28/06/2026

1629 – Margens do Bío-Bío

Putapichun

Depois de pouco andar, veem chegando uma multidão da distante cordilheira. Maulicán dá com os calcanhares em seu cavalo e adianta-se ao encontro do cacique Putapichun.
Os da cordilheira também trazem um prisioneiro, que vem tropeçando entre os cavalos, com uma corda ao pescoço.
No alto de uma colina rasa, Putapichun crava sua lança de três pontas. Faz desamarrar o prisioneiro e atira um galho aos seus pés.
Diga o nome dos capitães mais valentes do teu exército.
Não os conheço – gagueja o soldado.
Diga um nome – ordenou Putapichun.
Não lembro.
Um.
E diz o nome do pai de Francisco.
Outro.
E diz outro. A cada nome, deve quebrar um ramo do galho. Francisco assiste à cena com os dentes apertados. O soldado diz o nome de doze capitães: tem doze pauzinhos na mão.
Agora, cava um buraco.
O prisioneiro atira no fundo os pauzinhos, um por um, repetindo os nomes.
Atira terra. Cobre esses paus.
Então, sentenceia Putapichun:
Já estão enterrados os doze valentes capitães.
E o verdugo faz despencar sobre o prisioneiro o bastão eriçado de pregos.
Arrancam seu coração. Oferecem a Maulicán o primeiro sorvo de sangue. A fumaça do tabaco flutua no ar, enquanto o coração passa de mão em mão.
Depois Putapichun, veloz na guerra e lento na fala, diz a Maulicán:
Viemos comprar o capitão que você leva. Sabemos que é filho de Álvaro, o grande chefe por quem nossas terras tremeram.
Oferece-lhe uma de suas filhas, cem ovelhas de Castilha, cinco lhamas, três cavalos com sela lavrada e vários colares de pedras ricas:
Com tudo isso, pode-se pagar dez espanhóis e ainda sobra.
Francisco engole saliva. Maulicán olha para o chão. Depois, diz:
Antes, devo levá-lo para que meu pai o veja, e também os outros chefes da comarca de Repocura. Quero mostrar-lhes esta prenda de meu valor.
Esperaremos – aceita Putapichun.
Anda a minha vida nascendo de morte em morte”, pensa Francisco. Zunem seus ouvidos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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