09/06/2026

Canção de mim mesmo

5

Creio em ti minha alma,
O outro que sou não deve se rebaixar a ti,
E não deves ser rebaixada ao outro.
Vagueia comigo na relva, solta a trava da garganta,

Nem palavras, nem música ou rima quero,
Nem hábito ou palestra,
Nem mesmo os melhores,
Somente o sossego me agrada, o rumor de tua voz valvulada.

Recordo como uma vez deitamos certa manhã transparente de verão,
Como assentaste tua cabeça transversalmente em meus quadris e gentilmente giraste sobre mim,
E abriste a camisa em meu peito e lançaste tua língua em meu coração desnudo,
E tateaste até sentir minha barba e tateaste até pegar meus pés.

De súbito te ergueste e espalhaste ao meu redor a paz e o conhecimento que passam todo o argumento da terra,
E sei que a mão de Deus é a promessa da minha,
E sei que o espírito de Deus é irmão do meu,
E todos os homens já nascidos são também meus irmãos, e as mulheres minhas irmãs e amantes,

E que uma sobrequilha da criação é o amor,
E ilimitadas são as folhas rijas ou pendentes nos campos,
E formigas marrons nos miúdos vãos sob elas,
E crostas musgosas da cerca serpeante, pedras empilhadas, sabugueiro, verbasco e erva-dos-cachos.

Walt Whitman, em Folhas de Relva

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