Atualmente,
apenas uma fração minúscula dessas novas oportunidades se
concretizou. Mas o mundo de 2015 já é um mundo em que a cultura
está se libertando das algemas da biologia. Nossa capacidade de
manipular não só o mundo à nossa volta, mas acima de tudo o mundo
dentro de nossos corpos e mentes está se desenvolvendo a toda
velocidade. Cada vez mais esferas de atividade estão sendo abaladas.
Os advogados precisam repensar questões de privacidade e identidade;
os governos precisam repensar questões de saúde e igualdade; as
associações esportivas e as instituições educativas precisam
redefinir fair play e conquistas; os fundos de pensão e os
mercados de trabalho devem se reajustar a um mundo em que os
sexagenários talvez sejam os novos balzaquianos. Todos eles devem
lidar com os enigmas da bioengenharia, dos cyborgs e da vida
inorgânica.
Para
mapear o primeiro genoma humano, foram necessários 15 anos e 3
bilhões de dólares. Hoje, podemos mapear o DNA de uma pessoa em
poucas semanas e ao custo de algumas centenas de dólares. A era da
medicina personalizada – que associa tratamentos com DNA –
começou. O médico da família logo poderá dizer, com certeza muito
maior, que você tem um alto risco de vir a ter câncer de fígado,
mas que não precisa se preocupar muito com ataques do coração. Ele
pode determinar que um medicamento popular que ajuda 92% das pessoas
é inútil para você e que em vez disso você deve tomar outro
comprimido, fatal para muitas pessoas, mas exato para você. O
caminho para a medicina quase perfeita está diante de nós.
No
entanto, com avanços no conhecimento médico virão novos impasses
éticos. Os especialistas em assuntos éticos e jurídicos já estão
se debatendo com a questão espinhosa da privacidade no que concerne
ao DNA. As empresas de seguro-saúde terão o direito de solicitar um
mapeamento do nosso DNA e aumentar os preços se descobrirem uma
tendência genética a comportamentos imprudentes? Seríamos
solicitados a enviar nosso DNA, em vez de nosso CV, a empregadores em
potencial? Um empregador poderia dar preferência a um candidato
porque seu DNA parece melhor? Ou, em tais casos, poderíamos
processá-los por “discriminação genética”? Uma empresa que
desenvolve uma nova criatura ou um novo órgão poderia patentear sua
sequência de DNA? É claro que uma pessoa pode ser dona de uma
determinada galinha, mas poderá ser dona de uma espécie inteira?
Tais
dilemas são obscurecidos pelas implicações éticas, sociais e
políticas do Projeto Gilgamesh e de nossas novas habilidades em
potencial para criar super-humanos. A Declaração Universal dos
Direitos Humanos, programas médicos de governos do mundo inteiro,
programas nacionais de seguro-saúde e constituições nacionais em
todo o mundo reconhecem que uma sociedade humana deve dar a todos os
seus membros tratamento médico adequado e mantê-los em bom estado
de saúde. Estava tudo bem com isso enquanto a medicina esteve
preocupada principalmente em prevenir doenças e curar os doentes. O
que pode acontecer quando a medicina passar a se preocupar em
melhorar as habilidades humanas? Todos os humanos teriam direito a
tais habilidades melhoradas ou haveria uma nova elite super-humana?
Nosso
mundo moderno se orgulha de reconhecer, pela primeira vez na
história, a igualdade elementar entre todos os humanos, porém pode
estar prestes a criar a sociedade mais desigual de todas. Ao longo da
história, as classes superiores sempre afirmaram ser mais
inteligentes, mais fortes e, em geral, melhores do que as classes
inferiores. Normalmente, elas estavam se iludindo. Um bebê nascido
em uma família camponesa pobre tendia a ser tão inteligente quanto
o príncipe-herdeiro. Com a ajuda de novas capacidades médicas, as
pretensões das classes superiores podem logo se tornar uma realidade
objetiva.
Isso
não é ficção científica. A maioria das tramas de ficção
científica descreve um mundo em que sapiens – idênticos a nós –
desfrutam de tecnologia superior, como espaçonaves que viajam à
velocidade da luz e armas a laser. Os dilemas centrais dessas tramas
são tirados do nosso próprio mundo e meramente recriam nossas
tensões emocionais e sociais em um cenário futurista. Mas o
verdadeiro potencial das tecnologias futuras é transformar o próprio
Homo sapiens, incluindo nossas emoções e desejos, e não
apenas nossos veículos e armas. O que é uma espaçonave se
comparada com um cyborg eternamente jovem que não procria e
não tem sexualidade, que pode partilhar pensamentos diretamente com
outros seres, cuja capacidade de memória e concentração é mil
vezes maior que a nossa, e que nunca fica triste nem com raiva, mas
tem emoções e desejos que nem sequer podemos imaginar?
A
ficção científica raramente descreve tal futuro, porque uma
descrição precisa é, por definição, incompreensível. Produzir
um filme sobre a vida de um super-cyborg é como produzir
Hamlet para uma audiência de neandertais. Com efeito, os
futuros senhores do mundo provavelmente serão mais diferentes de nós
do que somos dos neandertais. Enquanto nós e os neandertais somos
humanos, nossos herdeiros serão como deuses.
Os
físicos definem o Big Bang como uma singularidade. É um ponto em
que todas as leis conhecidas da natureza não existiam. O tempo
também não existia. Portanto, não faz sentido dizer que alguma
coisa existiu “antes” do Big Bang. Talvez estejamos nos
aproximando de uma nova singularidade, em que todos os conceitos que
dão significado ao nosso mundo – eu, você, homens, mulheres, amor
e ódio – se tornarão irrelevantes. Qualquer coisa acontecendo
além desse ponto não tem sentido para nós.
Yuval
Noah Harari, in Sapiens – Uma breve história da humanidade
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