Nossa vida, na bela cidade dos
califas, tornava-se, dia a dia, cada vez mais agitada e trabalhosa. O
vizir Maluf encarregou-me de copiar dois livros do filósofo
Rhazer(1). São livros que encerram conhecimentos de Medicina. Leio
em suas páginas indicações de alto valor sobre o tratamento do
sarampo, a cura das enfermidades da infância, dos rins, das
articulações e de mil outros males que afligem os homens. Preso por
esse trabalho, fiquei impossibilitado de continuar a assistir às
aulas de Beremiz em casa do cheique Iezid.
Pelas informações que ouvi do meu
amigo calculista, a “aluna invisível”, nas últimas semanas,
fizera extraordinários progressos na ciência de Bháskara. Já
conhecia quatro operações com os números, os três primeiros
livros de Euclides e calculava as frações com numerador 1, 2 ou
3(2).
Certo dia, ao cair da tarde, íamos
iniciar a nossa modesta refeição, que consistia apenas em meia
dúzia de pastéis de carneiro com cebolas, mel, farinha e azeitonas,
quando ouvimos na rua grande tropel de cavalos e, em seguida, gritos,
vozes de comando e pragas de soldados turcos.
Levantei-me um pouco assustado. Que
teria acontecido? Tive a impressão de que a hospedaria fora cercada
por tropa e que outra violência ia ser levada a efeito por ordem do
intolerante chefe de Polícia.
A algazarra inesperada não perturbou
Beremiz. Inteiramente alheio aos acontecimentos da rua, continuou,
como se achava, a traçar, com um pedaço de carvão, figuras
geométricas numa grande prancha de madeira. Extraordinário, aquele
homem! As agitações mais graves, o perigo, as ameaças dos
poderosos não conseguiam desviá-lo de seus estudos matemáticos. Se
Asrail, o Anjo da Morte, surgisse ali, de repente, trazendo na lâmina
do candjar a sentença do Irremediável, ele continuaria impassível
a traçar curvas, ângulos e a estudar as propriedades das figuras,
das relações e dos números.
O pequeno aposento em que nos
achávamos foi invadido pelo velho Salim, que se fazia acompanhar de
dois servos negros e um cameleiro. Mostravam-se todos
assustadíssimos, como se algo muito grave tivesse ocorrido.
— Por Alá! — gritei impaciente. —
Não perturbem o nosso calculista! Que algazarra é essa? Temos nova
revolta em Bagdá? Desabou a mesquita de Colimã?
— Senhor — gaguejou o velho Salim,
com voz trêmula de susto —, a escolta... Uma escolta de soldados
turcos acaba de chegar!
— Pelo santo nome de Maomé! Que
escolta é essa, ó Salim?
— É a escolta do poderoso
grão-vizir Ibraim Maluf el Barad (que Alá o cubra de benefícios!).
Os soldados vieram com ordem de levar, imediatamente, o calculista
Beremiz Samir!
— Para que tanta bulha, ó chacais!
— bradei, exaltado. — Isso não tem importância alguma!
Naturalmente o vizir, nosso bom amigo e protetor, deseja resolver,
com urgência, um problema de matemática, e precisa do valioso
auxílio do nosso sábio calculista!
As minha previsões saíram certas
como os cálculos mais perfeitos de Beremiz.
Momentos depois, levados pelos
oficiais da escolta, chegamos ao palácio do vizir Maluf.
Encontramos o poderoso ministro no
rico salão das audiências, acompanhado de três auxiliares de sua
confiança. Tinha na mão uma folha cheia de números e cálculos.
Que novo problema seria aquele que
viera perturbar tão profundamente o espírito do digno auxiliar do
califa?
— O caso é grave, ó Calculista! —
começou o vizir, dirigindo-se a Beremiz. — Acho-me, no momento,
embaraçado com um dos mais complicados problemas que tenha visto em
toda a minha vida. Quero informar-vos minuciosamente dos antecedentes
do caso, pois só com vosso auxílio poderemos, talvez, descobrir uma
solução.
E o vizir narrou o seguinte:
— Anteontem, poucas horas antes de
nosso glorioso califa Al-Motacém, Emir dos Crentes, partir para
Báçora (onde vai ficar três semanas), houve um incêndio na
prisão. Durante muitas horas a violência do fogo ameaçou destruir
tudo. Os detentos, fechados em suas celas, sofreram, por muito tempo,
tremendo suplício, torturados por indizíveis angústias. Diante
disso, o nosso generoso soberano determinou fosse reduzida à metade
a pena de todos os condenados! A princípio não demos importância
alguma ao caso, pois parecia muito simples ordenar se cumprisse, com
todo o rigor, a sentença do rei. No dia seguinte, porém, quando a
caravana do Príncipe dos Crentes já se achava longe, verificamos
que a tal sentença de última hora envolvia problema extremamente
delicado, sem a solução do qual não poderia ter perfeita execução.
— Entre os detentos — prosseguiu o
ministro — beneficiados pela lei, existe um contrabandista de
Báçora, chamado Sanadique, preso há quatro anos, condenado a
prisão perpétua. A pena desse homem deve ser reduzida à metade.
Ora, como ele foi condenado à prisão por toda a vida, segue-se que
deverá agora, em virtude da lei, ser perdoado da metade da pena, ou
melhor, da metade do tempo que ainda lhe resta viver. Viverá ele,
ainda, certo tempo “x”, desconhecido! Como dividir por dois um
período de tempo que ignoramos? Como calcular a metade do “x” da
vida?
Depois de meditar alguns minutos,
Beremiz respondeu:
— Esse problema parece-me
extremamente delicado, por envolver questão de pura Matemática e
interpretação de lei. É um caso que interessa à justiça dos
homens e à verdade dos números. Não posso discuti-lo, com os
prodigiosos recursos da Álgebra e da Análise, antes de visitar a
cela em que se acha o condenado Sanadique. É possível que o “x”
da vida esteja calculado pelo Destino, na parede da cela do próprio
condenado.
— Julgo infinitamente estranho o
vosso alvitre — observou o vizir. — Não me entra na cabeça a
relação que possa existir entre as pragas com que os loucos e os
condenados adornam os muros das prisões e a resolução algébrica
de tão delicado problema.
— Sidi! — atalhou Beremiz. —
Encontram-se, muitas vezes, nas paredes das prisões, legendas
interessantes, fórmulas, versos e inscrições que nos esclarecem o
espírito e nos orientam os sentimentos de bondade e clemência.
Conta-se que, certa vez, o rei Mazim, senhor da rica província de
Korassã, foi informado de que um presidiário hindu escrevera
palavras mágicas na parede de sua cela. O rei Mazim chamou um
escriba diligente e hábil e determinou-lhe copiasse todas as letras,
figuras, versos ou números que encontrasse nas paredes sombrias da
prisão. Muitas semanas gastou o escriba para cumprir, na íntegra, a
ordem extravagante do rei. Afinal, depois de pacientes esforços,
levou ao soberano dezenas de folhas cheias de símbolos, palavras
ininteligíveis, figuras disparatadas, blasfêmias de loucos e
números inexpressivos. Como traduzir ou decifrar aquelas páginas
repletas de coisas incompreensíveis? Um dos sábios do país,
consultado pelo monarca, disse: “Rei! Essas folhas contêm
maldições, pragas, heresias, palavras cabalísticas, lendas e até
um problema de Matemática com cálculos e figuras.”
Respondeu o rei: “As maldições,
pragas e heresias não acordam a curiosidade que me vive no espírito.
As palavras cabalísticas deixam-me indiferente; não acredito no
poder oculto das letras nem na força misteriosa dos símbolos
humanos. Interessa-me, entretanto, conhecer o verso, o problema e a
lenda, pois são produções que nobilitam o homem e podem trazer
consolo ao aflito, ensinamento ao leigo e advertência ao poderoso.”
Diante do pedido do monarca, disse o
ulemá:
— Eis os versos escritos por um dos
condenados:
A felicidade é difícil porque
somos muito difíceis em matéria de felicidade.
Não fales da tua felicidade a
alguém menos feliz do que tu.
Quando não se tem o que se ama é
preciso amar o que se tem.(3)
Eis agora o problema escrito a carvão
na cela de um condenado.
Colocar 10 soldados em cinco filas, tendo cada fila 4 soldados.
Esse problema, aparentemente
impossível, tem solução muito simples, indicada pela figura, na
qual aparecem cinco filas com 4 soldados em cada.
E a seguir o ulemá, para atender ao
pedido do rei, leu a seguinte lenda:
“Conta-se que o jovem Tzu-Chang
dirigiu-se um dia ao grande Confúcio e perguntou-lhe:
— Quantas vezes, ó esclarecido
filósofo, deve um juiz refletir antes de sentenciar?
Respondeu Confúcio:
— Uma vez hoje; dez vezes amanhã.
Assombrou-se o príncipe Tzu-Chang ao
ouvir as palavras do sábio. O conceito era obscuro e enigmático.
— Uma vez será suficiente —
elucidou com paciência o Mestre — quando o juiz, pelo exame da
causa, concluir pelo perdão. Dez vezes, porém, deverá o magistrado
pensar, sempre que se sentir inclinado a lavrar sentença
condenatória.
E concluiu, com sua incomparável
sabedoria:
— Erra, por certo, gravemente,
aquele que hesita em perdoar; erra, entretanto, muito mais ainda aos
olhos de Deus, aquele que condena sem hesitar.”
Admirou-se o rei Mazim ao saber que
havia, nas paredes úmidas das enxovias, escrita pelos míseros
detentos, tanta coisa cheia de beleza e curiosidade. Naturalmente, em
meio de quantos amarguravam seus dias no fundo das celas, havia
inteligentes e cultos. Determinou, pois, o rei, fossem revistos todos
os processos de julgamento e verificou que inúmeras sentenças
traduziam clamorosas injustiças. E assim, em consequência da
descoberta feita pelo escriba, viram-se restituídos à liberdade
muitos inocentes e foram reparadas dezenas de erros judiciários.
— Tudo isso pode ser muito
interessante — retorquiu o vizir Maluf. — Mas é bem possível
que nas prisões de Bagdá não se possa encontrar figuras
geométricas, versos ou lendas morais. Quero ver, porém, o resultado
a que pretendeis chegar. Vou permitir, portanto, a vossa visita à
prisão.
Notas:
(1) O maior vulto da antiga ciência
muçulmana. Em seus livros muitas gerações estudaram Medicina.
(2) Os matemáticos árabes não
dispunham de nomes para designar os termos das frações.
(3) Mme. de Staël; Pitágoras;
Corneille.
Malba Tahan, em O Homem que Calculava



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