17/06/2026

O Apanhador no Campo de Centeio – 25




[…]

Depois que saí do lugar onde estavam as múmias, tive que ir ao banheiro. Para dizer a verdade, estava com um pouco de diarreia. Não liguei muito para esse negócio da diarreia, mas aconteceu outra coisa. Quando tinha acabado de me levantar da privada, quase chegando na porta, acho que desmaiei. Mas até que tive sorte. Podia ter morrido quando caí no chão, mas aterrissei meio de lado. O mais engraçado é que me senti melhor depois do desmaio. Verdade mesmo. Meu braço ficou um pouco doído, onde bati com ele no chão, mas parei de sentir aquela droga daquela tonteira.
A essa altura, já era mais ou menos meio-dia e dez, e por isso voltei para junto da porta, para esperar pela Phoebe. Pensei que aquela podia ser a última vez que eu ia vê-la. Ela ou qualquer dos meus parentes. Imaginei que provavelmente os veria outra vez, mas muitos anos depois. Poderia voltar para casa quando tivesse uns trinta e cinco anos – pensei – caso alguém ficasse doente e quisesse me ver antes de morrer, mas só assim eu deixaria a cabana e voltaria. Sabia que minha mãe ia ficar nervosa pra chuchu e ia começar a chorar e a me pedir que ficasse em casa, que não voltasse para minha cabana, mas eu iria embora de qualquer maneira. Ia bancar o superior. Ia acalmar minha mãe e aí atravessava a sala, tirava a cigarreira do bolso e acendia um cigarro – tudo isso com a maior calma. Diria a eles que me visitassem algum dia, se tivessem vontade, mas não ia insistir nem nada. Uma coisa eu ia fazer: ia deixar que a Phoebe fosse me visitar no verão e nas férias da Páscoa e do Natal. E deixaria o D.B. passar algum tempo comigo, se ele quisesse um lugar simpático e quieto para escrever. Só que não ia poder escrever nenhum filme na minha cabana só contos e romances. Ia estabelecer essa regra, que ninguém podia fazer nada de falso quando me visitasse. Se alguém tentasse fazer qualquer coisa falsa, ia ter que ir embora.
De repente, olhei para o relógio no vestíbulo e vi que já era vinte e cinco para uma. Comecei a ficar com medo de que talvez a velhinha na escola tivesse dito à outra mulher para não entregar meu recado à Phoebe. Fiquei assustado, achando que talvez ela tivesse mandado queimar o bilhete ou coisa que o valha. Me deu mesmo um medão danado. Queria muito ver a Phoebe antes de me largar pelo mundo. Além disso, estava com o dinheiro de Natal dela e tudo.
Finalmente a vi, através da porta de vidro. Logo vi que era ela porque estava usando meu chapéu de caça maluco – dava pra se enxergar aquele chapéu a quinze quilômetros de distância.
Saí e comecei a descer a escadaria de pedra para encontrar-me com ela. Só não conseguia entender aquela mala enorme que ela vinha trazendo. Estava atravessando a Quinta Avenida e arrastando aquela baita mala. Ela quase não aguentava com o peso. Quando cheguei mais perto, vi que era a minha mala velha, a que eu usava no tempo do Colégio Whooton. Não conseguia imaginar que diabo ela estava fazendo com a mala.
Oi – ela disse, quando veio chegando. Já nem tinha mais fôlego, por causa daquela mala doida.
Pensei que você não vinha mais – falei. – Que é que você pôs aí nessa mala? Não preciso de nada. Vou assim mesmo como estou. Não vou levar nem as minhas malas que estão na estação. Afinal de contas, quê que você enfiou aí?
Ela pôs a mala no chão.
Minhas roupas – respondeu. – Vou com você. Posso? Tá bem?
O quê? – perguntei. Quase caí duro quando ela disse aquilo. Juro por Deus. Me senti meio tonto e pensei que ia desmaiar outra vez ou coisa parecida.
Desci com a mala pelo elevador dos fundos para a Charlene não me ver. Não é pesada, não. Só tem dois vestidos, meus mocassins, minha roupa de baixo, meias e mais umas coisinhas. Experimenta só. Não é pesada, não. Experimenta uma vez só pra ver... Posso ir com você, Holden? Posso? Por favor.
Não. Cala a boca.
Pensei que ia desmaiar. Eu não queria que ela calasse a boca e tudo, não era bem isso, mas pensei mesmo que ia desmaiar novamente.
Por quê que eu não posso ir? Deixa, Holden. Não vou fazer nada... Só vou com você, só isso! Se você quiser nem levo minhas roupas. Só levo minha...
Você não vai levar nada. Porque nem você vai. Vou sozinho. Por isso, trata de calar a boca.
Deixa, Holden. Deixa eu ir. Vou ser muito, muito... Você nem vai...
Não vou deixar nada. Agora, cala a boca. Me dá essa mala.
Tirei a mala da mão dela. Estava quase batendo nela. Cheguei até a pensar por um instante que ia dar-lhe um tapa. No duro. Ela começou a chorar.
Pensei que você ia representar no teatro da escola e tudo. Pensei que você ia ser o Benedict Arnold naquela peça – falei, com uma voz um bocado dura. – Que é que você quer fazer? Sair da peça, é?
Isso fez ela chorar mais ainda. Fiquei satisfeito. De repente eu quis que ela chorasse até arrebentar. Quase tive ódio dela. Acho que tive mais raiva principalmente porque ela não representaria mais na peça se fosse embora comigo.
Vamos – eu disse. Comecei a subir outra vez as escadas do museu. Resolvi o que ia fazer: deixava aquela mala doida na portaria do museu e aí ela podia apanha-la às três horas, quando saísse da escola. Sabia que ela não podia mesmo levar a mala para a escola.
Vamos, agora vamos – repeti.
Mas ela não subiu comigo. Não houve jeito de faze-la ir comigo. Subi assim mesmo, deixei a mala na portaria e saí outra vez. Ela ainda estava lá, na calçada, mas virou as costas para mim quando me aproximei. Isso ela sabe fazer muito bem. Quando lhe dá na veneta, ela vira as costas pra gente sem a menor cerimônia.
Não vou mais embora pra lugar nenhum. Mudei de ideia. Agora para de chorar e cala a boca – falei. O engraçado é que, quando eu disse isso, ela nem estava chorando mais. Mas falei de qualquer maneira. – Agora vamos embora. Vou com você até a escola. Vambora, senão você vai chegar atrasada.
Nem assim me respondeu. Tentei segurar a mão dela, mas também não me deixou. Continuou me dando as costas.
Você almoçou? Já almoçou, Phoebe?
Neca de resposta. O que ela fez foi tirar da cabeça meu chapéu de caça vermelho – que eu tinha dado a ela de presente – e praticamente me jogou o chapéu na cara. Aí virou de costas outra vez. Me deu uma vontade danada de rir, mas eu não disse nada. Só apanhei o chapéu do chão e enfiei no bolso do meu casaco.
Vamos, êi! Vou andando com você até a escola.
Não vou pra escola!
Fiquei sem saber o que dizer depois que ela falou isso. Fiquei ali em pé uns dois minutos, sem fazer nada.
Você tem que voltar pra escola. Você quer trabalhar naquela peça, não quer? Você quer ser o Benedict Arnold, não quer?
Não.
É claro que você quer. É lógico que quer. Agora vamos, vambora – repeti. – Em primeiro lugar, já te disse que não vou mais embora. Vou voltar pra casa. Logo que você for para a escola eu vou voltar pra casa. Primeiro vou até a estação apanhar minhas malas, e aí vou direto...
Já te disse que não vou voltar pra escola. Você pode fazer o que quiser, mas eu não vou voltar pra escola. Por isso, cala a boca.
Era a primeira vez que ela me mandava calar a boca. Era horrível ouvir isso dito por ela. Puxa, era horrível mesmo. Pior do que se ela tivesse dito um nome feio. Continuava a nem me olhar e, cada vez que eu tentava pôr a mão no ombro dela, não me deixava.
Escuta, quer dar um passeio comigo? – perguntei. – Quer passear comigo no Jardim Zoológico? Se eu deixar você faltar à escola hoje de tarde e nós dermos um passeio, você para com essa maluquice?
Não me respondeu, por isso repeti: – Se eu deixar você matar aula hoje de tarde e dar uma voltinha, você para com essa maluquice? Você vai amanhã à escola, como uma menininha bem comportada?
Talvez sim e talvez não – respondeu. E aí saiu correndo e atravessou a rua como uma doida, sem ao menos olhar se vinha algum carro. Às vezes ela é maluquinha.
Mas não fui atrás dela. Sabia que ela iria atrás de mim, por isso comecei a andar na direção do centro da cidade, a caminho do Jardim Zoológico; eu ia pela calçada do lado do parque e ela começou a andar na mesma direção, só que pelo outro lado da rua. Não olhava para mim nem nada, mas eu sabia que ela provavelmente estava me espiando com o rabo do olho, para ver onde eu ia e tudo. De qualquer maneira, fomos assim o caminho todo, até o Jardim Zoológico. A única coisa que me chateou foi quando passou um ônibus de dois andares e eu não pude ver o outro lado da rua, para saber que diabo ela estava fazendo. Mas, quando chegamos ao Jardim Zoológico, gritei para ela:
Phoebe! Vou entrar agora! Vem!
Nem assim olhou para mim, mas eu sabia que ela tinha me ouvido. Quando comecei a descer as escadas para o Jardim Zoológico, virei para trás e vi que ela estava atravessando a rua, me seguindo e tudo.
Não havia muita gente no Jardim Zoológico, porque o tempo estava mesmo uma droga, mas havia algumas pessoas em volta da piscina dos leões-marinhos e tudo. Eu ia seguir direto, mas a danada da Phoebe parou e fingiu que estava vendo os leões-marinhos serem alimentados – tinha um sujeito jogando uns peixes para eles – por isso voltei. Imaginei que era uma boa oportunidade para chegar perto dela e tudo. Fui até lá, parei atrás dela e experimentei pôr-lhe as mãos no ombro, mas ela dobrou os joelhos e escapuliu. Ela sabe ser malcriada quando quer. Continuou ali em pé, enquanto os leões-marinhos comiam, e eu postado bem atrás. Não tentei botar a mão outra vez no ombro dela nem nada, porque, se tivesse tentado, ela teria certamente me dado outro fora. As crianças são gozadas. A gente tem que se cuidar com elas.
Quando saímos da piscina dos leões-marinhos, ela não veio andando a meu lado, mas já não estávamos tão longe um do outro. Ela ia numa beirada do passeio e eu na outra. Não era lá grande coisa, mas era melhor do que antes, quando ela ficava a um quilômetro de distância. Seguimos em frente e passamos algum tempo olhando os ursos, no alto daquela colinazinha, mas não havia muita coisa para se ver. Só um dos ursos estava do lado de fora, o polar. O outro, o marrom, estava metido na droga da cova e não saía de jeito nenhum. Só dava para ver o traseiro dele. Ao meu lado tinha um garotinho, com um chapéu de cowboy que praticamente lhe cobria as orelhas, que ficava dizendo para o pai dele: "Faz ele sair, pai. Chama ele, pai!" Olhei para a Phoebe, mas ela não estava achando graça. Sabe como é criança quando está zangada com a gente, não acha graça em nada.
Depois de ver os ursos, saímos do Jardim Zoológico, atravessamos aquela ruazinha no parque e passamos por baixo de um daqueles túneis pequenos que estão sempre cheirando a mijo. Era no caminho do carrossel. A danada da Phoebe ainda não conversava comigo nem nada, mas já estava andando meio ao meu lado agora. Agarrei o cinto nas costas do casaco dela só de brincadeira, mas não deixou.
Se não é muito incômodo, guarda tua mão pra você mesmo – ela disse.
Ainda estava zangada comigo, mas não tão zangada quanto antes. Seja como for, estávamos chegando cada vez mais perto do carrossel e já dava para se ouvir aquela musiquinha maluca que toca sempre. Estava tocando Ó, Maria! Era a mesma música que tocava há uns cinquenta anos, quando eu era pequeno. Isso é um troço bom nos carrosséis, eles tocam sempre as mesmas músicas.
Pensei que o carrossel ficava fechado no inverno – ela disse. Era praticamente a primeira vez que ela me falava alguma coisa. Provavelmente esqueceu que estava de mal comigo.
Vai ver que é por causa do Natal – falei.
Ela não falou mais nada quando eu disse isso. Provavelmente lembrou que estava de mal comigo.
Você quer dar uma volta no carrossel? – perguntei. Sabia que ela devia querer. Quando pequenininha – e o Allie, o D. B. e eu costumávamos levá-la ao parque – ela era tarada pelo carrossel. Não havia jeito de arrancá-la de lá.
Já sou muito crescida – ela falou. Pensei que não ia me responder, mas respondeu.
Que crescida, que nada. Vai que eu te espero, vai.
Tínhamos chegado lá. Havia uns garotinhos andando nele, na maioria muito pequenininhos, e uns pais esperando do lado de fora, sentados nos bancos e tudo. Fui até o guichê onde vendem as entradas e comprei uma para a Phoebe. Aí entreguei-a a ela. Ela estava bem ao meu lado.
Toma. Espera um instante, toma também o resto do teu dinheiro.
Comecei a entregar o resto do dinheiro que ela me havia emprestado.
Guarda. Guarda pra mim – ela disse e, logo em seguida: – Por favor.
Isso é deprimente, quando alguém diz “por favor” à gente. Alguém assim feito a Phoebe. Isso me deprimiu pra burro. Mas botei o dinheiro de volta no bolso.
Você também não vai dar uma volta? – ela perguntou. Estava me olhando com um jeito meio engraçado. Via-se logo que não estava mais muito zangada comigo.
Talvez eu ande na próxima volta. Agora vou ficar te olhando. Apanhou tua entrada?
Apanhei.
Então vai. Vou ficar naquele banco ali, te olhando.
Caminhei para o banco e me sentei, enquanto ela subia no carrossel. Deu a volta toda na plataforma e acabou sentando num enorme cavalo castanho, velho e surrado pra chuchu. Aí o carrossel começou a rodar e eu a fiquei vendo passar e passar. Só havia mais uns cinco ou seis garotinhos, e a música que o carrossel estava tocando era Smoke Gets in Your Eyes. Num ritmo bem ligeiro e engraçado. Todos os garotos ficavam tentando agarrar a argola dourada, e a Phoebe também, e eu cheguei a ficar com medo de que ela acabasse caindo da droga do cavalo. Mas não disse e nem fiz nada. O negócio com as crianças é que, se elas querem agarrar a argola dourada, o melhor é deixar elas fazerem o troço e não dizer nada. Se caírem, caíram, mas o errado é dizer alguma coisa para elas.
Quando acabou a volta, ela desceu do cavalo e veio até onde eu estava.
Dessa vez você vai também – ela disse.
Não, vou só ficar te olhando. Acho que só vou ficar olhando – respondi. Dei a ela mais alguma grana e falei: – Toma. Compra mais umas entradas.
Ela apanhou o dinheiro e disse: – Não tou mais de mal com você.
Eu sei. Corre que o negócio vai começar outra vez.
Então, de repente, ela me deu um beijo. Aí, estendeu a mão e falou: – Tá chovendo. Está começando a chover.
Eu sei.
Aí ela fez um troço que me deixou maluco: enfiou a mão no bolso do meu casaco, tirou o chapéu de caça vermelho e botou na minha cabeça.
Você não quer mais ele? – perguntei.
Pode usar ele um pouco.
Tá bom. Mas corre agora. Você assim vai perder essa volta. Não vai mais pegar teu cavalo nem nada.
Mas ela continuou ali.
É verdade aquilo que você disse? Que não vai mais embora? Vai mesmo pra casa depois?
Vou, respondi. E era verdade mesmo. Não estava mentindo. Fui mesmo para casa depois.
Agora, corre. O negócio já tá começando.
Ela correu, comprou a entrada e pulou na droga do carrossel bem na horinha. Aí deu a volta toda, até encontrar o cavalo dela, e montou. Acenou para mim e eu acenei de volta.
Puxa, aí começou a chover pra burro. Um dilúvio, juro por Deus. Todos os pais e mães, todo mundo correu pra debaixo do teto do carrossel, para não se molhar até os ossos, mas eu ainda fiquei ali no banco mais algum tempo. Me molhei pra diabo, principalmente no pescoço e nas calças. Até que meu chapéu de caça me protegeu mesmo um bocado, mas acabei ensopado de qualquer maneira. Mas nem liguei. Me senti tão feliz de repente, vendo a Phoebe passar e passar. Pra dizer a verdade, eu estava a ponto de chorar de tão feliz que me sentia. Sei lá por quê. É que ela estava tão bonita, do jeito que passava rodando e rodando, de casaco azul e tudo. Puxa, só a gente estando lá para ver.

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio 

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