05/06/2026

O Apanhador no Campo de Centeio – 25


25

Quando cheguei lá fora o dia estava começando a clarear. Fazia também um frio desgraçado, mas até que me senti bem, de tão suado que eu estava.
Não tinha a mínima ideia para onde ir. Não queria me meter em outro hotel e gastar todo o dinheiro da Phoebe. Afinal, fui andando até a Avenida Lexington e tomei o metrô para a Estação Grand Central. Tinha deixado as minhas malas lá e tudo, e pensei em dormir naquele salão de espera enorme, onde tem um milhão de bancos. Foi o que acabei fazendo. No começo até que não foi tão ruim, porque havia pouca gente por ali e eu podia pôr os pés em cima do banco. Mas não tenho muita vontade de falar sobre isso. Não foi nada agradável. A gente não devia nunca ter de fazer um troço desses. No duro, é um bocado deprimente.
Só consegui dormir até umas nove horas porque aí milhões de pessoas começaram a entrar no saguão e tive que tirar os pés de cima do banco. Não consigo dormir direito com os pés no chão, e não tinha mesmo outro jeito senão ficar sentado. Ainda estava com dor de cabeça, só que agora pior ainda, e acho que nunca me senti tão deprimido em toda a minha vida.
Bem que eu não queria, mas comecei a pensar no Professor Antolini e no que ele ia ter que dizer à mulher dele quando ela visse que eu não tinha dormido lá nem nada. Essa parte até que não me incomodava muito, porque eu sabia que o Professor Antolini era bastante inteligente para inventar alguma coisa para dizer a ela. Podia dizer que eu tinha ido para casa ou coisa parecida. Essa parte não me preocupava muito. O que me chateava mesmo era esse negócio de eu ter acordado e encontrado o Professor fazendo festinha na minha cabeça e tudo. Chegava a pensar que podia ter sido um engano meu e que, afinal de contas, ele não estivesse me fazendo um carinho aveadado. Talvez ele só gostasse mesmo era de fazer festinha na cabeça da gente, enquanto a gente dormia. Como é que se pode ter certeza de um troço desses? É impossível. Comecei até a pensar se não devia pegar minhas malas e voltar para a casa dele, como havia dito que ia fazer. Pensei que, mesmo que fosse veado, ele tinha sido um bocado bom comigo. Nem tinha se importado de eu telefonar tão tarde para ele, e me havia dito que fosse imediatamente para lá, se quisesse. E tinha tido um trabalhão para me aconselhar sobre aquele negócio da gente descobrir o tamanho da nossa mente e tudo. E foi o único sujeito que chegou perto daquele garoto, o James Castle, no dia em que ele morreu. Pensei nisso tudo. E, quanto mais pensava, mais deprimido ficava.
Comecei a achar que talvez eu devesse voltar para a casa dele. Possivelmente, ele só estava mesmo me fazendo festinha na cabeça à toa, sem maldade nenhuma. Mas, quanto mais eu pensava no troço todo, mais deprimido e confuso ia ficando. Para piorar tudo ainda, meus olhos estavam me incomodando um bocado. Estavam irritados e ardendo, pela falta de sono. Além disso eu estava começando a ficar resfriado e não tinha nem uma porcaria dum lenço no bolso. Tinha alguns na mala, mas não estava com a mínima vontade de tirá-la de dentro do armário de aço e abrir ali, bem na frente de todo mundo.
Alguém tinha deixado uma revista no banco, ao meu lado, e comecei a ler, achando que assim ia parar de pensar no Professor Antolini e num milhão de outras coisas, pelo menos durante algum tempo. Mas a porcaria do artigo que comecei a ler quase que me fez sentir pior ainda. Era sobre os hormônios. Mostrava a aparência que a gente deve ter – a cara, os olhos e tudo - quando os hormônios estão funcionando direito, e eu estava todo ao contrário. Estava parecendo exatamente com o sujeito do artigo, que estava com os hormônios todos funcionando errado. Por isso comecei a ficar preocupado com os meus hormônios. Aí li outro artigo, sobre a maneira pela qual a gente pode saber se tem câncer ou não. Dizia lá que, se a gente tem alguma ferida na boca que demora a sarar, então isso é sinal de que a gente provavelmente está com câncer. E eu já estava com aquele machucado na parte de dentro do lábio há umas duas semanas. Por isso imaginei que estava pegando um câncer. A tal revista era um bocado boa para levantar o moral da gente. Acabei parando de ler e saí para dar uma volta. Calculei que devia morrer dentro de uns dois meses, já que estava com câncer. Foi mesmo. Eu estava certo de que ia morrer. Evidentemente, essa ideia não me deixou muito satisfeito.
Estava com jeito de que ia chover, mas saí andando assim mesmo. Em parte porque achei que devia comer alguma coisa. Não tinha a menor fome, mas achei que precisava pelo menos me alimentar um pouco. Quer dizer, pelo menos tomar algum troço que tivesse umas vitaminas. Por isso comecei a andar na direção leste, onde tem uma porção de restaurantes baratos, porque não estava a fim de gastar um dinheirão.
Enquanto ia andando, passei por dois sujeitos que estavam descarregando uma baita árvore de Natal dum caminhão. Um deles ficava só falando para o outro: "Segura essa filha da puta! Segura mesmo!" Certamente, era o tipo da maneira delicada de se referir a uma árvore de Natal. Mas até que tinha sua graça, assim dum jeito meio infeliz, e eu mais ou menos comecei a rir. Foi a pior coisa que eu podia ter feito, porque mal comecei a rir, pensei que fosse vomitar. No duro. Cheguei mesmo a começar, mas logo passou. Sei lá por quê. Afinal de contas, não tinha comido nada estragado ou coisa que o valha, e normalmente tenho um estômago um bocado forte. De qualquer forma, consegui me aguentar e imaginei que ia me sentir melhor se comesse alguma coisa. Entrei num restaurante vagabundo e pedi café com roscas. Não houve jeito de engolir direito. O caso é que, quando a gente está muito deprimido, é difícil como o diabo engolir qualquer coisa. Mas o garçon foi simpático: levou as roscas de volta sem me cobrar nada por elas. Só bebi o café. Aí saí e fui andando em direção à Quinta Avenida.
Era uma segunda-feira e tudo, pertinho do Natal, e todas as lojas estavam abertas. Por isso, até que não era de todo mau caminhar pela Quinta Avenida, que estava um bocado natalina. Tinha toda aquela porção de Papais Noéis magricelas nas esquinas, cada um sacudindo seu sino, e todas aquelas mulheres do Exército da Salvação, as tais que não usam baton nem nada, também badalando seus sininhos. Fiquei mais ou menos procurando aquelas duas freiras que eu tinha encontrado na véspera, tomando o café da manhã, mas não as vi. Sabia que não ia vê-las mesmo, porque elas me haviam dito que tinham vindo para Nova York para ser professoras, mas de qualquer maneira continuei a procurar por elas. Seja como for, de repente estava tudo um bocado natalino. Um milhão de crianças zanzavam pelo centro da cidade com as mães, subindo e descendo dos ônibus, entrando e saindo das lojas. Queria que a Phoebe estivesse ali comigo. Ela já não é tão pequena que ainda fique inteiramente alucinada na seção de brinquedos, mas gosta de circular e olhar as pessoas. No Natal passado levei-a à cidade para fazer compras comigo. Nos divertimos pra chuchu. Acho que foi na Loja Bloomingdale. Fomos na seção de sapatos e fizemos de conta que ela - Phoebe – queria um par dessas galochas altas, dessas que têm mais ou menos um milhão de casas para passar o cadarço. O vendedor quase ficou maluco. A doida da Phoebe experimentou uns vinte pares, e cada vez o infeliz tinha que amarrar um pé até em cima. Era o tipo da maldade, mas a Phoebe se divertiu barbaramente. Afinal, compramos um par de mocassins e mandamos pôr na conta. O vendedor até que foi muito simpático. Acho que ele sabia que nós estávamos só de brincadeira porque a Phoebe fica rindo o tempo todo.
De qualquer modo, continuei andando toda a vida pela Quinta Avenida, sem gravata nem nada. Aí, de repente, começou a acontecer um negócio um bocado fantasmagórico. Cada vez que eu chegava ao fim de um quarteirão e descia o meio-fio, tinha a sensação de que nunca chegaria ao outro lado da rua. Pensava que ia caindo, caindo, caindo, e nunca mais ninguém ia me ver. Puxa, fiquei apavorado pra burro. Ninguém imagina o medão que me deu. Comecei a suar como um filho da mãe, molhei toda a camisa, a roupa de baixo, tudo. Aí comecei a fazer outro troço: cada vez que chegava ao fim do quarteirão, fazia de conta que estava falando com o meu irmão Allie. Dizia pra ele: "Allie, não me deixa desaparecer. Allie, não me deixa desaparecer. Por favor, Allie." Aí então, quando chegava do outro lado da rua sem desaparecer, eu agradecia a ele. Logo que chegava a outra esquina, começava tudo de novo. Mas continuei andando assim mesmo. Acho que estava meio amedrontado de parar - nem sei direito, para dizer a verdade. Sei que só fui parar quando já estava lá pela altura da rua Sessenta e tantos, pra lá do Jardim Zoológico. Aí, sentei num banco. Quase que não conseguia respirar e ainda estava suando como um filho da mãe. Acho que fiquei sentado lá mais ou menos uma hora. Finalmente, decidi ir embora de vez. Resolvi que não voltaria para casa nunca mais, e nunca mais iria para colégio nenhum. Decidi que ia só encontrar com a Phoebe, para me despedir e tudo, e devolver o dinheiro de Natal que ela me havia emprestado. Aí começaria a viajar para o oeste, pegando caronas nos carros. Já sabia o que tinha de fazer: ia até o Túnel Holland e apanhava uma carona, depois pegava outra carona, e depois outra e mais outra. Assim, em poucos dias já estaria lá pelo oeste, num lugar muito bonito e ensolarado, onde ninguém me conhecesse e eu arranjasse um emprego. Calculei que podia achar trabalho num posto de gasolina em qualquer canto, pondo gasolina e óleo no carro dos outros. Mas não me importava que tipo de emprego ia ser, desde que ninguém me conhecesse e eu não conhecesse ninguém. Aí, bolei o que é que eu devia fazer: ia fingir que era surdo-mudo. Desse modo, não precisava ter nenhuma conversa imbecil e inútil com ninguém. Se alguém quisesse me dizer alguma coisa, teria de escrever o troço num pedaço de papel e me entregar. Depois de algum tempo iam ficar um bocado aporrinhados de ter que fazer tudo isso, e aí eu nunca mais precisaria conversar pelo resto da minha vida. Todo mundo ia pensar que eu era só um infeliz dum filho da mãe surdo-mudo, e iam me deixar em paz sozinho. Me deixavam botar gasolina e óleo na droga dos carros deles, e me pagavam um salário para fazer isso. Com o dinheiro que fosse ganhando, construiria uma cabaninha para mim em algum lugar e viveria lá o resto da vida. Ia fazer a cabana bem pertinho de uma floresta, mas não dentro da mata, porque ia fazer questão de ter a casa ensolarada pra burro o tempo todo. Cozinharia minha própria comida e mais tarde, se quisesse casar ou coisa parecida, ia encontrar uma garota bonita, também surdo-muda, e nos casaríamos. Ela viria viver comigo na cabana e, se quisesse me dizer alguma coisa, teria de escrever numa porcaria dum pedaço de papel, como todo mundo. Se tivéssemos filhos, iam ficar escondidos em algum canto. Podíamos comprar uma porção de livros para eles e nós mesmos íamos ensiná-los a ler e escrever.
Fiquei excitado pra burro pensando no negócio todo. No duro. Sabia que aquela parte de bancar o surdo-mudo era amalucada, mas de qualquer maneira gostava de pensar nela. Mas resolvi de fato ir embora para o oeste e tudo. A única coisa que eu queria fazer antes da partida era me despedir da Phoebe. Por isso, de repente, atravessei a rua correndo como um doido – pra dizer a verdade, por um triz não morri atropelado – entrei numa papelaria e comprei um bloco e um lápis. Resolvi que ia escrever um bilhete para ela, marcando um encontro para que eu pudesse lhe dizer adeus e devolver o dinheiro das compras de Natal; aí levaria o bilhete para a escola dela e daria um jeito para que alguém do gabinete do diretor lhe entregasse. Mas acabei guardando o bloco e o lápis no bolso e comecei a andar depressa na direção da escola – estava nervoso demais para escrever o bilhete ali mesmo na papelaria. Tinha que andar rápido, porque queria que ela recebesse o bilhete antes de ir para casa almoçar, e não sobrava muito tempo.
Naturalmente, sabia onde era a escola dela, porque eu também havia estudado lá quando era garoto. Quando cheguei, foi engraçado. Não tinha certeza se me lembraria de como era a escola por dentro, mas vi que me lembrava. Tudo continuava exatamente como no meu tempo. Tinha o mesmo pátio enorme do lado de dentro, sempre meio escuro, com aquelas telas de arame em volta das lâmpadas para não se quebrarem com uma bolada. Os mesmos círculos de giz pelo chão todo, para as brincadeiras de pular. E as mesmas cestas de basquete sem rede - só as tabelas e os aros.
Não havia ninguém à vista, provavelmente porque não era hora do recreio e nem tinha chegado ainda a hora do almoço. Só vi um garotinho, um pretinho, a caminho do banheiro. Do bolso dele saia um daqueles passes de madeira, como nós costumávamos usar, para mostrar que ele tinha permissão para ir ao banheiro.
Eu ainda estava suando, mas não tanto quanto antes. Fui até as escadas, sentei no primeiro degrau e tirei do bolso o bloco e o lápis que tinha comprado. As escadas tinham o mesmo cheiro de quando eu estudava lá, como se alguém tivesse acabado de dar uma mijada por ali. Todas as escadas de escola têm esse cheiro. Seja como for, sentei e escrevi um bilhete:
Querida Phoebe:

Não posso mais esperar até quarta-feira, por isso provavelmente vou partir hoje de tarde para o oeste, pegando carona. Encontre-me no Museu de Arte, juntinho à porta, ao meio-dia e quinze, se você puder, que eu quero devolver teu dinheiro de Natal. Não gastei muito.
Um beijo
Holden

A escola era pertinho do museu e ela tinha mesmo de passar por lá a caminho de casa para o almoço, por isso sabia que ela ia poder encontrar comigo.
Aí comecei a subir a escada em direção ao gabinete do diretor, para arranjar alguém que entregasse o bilhete a ela na sala de aulas. Dobrei o papel umas dez vezes, para que ninguém o abrisse. Não se pode confiar em ninguém numa porcaria duma escola. Mas, como eu era irmão dela e tudo, sabia que eles entregariam o bilhete.
De repente, enquanto subia a escada, pensei outra vez que ia vomitar. Só que não vomitei. Sentei um minuto e me senti melhor. Mas, enquanto estava sentado, vi uma coisa que me deixou maluco de raiva. Alguém tinha escrito "Foda-se" na parede. Fiquei furioso de ódio. Imaginei a Phoebe e todas as outras crianças lendo o que estava escrito: iam ficar pensando que diabo significava aquilo, até que, afinal, algum garoto sujo ia dizer a elas - naturalmente tudo errado - o que queria dizer aquela palavra. E elas todas iam ficar pensando na coisa, e talvez até se preocupando com aquilo durante alguns dias. Me deu vontade de matar o safado que tinha escrito aquilo. Imaginei que devia ter sido algum tarado, que havia entrado escondido na escola tarde da noite, para dar uma mijada ou coisa parecida, e aí tivesse escrito aquilo na parede. Me imaginei pegando o sacana em flagrante e batendo com a cabeça dele nos degraus de pedra, até que ele estivesse todo ensanguentado e bem morto. Mas eu sabia também que não ia ter coragem de fazer um negócio desses. Sabia disso e fiquei ainda mais deprimido. Eu quase não tinha coragem nem mesmo de apagar o troço com a mão, para dizer a verdade. Fiquei com medo de que algum professor me pegasse apagando e pensasse que eu é que tinha escrito aquilo. Mas, finalmente, acabei apagando. Aí subi para o gabinete do diretor.
Acho que o diretor não estava por lá, mas uma velhinha de uns cem anos de idade estava sentada, batendo a máquina. Eu disse que era irmão da Phoebe Caulfield, da classe 4B-1, e pedi que me fizesse o favor de entregar o bilhete à Phoebe. Falei que era muito importante, porque minha mãe estava doente e não podia aprontar o almoço da Phoebe, e que por isso ela tinha de se encontrar comigo para comer numa lanchonete. A velhinha foi muito simpática. Apanhou o bilhete e chamou outra mulher, na sala ao lado, e a outra foi entregar o bilhete à Phoebe. Aí, eu e a velhinha que devia ter uns cem anos batemos um papinho. Ela era muito simpática e eu disse que também tinha estudado lá, como todos os meus irmãos. Perguntou-me onde é que eu estava estudando agora e, quando falei que era no Pencey, ela disse que era um colégio muito bom. Mesmo que eu quisesse, não teria forças para convencê-la do contrário. Além disso, se pensava que o Pencey era um colégio muito bom, melhor para ela. É muito chato dizer alguma coisa nova para alguém que tem uns cem anos de idade. Eles não gostam de ouvir novidades. Aí, depois de algum tempo, fui embora. Foi engraçado: ela me gritou "Felicidades!", igualzinho ao velho Spencer quando eu saí do Pencey. Puxa, que raiva que me dá quando alguém berra "Felicidades!" quando estou indo embora de algum lugar. É deprimente pra burro.
Desci por outra escada e vi outro "Foda-se" na parede. Tentei apagar outra vez com a mão, mas esse tinha sido riscado na parede, com um canivete ou coisa parecida. Não saía de jeito nenhum. De qualquer maneira, é bobagem mesmo. Mesmo que a gente vivesse um milhão de anos, não conseguiria apagar nem a metade dos "Foda-se" escritos pelo mundo. É impossível.
Olhei o relógio do pátio de recreio e eram só vinte para o meio-dia, por isso ainda tinha um bocado de tempo para matar enquanto esperava pela Phoebe. Mas, de qualquer modo, fui andando mesmo para o museu. Não tinha nenhum outro lugar para ir. Pensei que talvez pudesse parar numa cabine telefônica e dar uma palavrinha com a Jane Gallagher antes de começar a minha viagem de carona para o oeste, mas não me deu vontade. Aliás, nem sabia se ela já tinha chegado de férias. Por isso, fui mesmo até o museu e fiquei zanzando por lá.
Enquanto esperava pela Phoebe no museu, do lado de dentro, bem junto da porta e tudo, dois garotinhos chegaram perto de mim e perguntaram se eu sabia onde ficavam as múmias. Um deles, o que me fez a pergunta, estava com a braguilha desabotoada. Disse isso a ele, que se abotoou ali mesmo onde estava, em pé, falando comigo – nem se deu ao trabalho de ir para trás de uma pilastra nem nada. Achei o troço infernal. Tive vontade de rir, mas fiquei dom medo de me dar vontade de vomitar outra vez, por isso não ri.
Onde é que ficam as múmias? – ele repetiu. – Você sabe?
Resolvi fazer um pouco de hora com os dois.
As múmias? Quê que é isso? – perguntei a ele.
Num sabe? As múmias, esses caras mortos. Que eles enterram nos tumos e tudo. Tumos. Essa foi mesmo genial. Ele queria dizer túmulos.
Por que é que vocês dois não estão na escola? – perguntei.
Hoje num tem aula – respondeu o garoto que falava pelos dois. Na certa era mentira. Mas eu não tinha mesmo nada para fazer até a hora de encontrar com a Phoebe, por isso os ajudei a achar o lugar em que ficavam as múmias. Puxa, eu costumava saber exatamente onde era, mas já fazia anos que não ia ao museu.
Vocês dois se interessam muito pelas múmias? – perguntei.
É.
Teu amigo não sabe falar, é?
Ele num é meu amigo, é meu irmão.
Mas ele não sabe falar? – repeti. Olhei para o garoto que ainda não tinha dito uma palavra. – Será que você sabe falar? – perguntei a ele.
Sei sim – respondeu – mas não tou com vontade.
Afinal encontramos o lugar das múmias e entramos.
Você sabe como é que os egípcios enterravam os mortos? – perguntei ao que falava.
Não.
É, mas devia. É muito interessante. Eles embrulhavam as caras deles nuns panos, tratados com um preparado químico secreto. Desse jeito eles podiam ficar enterrados milhares de anos nos túmulos, sem as caras apodrecerem nem nada. Ninguém sabe como é que eles faziam isso, só os egípcios. Nem a ciência moderna.
Para se chegar até onde estavam as múmias, a gente tinha de descer uma espécie de corredor, com paredes de pedra nos dois lados, que eles tinham tirado lá mesmo da tumba de um faraó e tudo. Era um lugar de meter medo, e estava na cara que os dois sabichões que vinham comigo não estavam se divertindo muito. Andavam grudadinhos em mim, e o tal que não falava nunca vinha praticamente agarrado na minha manga.
Vambora – ele disse para o irmão. – Já vi tudo. Vambora, êi!
Aí ele deu meia volta e se mandou.
Ele é medroso pra burro – o outro disse. – Té logo!
E disparou também. Fiquei sozinho no túmulo. Até que, de certo modo, gostei. Estava tudo tão quieto e agradável. Aí, de repente, vi aquilo na parede. Outro "Foda-se". Escrito com lápis vermelho ou coisa parecida, bem embaixo da parte envidraçada da parede, perto das pedras.
Esse é que é o problema todo. Não se pode achar nunca um lugar quieto e gostoso, porque não existe nenhum. A gente pode pensar que existe, mas, quando se chega lá e está completamente distraído, alguém entra escondido e escreve "Foda-se" bem na cara da gente. É só experimentar. Acho mesmo que, se um dia eu morrer e me enfiarem num cemitério, com uma lápide e tudo, vai ter a inscrição "Holden Caulfield", mais o ano em que eu nasci e o ano em que morri e, logo abaixo, alguém vai escrever "Foda-se". Tenho certeza absoluta.
[…]

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

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