Quando
lhe deram o pacote, pedindo para entregar, não achou pesado. Mas
agora, passados dois dias, o braço direito doía. E ele precisava
descansar a cada cem metros.
Colocava
o pacote no chão, fazia exercícios, tentando recuperar os músculos
distendidos. Ao levantar o pacote, achava-o mais pesado que antes.
Continuou
andando e descansando, até o momento em que o pacote pesou
terrivelmente e ele largou-o no chão. De vez. Não ia entregar, a
pessoa que viesse buscar. Que alugasse uma condução.
O
que podia haver dentro? Se puxasse as fitas com cuidado poderia abrir
e fechar, sem que ninguém percebesse. Não havia nenhum carimbo:
confidencial. Ou secreto. Ninguém tinha recomendado: não olhe.
Abriu.
Dentro, envolto em papéis, o paralelepípedo. Desses comuns, que
calçam as ruas. Nada diferente, a não ser que tinha sido bem
lavado.
Não
encontrou nada. Nem parecia oco, nem havia aberturas. Também não
era falsificado, porque não havia sentido falsificar-se um
paralelepípedo. Nem mensagens secretas gravadas nas faces. Nada.
Embrulhou
outra vez. Não devia haver pressa para entregá-lo. Lembrou-se de
obrigações, do trabalho, uma conta de gás a pagar, um encontro,
uma compra a fazer, o inquérito que tinha a responder no tribunal de
segurança.
Descansado,
colocou o embrulho debaixo do braço. Foi com ele por toda a parte,
sentindo o peso, porém mais acostumado. Só tinha medo que ele
caísse, esmagando um dedo, ou o pé. Ou batesse no joelho, rompendo.
Podia
pedir a outro que fosse entregar. Mas era um homem responsável.
Podia deixar o embrulho num canto qualquer. Ou mandá-lo pelo
correio. Imaginava porém que, devido ao peso, podiam querer abrir no
correio.
E
não enviariam como encomenda. Não considerariam legal.
Aconselhariam uma transportadora. Os correios têm normas rígidas.
Além de tudo, com aquele peso, registrado para garantir, custaria
muito dinheiro.
Ele
era um simples escriturário, não ganhava o bastante para poder
estar despachando paralelepípedos pelo correio. Havia a solução de
um carrinho de mão. Emprestaria um, entregaria a encomenda.
Nenhum
dos amigos tinha carrinho de mão. Por que haveriam de ter? O melhor
talvez fosse adiar a entrega para um fim de semana. Ou para as
férias. Aí teria tempo, iria devagar, descansando pelo caminho.
Levou
a pedra para casa, colocou embaixo do armário. Não teve forças
para colocar em cima. A mulher quis saber o que era o pacote. Só
descansou quando abriu: “Você está louco? O que vai fazer?”.
Ela
ficou desconfiada. Brigaram: “Vamos jogar isso fora e se acabou”.
Ele não concordou. Tinha uma responsabilidade. Cumpriria. Não era
difícil assim. O único problema era o peso.
Chamou
um táxi. O motorista pediu o endereço. Ele olhou o pacote. Revirou.
Não havia endereço, nome. Pensou depressa. Desceu, desanimado. E
agora? Refletiu, até encontrar.
Devia
fazer um plano. Dividir a cidade em setores. Os setores em ruas.
Subir por um lado ímpar, descer por outro par. Bater de porta em
porta. Indagar. Alguém devia estar esperando o paralelepípedo. Se
não havia urgência, haveria de receber.
Ignácio
de Loyola Brandão, in Cadeiras proibidas
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