Trilha sonora ao fundo: piano no
bordel, vozes barganhando uma informação difícil. Agora silêncio;
silêncio eletrônico, produzido no sintetizador que antes construiu
a ameaça das asas batendo freneticamente.
Apuro técnico.
Os canais que só existem no mapa.
O aspecto moral da experiência.
Primeiro ato da imaginação.
Suborno no bordel.
Eu tenho uma ideia.
Eu não tenho a menor ideia.
Uma frase em cada linha. Um golpe de
exercício.
Memórias de Copacabana. Santa Clara
às três da tarde.
Autobiografia. Não, biografia.
Mulher.
Papai Noel e os marcianos.
Billy the Kid versus Drácula.
Drácula versus Billy the Kid.
Muito sentimental.
Agora pouco sentimental. Pensa no seu
amor de hoje que sempre dura menos que o seu amor de ontem.
Gertrude: estas são ideias bem
comuns.
Apresenta a jazz-band.
Não, toca blues com ela.
Esta é a minha vida.
Atavessa a ponte.
É sempre um pouco tarde.
Não presta atenção em mim.
Olha aqueles três barcos colados
imóveis no meio do grande rio.
Estamos em cima da hora.
Daydream.
Quem caça mais o olho um do outro?
Sou eu admito vitória.
Ela que mora conosco então nem se
fala.
Caça, caça.
E faz passos pesados subindo a escada
correndo.
Outra cena da minha vida.
Um amigo velho vive em táxis.
Dentro de um táxi é que ele me diz
que quer
chorar mas não chora.
Não esqueço mais.
E a última, eu já te contei?
É assim.
Estamos parados.
Você lê sem parar, eu ouço uma
canção.
Agora estamos em movimento.
Atravessando a grande ponte olhando o
grande
rio e os três barcos colados imóveis
no meio.
Você anda um pouco na frente.
Penso que sou mais nova do que sou.
Bem nova.
Estamos deitados.
Você acorda correndo.
Sonhei outra vez com a mesma coisa.
Estamos pensando.
Na mesma ordem de coisas.
Não, não na mesma ordem de coisas.
É domingo de manhã (não é dia útil
às três da tarde).
Quando a memória está útil.
Usa.
Agora é a sua vez.
Do you believe in love...?
Então está.
Não insisto mais.
O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos
biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa!
Esses mosquitos que não largam! Minhas saudades ensurdecidas
por cigarras! O que faço aqui no
campo declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah que estou sentida e portuguesa, e
agora não sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
agora sou profissional.
Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés
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