Todo
mundo que começa a namorar não sabe ao certo que namora.
O
início é confuso, entremeado de hesitações e receios e pudores e
reservas e uma fileira de sinônimos sofisticados para medo.
Puro
medo.
O
casal demora a oficializar aquilo que já é público. Não quer
melindrar sua companhia, muito menos oferecer motivos para receber um
fora adiantado.
Eles
se preservam do convívio para não caírem em tentação, recusam
bares e festas para conservar o segredo. Estão loucos para contar
aos amigos, mas temem que a fofoca estrague a notícia. Há a crença
de que alegria espalhada se transforma em inveja.
Eu
não sofro mais desse mal. Detectei a encruzilhada, o exato momento
em que o namoro vira à esquerda e não tem mais volta.
É
quando um dos dois telefona para não conversar. Para não dizer
nada, coisa com coisa.
Suportar
o laconismo amoroso é uma das torturas mais angustiantes da
existência.
Acompanhe
meu raciocínio.
No
meio do serviço, ela liga. Por ansiedade, você atende ao primeiro
toque. Espera que ela fale oi. Mas não. Ela espaça a voz como se
fosse uma amante, uma sequestradora, alguém que não protegeu as
teclas e acessou seu número por engano. Dá para escovar os dentes
até surgir um tremido par de vogais.
Ela
não lhe procurou em função de alguma novidade, para dar um recado,
testar a temperatura ou planejar um encontro. Suspenda a
objetividade, o mundo físico, a matemática, as operações de
trigonometria.
Sua
futura namorada ligou para suspirar. Compreenda que ela ligou para
que você testemunhe o que ela está sentindo, como uma criança que
coloca o fone em direção ao mar e jura que os pais alcançam o
barulho das ondas.
Ahhhhh
é o som fundador de um papo que não vai acontecer. O telefonema
corresponde à sonoplastia da saudade. Prepare-se para variações de
um mesmo tema.
— Como
você está?
— Meio
estranho…
— Eu
também…
— Mas
é um estranho bom.
— Um
estranho feliz.
Um
repete o outro, num misto de fragilidade e receio. É um diálogo que
medita sobre o vazio. Durante trechos inteiros, nenhum fala. Uma
conversa exemplar e inédita em que os dois somente escutam. Uma
troca de respiros, jogo de vento, intercâmbio de palpitações.
Assim
como ela discou sem motivo, o pior vem agora, não há como desligar
sem ofender. Depois de quinze minutos de ausência absoluta de som,
chega a hora de seguir a vida.
— Você
desliga, eu não consigo.
— Não,
você desliga, eu não consigo.
— Não,
você!
— Você!
— Você!
O
amor é uma grande coragem cheia de pequenas covardias.
Fabrício
Carpinejar, in Ai meu Deus, ai meu Jesus
Nenhum comentário:
Postar um comentário