Foi
evento que saiu no jornal da Nação, oficial e autenticado. O
alvoroço dos coqueirais de Inhambane mereceu título e honrosas
colunas. Tudo começou quando, sentado na marginal de Inhambane, meu
amigo Suleimane Ibraímo partiu a casca de um coco. Pois de dentro do
fruto não jorrou a habitual água-doce mas sangue. Exatamesmo:
sangue, certificado e indiscutível sangue. Mas não foi o único
pasmo do assunto. Do fruto brotou ainda humana voz em choros e
lamentos. Suleimane não esteve com meias desmedidas: as mãos
boquiabertas deixaram tombar o coco e o vermelho se espalhou em
mancha. Ficou assim, atarantonto, trapalhaço, sem gota. O susto lhe
fez esvair a alma em maré baixa.
Quando
acorri ao lugar ele ainda estava na mesma posição, cabeça
ajoelhada no peito. Restos do incidente tinham sido removidos, as
mãos lavadas, amnésicas. Só a voz ainda lhe tremia enquanto me
relatava o episódio. Eu desconfiava. A dúvida, sabemos, é a inveja
de não nos suceder a nós as impossíveis surpresas.
— Me
desculpe, Suleimane: um coco que falava, chorava, sangrava?
— Eu
bem sabia: você não ia acreditar.
— Não
é não acreditar, mano. É duvidar.
— Então
pergunte aí, por esse povo afora, pergunte a sucedência desses
cocos.
Enchi
o peito para a paciência respirar. Coisas estranhas já tenho
hábito. Tenho até gosto em tropeçar nessas inocorrências. Mas
aquele não era o momento. Há muito que deveríamos ter saído
daquele lugar. O nosso trabalho já tinha terminado há uma semana e
nós ainda aguardávamos notícias do barco que nos havia de
transportar de regresso a Maputo. Não que o lugar não nos desse um
minucioso descanso. Inhambane é uma cidade de modos árabes, sem
pressa de entrar no tempo. As casas pequenas, obsclaras, suspiram no
cansaço desse eterno medir forças entre a cal e a luz. As ruas
estreitas são boas de namorar, parece que nelas, por mais que
andemos, nunca nos afastamos de casa.
Olho
na baía o azul feminino, esse mar que não faz onda nem pede
urgências. Mas meu companheiro de viagem já tem pulga e ouvido
desencontrados. Quando pergunto sobre a chegada do próximo barco,
Suleimane oscila, um pé e outro pé, como fazem os prisioneiros.
— Cada
vez há-de vir hoje.
O
homem falava na imperfeita certeza. Porque naquele mesmo instante,
fossem saindo de suas palavras, começaram a excrescer as brisas.
Ventaniava. Primeiro, se abanaram as bananeiras. Trejeitosas, as
folhas balançaram, obsolentas. Nem ligámos.
Afinal,
só um risco de vento é preciso para abanar as frutuosas plantas. Se
deveriam chamar, no caso, as abananeiras. Mas depois, outros verdes
começaram a sacudir-se em agitada dança. Suleimane se põe mais
gago:
— Esta
ventania não vai autorizar nenhum barco.
Me
sento ali, milvagaroso para mostrar que não tenho opinião.
Desembrulho os bolinhos que comprei faz pouco às mamanas do mercado.
Um miúdo se aproxima. Penso: lá vem mais um pedinchorar. Mas não,
a criança se guarda para além da mendigável distância. Já meus
dentes se preparam para o sabor quando o miúdo se arregala, subindo
o grito na garganta:
— Senhor,
não come esse bolo!
Estanquei
o dente, boca em assombro de não-sei-quê. O menino renova a
sentença: eu que não metesse saliva no pastel. Explicar ele não
sabia mas a mãe se apresentaria, em repentina chegada, por
chamamento da criança. A senhora se encenou em vasto volume,
segurando a hábil capulana:
— A
criança tem razão, me desculpe. Esses bolos foram feitos de coco
verde, foram cozinhados com lenho.
Só
então entendo: ofenderam a tradição local que põe no sagrado o
coco quando ainda verde. Interdito colher, interdito vender. O fruto
não maduro, o lenho como é chamado, é para ser deixado na
tranquila altura dos coqueiros. Mas agora, com a guerra, tinham vindo
os defora, mais crentes em dinheiro que no respeito dos mandamentos.
— Muito-muito
são esses deslocados que estão vender lenho. Um dia desses até a
nós hão-de vender.
Mas
o sagrado tem seus métodos, as lendas se sabem defender. Variadas e
terríveis maldições pesam sobre quem colhe ou vende o proibido
fruto. Os que compram apanham a tabela. A casca sangrando, as vozes
chorando, tudo isso são xicuembos, feitiços com que os antepassados
castigam os viventes.
— Não
acredita?
A
vasta senhora me interroga. Não tarda que ela desfie suas versões,
me aplicando o princípio de que para meio entendedor duas palavras
não bastam. Mesmo antes de ela falar, os presentes dão estalidos
com a língua em aprovação do que vai ser dito. À boa maneira do
campo, todos se confirmam. Exclamações de quem, não dizendo nada,
concorda com o que esteve calado. Só então a senhora desembrulha
palavra:
— Pois
lhe digo: minha filha comprou um cesto de lenho lá nos bairros.
Trouxe o cesto na cabeça até aqui. Quando ela quis tirar o cesto
não conseguiu. A coisa parecia estava pregada, todos fizemos a força
e não saiu. Só houve um remédio: a moça voltou ao lugar da venda
e devolveu os cocos no vendedor. Ouviu? E já no presente o senhor
que me ponha mais ouvido. Nem diga que não ouviu falar no caso da
vizinha Jacinta? Não? Lhe acrescento, senhor: a cuja Jacinta se pôs
a ralar um coco e foi vendo que nunca mais esgotava a polpa. No lugar
de uma panela ela encheu as dezenas delas até que o medo lhe mandou
parar. Deitou tudo aquilo no chão e chamou as galinhas para comerem.
Então, sucedeu o que nem posso bem contar: as galinhetas se
tresconverteram em planta, pena em folha, pata em tronco, bico em
flor. Todas, sucessivamente, uma por uma.
Recebi
aqueles relatos mais calado que o búzio. Não queria
mal-desentendido. O Suleimane, esse, bebia com aflição os populares
relatórios, fanático acrediteísta. Até que nos fomos, saídos
dali para pensão de nenhuma estrela. Tínhamos a comum intenção de
buscar o sono. Afinal, o barco chegaria no dia seguinte. O regresso
estava ganho, não havia mais que pensar nos fantasmas dos
coqueirais.
Malas
e sacos balançando no convés, motores barulhando: eis que, em
demorado enfim, voltávamos para Maputo. Meu cotovelo alegre toca no
braço de Suleimane. Só então reparo que, oculto entre as roupas,
ele leva consigo o maldiçoado coco, o mesmo que começara a partir.
Me admiro:
— É
para quê esse fruto?
— É
para mandar analisar lá no Hospital.
Antes
que eu debitasse lógica, ele contrapôs: aquele sangue sabe-se lá
em que veias andara brincando? Sabe-se lá se era matéria adoecida
ou, antes, adoesida? E voltou a embrulhar o fruto com carinhos
que só a filhos se destinam. E se afastou, embalando em canção de
nenecar. Seria esse meninar de Suleimane, quase eu juro, mas me
pareceu escutar um lamento vindo do coco, um chorar da terra, em
mágoa de ser mulher.
Mia
Couto, in Estórias abensonhadas
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