08/06/2026

O Homem que Calculava | Capítulo 24



Impressão desagradável causou em meu espírito a ameaçadora presença de Tara-Tir. O rancoroso xeque, que estivera durante longo período ausente de Bagdá, tinha sido visto, ao cair da noite, em companhia de três sicários, rondando a rua em que morávamos.
Alguma cilada ele preparava, na certa, contra o incauto Beremiz.
Preocupado com seus estudos e problemas, não percebia o calculista o perigo que o acompanhava como uma sombra negra.
Falei-lhe da presença sinistra de Tara-Tir, e recordei-lhe os avisos cautelosos do xeque Iezid.
Todos os receios são infundados — respondeu-me Beremiz, sem ponderar detidamente o meu aviso. — Não posso crer nessas ameaças. O que me interessa no momento é a solução completa de um problema que constitui o epitáfio do célebre geômetra grego Diofante:
Eis o túmulo que encerra Diofante — maravilha de contemplar! Com artifício aritmético a pedra ensina a sua idade.
Deus concedeu-lhe passar a sexta parte de sua vida na juventude; um duodécimo, na adolescência; um sétimo, em seguida, foi escoado num casamento estéril. Decorreram mais cinco anos, depois do que lhe nasceu um filho. Mas este filho — desgraçado e, no entanto, bem-amado! — apenas tinha atingido a metade da idade do pai, morreu. Quatro anos ainda, mitigando a própria dor com o estudo da ciência dos números, passou-os Diofante, antes de chegar ao termo de sua existência.”(1)
É possível que Diofante, preocupado em resolver os problemas indeterminados da Aritmética, não tivesse cogitado de obter a solução perfeita para o problema do rei Hierão, que não aparece indicado em sua obra.
Que problema é este? — perguntei.
Beremiz contou-me o seguinte:
Hierão, rei de Siracusa, mandou ao seu ourives certa porção de ouro para a confecção de uma coroa que ele desejava oferecer a Júpiter. Quando o rei recebeu a obra acabada, verificou que ela tinha o peso do metal precioso fornecido, mas a cor do ouro inspirou-lhe a desconfiança de que o ourives tivesse ligado prata ao ouro. Para pôr a limpo a dúvida, consultou Arquimedes, o grande geômetra.
Arquimedes, tendo verificado que o ouro perde, na água, 52 milésimos do seu peso, e a prata 99 milésimos, procurou saber o peso da coroa mergulhada na água e achou que a perda de peso era em parte devida a certa porção de prata adicionada ao ouro.
Conta-se que Arquimedes pensou muito tempo, sem poder resolver o problema proposto pelo rei Hierão. Um dia, estando no banho, descobriu o modo de solucioná-lo, e, entusiasmado, saiu dali a correr para o palácio do monarca, gritando pelas ruas de Siracusa: Eureca! Eureca! — o que quer dizer: Achei! Achei!
No momento em que assim conversávamos, veio visitar-nos o capitão Hassã Muarique, chefe da guarda do sultão. Era um homem corpulento, muito expedito e serviçal. Ouvira narrar o caso dos trinta e cinco camelos e não parava, por isso, de exaltar o talento e a habilidade do Homem que Calculava. Todas as sextas-feiras, depois de passar pela mesquita, ia visitar-nos.
Nunca imaginei — declarou, depois de exprimir a sua profunda admiração — que a Matemática fosse tão prodigiosa. A solução do problema dos camelos deixou-me encantado.
Ao perceber o entusiasmo do turco, levei-o até a varanda da sala que dava para a rua, enquanto Beremiz procurava nova solução para o problema de Diofante, e lhe falei do perigo que corríamos sob a ameaça do odioso Tara-Tir.
Lá está ele — apontei — junto à fonte. Os homens que o acompanham são assassinos perigosos. Ao menor descuido seremos apunhalados por esses bandidos.
Pela honra de Amine!2 Que me diz?! — exclamou Hassã. — Eu não podia imaginar que tal ocorresse. Como pode um bandido perturbar a vida de um sábio geômetra? Pela glória do Profeta! Vou já resolver esse caso.
Voltei ao quarto, deitei-me e pus-me a fumar, tranquilo.
Uma hora depois recebi o seguinte recado de Hassã:
Tudo resolvido. Os três assassinos foram executados sumariamente. Tara-Tir apanhou 8 bastonadas, pagou multa de 27 cequins de ouro e foi intimado a deixar a cidade. Mandei-o, com uma escolta, para Damasco.”
Mostrei a carta do capitão turco a Beremiz. Graças à minha eficiente intervenção poderíamos, agora, viver tranquilos em Bagdá.
É interessante — sentenciou Beremiz. — É realmente curioso! Essas linhas escritas pelo nosso bom amigo Hassã fazem recordar uma curiosidade numérica relativa aos números 8 e 27.
E como eu demonstrasse surpresa ao ouvir aquela observação, ele concluiu:
Excluída a unidade, 8 e 27 são os únicos números de cubos iguais, também, à soma dos algarismos de seus cubos. Assim:

83 = 512
273 = 19.683

A soma dos algarismos de 512 é 8.
A soma dos algarismos de 19.683 é 27.3
É incrível, meu amigo! — exclamei. — Preocupado com os cubos e quadrados, esqueceste que estavas ameaçado pelo punhal de um perigoso assassino!
A Matemática, ó Bagdali — respondeu tranquilo —, prende-nos tanto a atenção que, às vezes, alheamo-nos de todos os perigos que nos rodeiam. Lembra-se de como morreu Arquimedes, o grande geômetra?
E, sem aguardar resposta, contou-me o seguinte e curioso episódio da História da Geometria:
Quando a cidade de Siracusa foi tomada de assalto pelas forças de Marcelo, general romano, achava-se o geômetra Arquimedes absorto no estudo de um problema, para cuja solução havia traçado uma figura geométrica na areia. Ali se achava o geômetra, inteiramente esquecido das lutas, das guerras e da morte. Só a pesquisa da verdade é que lhe interessava. Um legionário romano encontrou-o e intimou-o a comparecer à presença de Marcelo. O sábio pediu-lhe esperasse algum tempo, para que pudesse concluir a demonstração que estava fazendo. O soldado insistiu e puxou-o pelo braço: “Veja onde pisa” — disse-lhe o geômetra. “Não me apague a figura!” Irritado por não ser imediatamente obedecido, o sanguinário romano, com um golpe de espada, prostrou sem vida o maior sábio do tempo. Marcelo, que havia dado ordens no sentido de ser poupada a vida de Arquimedes, não ocultou o pesar que sentiu ao saber da morte do genial adversário. Sobre a laje do túmulo que erigiu, mandou gravar uma esfera inscrita num cilindro, figura que lembrava um dos teoremas do célebre geômetra.
E Beremiz concluiu, acercando-se de mim e pousando a mão sobre o meu ombro:
Não achas, ó Bagdali, que seria justo incluir o sábio siracusano entre os mártires da Geometria?
Que poderia eu responder?
O fim trágico de Arquimedes trouxe-me novamente à lembrança a figura indesejável e rancorosa de Tara-Tir, o pérfido invejoso.
Estaríamos, realmente, livres daquele sanguinário vendedor de sal? Não poderia ele voltar, mais tarde, da velha Damasco?
Junto à janela, os braços cruzados sobre o peito, Beremiz, com certo ar de tristeza, observava, descuidado, os homens que passavam apressados em direção ao mercado.
Achei interessante interferir em seus devaneios e arrancá-lo daquela nostalgia, e perguntei-lhe:
Que é isso? Está triste? Sente saudades de sua terra ou está planejando novos cálculos?
E insisti, em tom de gracejo:
Cálculos ou saudade?
Ora, Bagdali — respondeu-me Beremiz, com seu imperturbável bom humor. — A saudade e o cálculo andam sempre entrelaçados. Já disse um dos nossos mais inspirados poetas:

A Saudade é calculada
Por algarismos, também:
Distância multiplicada
Pelo fator querer-bem.(4)

Não acredito, porém, que a saudade, depois de reduzida a uma fórmula, seja calculável com algarismos. Por Alá! Quando eu era menino ouvi, muitas vezes, minha mãe, encerrada no harém de nossa casa, cantarolar:

Saudade, velha canção
Saudade, sombra de alguém,
Que os tempos só levarão
Se me levarem também!(5)

Notas:
(1) Em linguagem algébrica esse problema pode ser traduzido por uma equação do 1.º grau com uma incógnita.
(2) Mãe do profeta Maomé.
(3) Os números 17, 18 e 26 apresentam propriedades idênticas em relação aos algarismos de seus cubos, mas não são cubos.
(4) Trova de Manuel Bastos Tigre (1882-1957), poeta pernambucano de alta inspiração.
(5) Trova de Fernandes Soares, poeta paulista. Uma das figuras de maior destaque na poesia moderna do Brasil.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

Nenhum comentário:

Postar um comentário