[…]
Depois que saí do lugar onde estavam
as múmias, tive que ir ao banheiro. Para dizer a verdade, estava com
um pouco de diarreia. Não liguei muito para esse negócio da
diarreia, mas aconteceu outra coisa. Quando tinha acabado de me
levantar da privada, quase chegando na porta, acho que desmaiei. Mas
até que tive sorte. Podia ter morrido quando caí no chão, mas
aterrissei meio de lado. O mais engraçado é que me senti melhor
depois do desmaio. Verdade mesmo. Meu braço ficou um pouco doído,
onde bati com ele no chão, mas parei de sentir aquela droga daquela
tonteira.
A essa altura, já era mais ou menos
meio-dia e dez, e por isso voltei para junto da porta, para esperar
pela Phoebe. Pensei que aquela podia ser a última vez que eu ia
vê-la. Ela ou qualquer dos meus parentes. Imaginei que provavelmente
os veria outra vez, mas muitos anos depois. Poderia voltar para casa
quando tivesse uns trinta e cinco anos – pensei – caso alguém
ficasse doente e quisesse me ver antes de morrer, mas só assim eu
deixaria a cabana e voltaria. Sabia que minha mãe ia ficar nervosa
pra chuchu e ia começar a chorar e a me pedir que ficasse em casa,
que não voltasse para minha cabana, mas eu iria embora de qualquer
maneira. Ia bancar o superior. Ia acalmar minha mãe e aí
atravessava a sala, tirava a cigarreira do bolso e acendia um cigarro
– tudo isso com a maior calma. Diria a eles que me visitassem algum
dia, se tivessem vontade, mas não ia insistir nem nada. Uma coisa eu
ia fazer: ia deixar que a Phoebe fosse me visitar no verão e nas
férias da Páscoa e do Natal. E deixaria o D.B. passar algum tempo
comigo, se ele quisesse um lugar simpático e quieto para escrever.
Só que não ia poder escrever nenhum filme na minha cabana só
contos e romances. Ia estabelecer essa regra, que ninguém podia
fazer nada de falso quando me visitasse. Se alguém tentasse fazer
qualquer coisa falsa, ia ter que ir embora.
De repente, olhei para o relógio no
vestíbulo e vi que já era vinte e cinco para uma. Comecei a ficar
com medo de que talvez a velhinha na escola tivesse dito à outra
mulher para não entregar meu recado à Phoebe. Fiquei assustado,
achando que talvez ela tivesse mandado queimar o bilhete ou coisa que
o valha. Me deu mesmo um medão danado. Queria muito ver a Phoebe
antes de me largar pelo mundo. Além disso, estava com o dinheiro de
Natal dela e tudo.
Finalmente a vi, através da porta de
vidro. Logo vi que era ela porque estava usando meu chapéu de caça
maluco – dava pra se enxergar aquele chapéu a quinze quilômetros
de distância.
Saí e comecei a descer a escadaria de
pedra para encontrar-me com ela. Só não conseguia entender aquela
mala enorme que ela vinha trazendo. Estava atravessando a Quinta
Avenida e arrastando aquela baita mala. Ela quase não aguentava com
o peso. Quando cheguei mais perto, vi que era a minha mala velha, a
que eu usava no tempo do Colégio Whooton. Não conseguia imaginar
que diabo ela estava fazendo com a mala.
– Oi – ela disse, quando veio
chegando. Já nem tinha mais fôlego, por causa daquela mala doida.
– Pensei que você não vinha mais –
falei. – Que é que você pôs aí nessa mala? Não preciso de
nada. Vou assim mesmo como estou. Não vou levar nem as minhas malas
que estão na estação. Afinal de contas, quê que você enfiou aí?
Ela pôs a mala no chão.
– Minhas roupas – respondeu. –
Vou com você. Posso? Tá bem?
– O quê? – perguntei. Quase caí
duro quando ela disse aquilo. Juro por Deus. Me senti meio tonto e
pensei que ia desmaiar outra vez ou coisa parecida.
– Desci com a mala pelo elevador dos
fundos para a Charlene não me ver. Não é pesada, não. Só tem
dois vestidos, meus mocassins, minha roupa de baixo, meias e mais
umas coisinhas. Experimenta só. Não é pesada, não. Experimenta
uma vez só pra ver... Posso ir com você, Holden? Posso? Por favor.
– Não. Cala a boca.
Pensei que ia desmaiar. Eu não queria
que ela calasse a boca e tudo, não era bem isso, mas pensei mesmo
que ia desmaiar novamente.
– Por quê que eu não posso ir?
Deixa, Holden. Não vou fazer nada... Só vou com você, só isso! Se
você quiser nem levo minhas roupas. Só levo minha...
– Você não vai levar nada. Porque
nem você vai. Vou sozinho. Por isso, trata de calar a boca.
– Deixa, Holden. Deixa eu ir. Vou
ser muito, muito... Você nem vai...
– Não vou deixar nada. Agora, cala
a boca. Me dá essa mala.
Tirei a mala da mão dela. Estava
quase batendo nela. Cheguei até a pensar por um instante que ia
dar-lhe um tapa. No duro. Ela começou a chorar.
– Pensei que você ia representar no
teatro da escola e tudo. Pensei que você ia ser o Benedict Arnold
naquela peça – falei, com uma voz um bocado dura. – Que é que
você quer fazer? Sair da peça, é?
Isso fez ela chorar mais ainda. Fiquei
satisfeito. De repente eu quis que ela chorasse até arrebentar.
Quase tive ódio dela. Acho que tive mais raiva principalmente porque
ela não representaria mais na peça se fosse embora comigo.
– Vamos – eu disse. Comecei a
subir outra vez as escadas do museu. Resolvi o que ia fazer: deixava
aquela mala doida na portaria do museu e aí ela podia apanha-la às
três horas, quando saísse da escola. Sabia que ela não podia mesmo
levar a mala para a escola.
– Vamos, agora vamos – repeti.
Mas ela não subiu comigo. Não houve
jeito de faze-la ir comigo. Subi assim mesmo, deixei a mala na
portaria e saí outra vez. Ela ainda estava lá, na calçada, mas
virou as costas para mim quando me aproximei. Isso ela sabe fazer
muito bem. Quando lhe dá na veneta, ela vira as costas pra gente sem
a menor cerimônia.
– Não vou mais embora pra lugar
nenhum. Mudei de ideia. Agora para de chorar e cala a boca – falei.
O engraçado é que, quando eu disse isso, ela nem estava chorando
mais. Mas falei de qualquer maneira. – Agora vamos embora. Vou com
você até a escola. Vambora, senão você vai chegar atrasada.
Nem assim me respondeu. Tentei segurar
a mão dela, mas também não me deixou. Continuou me dando as
costas.
– Você almoçou? Já almoçou,
Phoebe?
Neca de resposta. O que ela fez foi
tirar da cabeça meu chapéu de caça vermelho – que eu tinha dado
a ela de presente – e praticamente me jogou o chapéu na cara. Aí
virou de costas outra vez. Me deu uma vontade danada de rir, mas eu
não disse nada. Só apanhei o chapéu do chão e enfiei no bolso do
meu casaco.
– Vamos, êi! Vou andando com você
até a escola.
– Não vou pra escola!
Fiquei sem saber o que dizer depois
que ela falou isso. Fiquei ali em pé uns dois minutos, sem fazer
nada.
– Você tem que voltar pra escola.
Você quer trabalhar naquela peça, não quer? Você quer ser o
Benedict Arnold, não quer?
– Não.
– É claro que você quer. É lógico
que quer. Agora vamos, vambora – repeti. – Em primeiro lugar, já
te disse que não vou mais embora. Vou voltar pra casa. Logo que você
for para a escola eu vou voltar pra casa. Primeiro vou até a estação
apanhar minhas malas, e aí vou direto...
– Já te disse que não vou voltar
pra escola. Você pode fazer o que quiser, mas eu não vou voltar pra
escola. Por isso, cala a boca.
Era a primeira vez que ela me mandava
calar a boca. Era horrível ouvir isso dito por ela. Puxa, era
horrível mesmo. Pior do que se ela tivesse dito um nome feio.
Continuava a nem me olhar e, cada vez que eu tentava pôr a mão no
ombro dela, não me deixava.
– Escuta, quer dar um passeio
comigo? – perguntei. – Quer passear comigo no Jardim Zoológico?
Se eu deixar você faltar à escola hoje de tarde e nós dermos um
passeio, você para com essa maluquice?
Não me respondeu, por isso repeti: –
Se eu deixar você matar aula hoje de tarde e dar uma voltinha, você
para com essa maluquice? Você vai amanhã à escola, como uma
menininha bem comportada?
– Talvez sim e talvez não –
respondeu. E aí saiu correndo e atravessou a rua como uma doida, sem
ao menos olhar se vinha algum carro. Às vezes ela é maluquinha.
Mas não fui atrás dela. Sabia que
ela iria atrás de mim, por isso comecei a andar na direção do
centro da cidade, a caminho do Jardim Zoológico; eu ia pela calçada
do lado do parque e ela começou a andar na mesma direção, só que
pelo outro lado da rua. Não olhava para mim nem nada, mas eu sabia
que ela provavelmente estava me espiando com o rabo do olho, para ver
onde eu ia e tudo. De qualquer maneira, fomos assim o caminho todo,
até o Jardim Zoológico. A única coisa que me chateou foi quando
passou um ônibus de dois andares e eu não pude ver o outro lado da
rua, para saber que diabo ela estava fazendo. Mas, quando chegamos ao
Jardim Zoológico, gritei para ela:
– Phoebe! Vou entrar agora! Vem!
Nem assim olhou para mim, mas eu sabia
que ela tinha me ouvido. Quando comecei a descer as escadas para o
Jardim Zoológico, virei para trás e vi que ela estava atravessando
a rua, me seguindo e tudo.
Não havia muita gente no Jardim
Zoológico, porque o tempo estava mesmo uma droga, mas havia algumas
pessoas em volta da piscina dos leões-marinhos e tudo. Eu ia seguir
direto, mas a danada da Phoebe parou e fingiu que estava vendo os
leões-marinhos serem alimentados – tinha um sujeito jogando uns
peixes para eles – por isso voltei. Imaginei que era uma boa
oportunidade para chegar perto dela e tudo. Fui até lá, parei atrás
dela e experimentei pôr-lhe as mãos no ombro, mas ela dobrou os
joelhos e escapuliu. Ela sabe ser malcriada quando quer. Continuou
ali em pé, enquanto os leões-marinhos comiam, e eu postado bem
atrás. Não tentei botar a mão outra vez no ombro dela nem nada,
porque, se tivesse tentado, ela teria certamente me dado outro fora.
As crianças são gozadas. A gente tem que se cuidar com elas.
Quando saímos da piscina dos
leões-marinhos, ela não veio andando a meu lado, mas já não
estávamos tão longe um do outro. Ela ia numa beirada do passeio e
eu na outra. Não era lá grande coisa, mas era melhor do que antes,
quando ela ficava a um quilômetro de distância. Seguimos em frente
e passamos algum tempo olhando os ursos, no alto daquela colinazinha,
mas não havia muita coisa para se ver. Só um dos ursos estava do
lado de fora, o polar. O outro, o marrom, estava metido na droga da
cova e não saía de jeito nenhum. Só dava para ver o traseiro dele.
Ao meu lado tinha um garotinho, com um chapéu de cowboy que
praticamente lhe cobria as orelhas, que ficava dizendo para o pai
dele: "Faz ele sair, pai. Chama ele, pai!" Olhei para a
Phoebe, mas ela não estava achando graça. Sabe como é criança
quando está zangada com a gente, não acha graça em nada.
Depois de ver os ursos, saímos do
Jardim Zoológico, atravessamos aquela ruazinha no parque e passamos
por baixo de um daqueles túneis pequenos que estão sempre cheirando
a mijo. Era no caminho do carrossel. A danada da Phoebe ainda não
conversava comigo nem nada, mas já estava andando meio ao meu lado
agora. Agarrei o cinto nas costas do casaco dela só de brincadeira,
mas não deixou.
– Se não é muito incômodo, guarda
tua mão pra você mesmo – ela disse.
Ainda estava zangada comigo, mas não
tão zangada quanto antes. Seja como for, estávamos chegando cada
vez mais perto do carrossel e já dava para se ouvir aquela
musiquinha maluca que toca sempre. Estava tocando Ó, Maria! Era
a mesma música que tocava há uns cinquenta anos, quando eu era
pequeno. Isso é um troço bom nos carrosséis, eles tocam sempre as
mesmas músicas.
– Pensei que o carrossel ficava
fechado no inverno – ela disse. Era praticamente a primeira vez que
ela me falava alguma coisa. Provavelmente esqueceu que estava de mal
comigo.
– Vai ver que é por causa do Natal
– falei.
Ela não falou mais nada quando eu
disse isso. Provavelmente lembrou que estava de mal comigo.
– Você quer dar uma volta no
carrossel? – perguntei. Sabia que ela devia querer. Quando
pequenininha – e o Allie, o D. B. e eu costumávamos levá-la ao
parque – ela era tarada pelo carrossel. Não havia jeito de
arrancá-la de lá.
– Já sou muito crescida – ela
falou. Pensei que não ia me responder, mas respondeu.
– Que crescida, que nada. Vai que eu
te espero, vai.
Tínhamos chegado lá. Havia uns
garotinhos andando nele, na maioria muito pequenininhos, e uns pais
esperando do lado de fora, sentados nos bancos e tudo. Fui até o
guichê onde vendem as entradas e comprei uma para a Phoebe. Aí
entreguei-a a ela. Ela estava bem ao meu lado.
– Toma. Espera um instante, toma
também o resto do teu dinheiro.
Comecei a entregar o resto do dinheiro
que ela me havia emprestado.
– Guarda. Guarda pra mim – ela
disse e, logo em seguida: – Por favor.
Isso é deprimente, quando alguém diz
“por favor” à gente. Alguém assim feito a Phoebe. Isso me
deprimiu pra burro. Mas botei o dinheiro de volta no bolso.
– Você também não vai dar uma
volta? – ela perguntou. Estava me olhando com um jeito meio
engraçado. Via-se logo que não estava mais muito zangada comigo.
– Talvez eu ande na próxima volta.
Agora vou ficar te olhando. Apanhou tua entrada?
– Apanhei.
– Então vai. Vou ficar naquele
banco ali, te olhando.
Caminhei para o banco e me sentei,
enquanto ela subia no carrossel. Deu a volta toda na plataforma e
acabou sentando num enorme cavalo castanho, velho e surrado pra
chuchu. Aí o carrossel começou a rodar e eu a fiquei vendo passar e
passar. Só havia mais uns cinco ou seis garotinhos, e a música que
o carrossel estava tocando era Smoke Gets in Your Eyes. Num
ritmo bem ligeiro e engraçado. Todos os garotos ficavam tentando
agarrar a argola dourada, e a Phoebe também, e eu cheguei a ficar
com medo de que ela acabasse caindo da droga do cavalo. Mas não
disse e nem fiz nada. O negócio com as crianças é que, se elas
querem agarrar a argola dourada, o melhor é deixar elas fazerem o
troço e não dizer nada. Se caírem, caíram, mas o errado é dizer
alguma coisa para elas.
Quando acabou a volta, ela desceu do
cavalo e veio até onde eu estava.
– Dessa vez você vai também –
ela disse.
– Não, vou só ficar te olhando.
Acho que só vou ficar olhando – respondi. Dei a ela mais alguma
grana e falei: – Toma. Compra mais umas entradas.
Ela apanhou o dinheiro e disse: –
Não tou mais de mal com você.
– Eu sei. Corre que o negócio vai
começar outra vez.
Então, de repente, ela me deu um
beijo. Aí, estendeu a mão e falou: – Tá chovendo. Está
começando a chover.
– Eu sei.
Aí ela fez um troço que me deixou
maluco: enfiou a mão no bolso do meu casaco, tirou o chapéu de caça
vermelho e botou na minha cabeça.
– Você não quer mais ele? –
perguntei.
– Pode usar ele um pouco.
– Tá bom. Mas corre agora. Você
assim vai perder essa volta. Não vai mais pegar teu cavalo nem nada.
Mas ela continuou ali.
– É verdade aquilo que você disse?
Que não vai mais embora? Vai mesmo pra casa depois?
– Vou, respondi. E era verdade
mesmo. Não estava mentindo. Fui mesmo para casa depois.
– Agora, corre. O negócio já
tá começando.
Ela correu, comprou a entrada e pulou
na droga do carrossel bem na horinha. Aí deu a volta toda, até
encontrar o cavalo dela, e montou. Acenou para mim e eu acenei de
volta.
Puxa, aí começou a chover pra burro.
Um dilúvio, juro por Deus. Todos os pais e mães, todo mundo
correu pra debaixo do teto do carrossel, para não se molhar até os
ossos, mas eu ainda fiquei ali no banco mais algum tempo. Me molhei
pra diabo, principalmente no pescoço e nas calças. Até que meu
chapéu de caça me protegeu mesmo um bocado, mas acabei ensopado de
qualquer maneira. Mas nem liguei. Me senti tão feliz de repente,
vendo a Phoebe passar e passar. Pra dizer a verdade, eu estava a
ponto de chorar de tão feliz que me sentia. Sei lá por quê. É que
ela estava tão bonita, do jeito que passava rodando e
rodando, de casaco azul e tudo. Puxa, só a gente estando lá para
ver.
J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

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