslocados que estão vender lenho. Um dia desses até a nós hão-de vender.
Mas o sagrado tem seus métodos, as lendas se sabem defender. Variadas e terríveis maldições pesam sobre quem colhe ou vende o proibido fruto. Os que compram apanham a tabela. A casca sangrando, as vozes chorando, tudo isso são xicuembos, feitiços com que os antepassados castigam os viventes.
Não acredita?
A vasta senhora me interroga. Não tarda que ela desfie suas versões, me aplicando o princípio de que para meio entendedor duas palavras não bastam. Mesmo antes de ela falar, os presentes dão estalidos com a língua em aprovação do que vai ser dito. À boa maneira do campo, todos se confirmam. Exclamações de quem, não dizendo nada, concorda com o que esteve calado. Só então a senhora desembrulha palavra:
Pois lhe digo: minha filha comprou um cesto de lenho lá nos bairros. Trouxe o cesto na cabeça até aqui. Quando ela quis tirar o cesto não conseguiu. A coisa parecia estava pregada, todos fizemos a força e não saiu. Só houve um remédio: a moça voltou ao lugar da venda e devolveu os cocos no vendedor. Ouviu? E já no presente o senhor que me ponha mais ouvido. Nem diga que não ouviu falar no caso da vizinha Jacinta? Não? Lhe acrescento, senhor: a cuja Jacinta se pôs a ralar um coco e foi vendo que nunca mais esgotava a polpa. No lugar de uma panela ela encheu as dezenas delas até que o medo lhe mandou parar. Deitou tudo aquilo no chão e chamou as galinhas para comerem. Então, sucedeu o que nem posso bem contar: as galinhetas se tresconverteram em planta, pena em folha, pata em tronco, bico em flor. Todas, sucessivamente, uma por uma.
Recebi aqueles relatos mais calado que o búzio. Não queria mal-desentendido. O Suleimane, esse, bebia com aflição os populares relatórios, fanático acrediteísta. Até que nos fomos, saídos dali para pensão de nenhuma estrela. Tínhamos a comum intenção de buscar o sono. Afinal, o barco chegaria no dia seguinte. O regresso estava ganho, não havia mais que pensar nos fantasmas dos coqueirais.
Malas e sacos balançando no convés, motores barulhando: eis que, em demorado enfim, voltávamos para Maputo. Meu cotovelo alegre toca no braço de Suleimane. Só então reparo que, oculto entre as roupas, ele leva consigo o maldiçoado coco, o mesmo que começara a partir. Me admiro:
É para quê esse fruto?
É para mandar analisar lá no Hospital.
Antes que eu debitasse lógica, ele contrapôs: aquele sangue sabe-se lá em que veias andara brincando? Sabe-se lá se era matéria adoecida ou, antes, adoesida? E voltou a embrulhar o fruto com carinhos que só a filhos se destinam. E se afastou, embalando em canção de nenecar. Seria esse meninar de Suleimane, quase eu juro, mas me pareceu escutar um lamento vindo do coco, um chorar da terra, em mágoa de ser mulher.
Mia Couto, in Estórias abensonhadas

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