Putapichun
Depois de pouco andar, veem chegando
uma multidão da distante cordilheira. Maulicán dá com os
calcanhares em seu cavalo e adianta-se ao encontro do cacique
Putapichun.
Os da cordilheira também trazem um
prisioneiro, que vem tropeçando entre os cavalos, com uma corda ao
pescoço.
No alto de uma colina rasa, Putapichun
crava sua lança de três pontas. Faz desamarrar o prisioneiro e
atira um galho aos seus pés.
– Diga o nome dos capitães mais
valentes do teu exército.
– Não os conheço – gagueja o
soldado.
– Diga um nome – ordenou
Putapichun.
– Não lembro.
– Um.
E diz o nome do pai de Francisco.
– Outro.
E diz outro. A cada nome, deve quebrar
um ramo do galho. Francisco assiste à cena com os dentes apertados.
O soldado diz o nome de doze capitães: tem doze pauzinhos na mão.
– Agora, cava um buraco.
O prisioneiro atira no fundo os
pauzinhos, um por um, repetindo os nomes.
– Atira terra. Cobre esses paus.
Então, sentenceia Putapichun:
– Já estão enterrados os doze
valentes capitães.
E o verdugo faz despencar sobre o
prisioneiro o bastão eriçado de pregos.
Arrancam seu coração. Oferecem a
Maulicán o primeiro sorvo de sangue. A fumaça do tabaco flutua no
ar, enquanto o coração passa de mão em mão.
Depois Putapichun, veloz na guerra e
lento na fala, diz a Maulicán:
– Viemos comprar o capitão que você
leva. Sabemos que é filho de Álvaro, o grande chefe por quem nossas
terras tremeram.
Oferece-lhe uma de suas filhas, cem
ovelhas de Castilha, cinco lhamas, três cavalos com sela lavrada e
vários colares de pedras ricas:
– Com tudo isso, pode-se pagar dez
espanhóis e ainda sobra.
Francisco engole saliva. Maulicán
olha para o chão. Depois, diz:
– Antes, devo levá-lo para que meu
pai o veja, e também os outros chefes da comarca de Repocura. Quero
mostrar-lhes esta prenda de meu valor.
– Esperaremos – aceita Putapichun.
“Anda a minha vida nascendo de morte
em morte”, pensa Francisco. Zunem seus ouvidos.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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