sexta-feira, 22 de maio de 2026

O Apanhador no Campo de Centeio — 21


21

Há muito tempo não dava tanta sorte. Quando cheguei em casa, o ascensorista da noite, Pete, não estava lá, e o substituto dele era um sujeito que eu nunca tinha visto antes. Aí tive a certeza de que, se não desse de cara com meus pais e tudo, ia mesmo conseguir falar com a Phoebe e dar o fora, sem que ninguém no mundo soubesse que eu tinha estado em casa. Era mesmo uma sorte infernal. E, para melhorar a estória, o novo ascensorista parecia meio sobre o imbecil. Disse a ele, com a voz mais natural do mundo, que me levasse ao andar dos Dickstein. Os Dickstein eram uma família que morava no outro apartamento do nosso andar. Eu já tinha guardado meu chapéu de caça para não dar pinta de maluco nem nada. Entrei no elevador como se estivesse com uma pressa danada.
O sujeito já tinha fechado a porta e tudo, e estava pronto para subir, quando se virou para mim e disse:
Eles não estão em casa. Estão numa festa no quatorze.
Não faz mal respondi sou sobrinho deles e combinei que ia esperar.
Ele me olhou meio desconfiado, com aquela cara de palerma.
É melhor esperar por eles aqui embaixo, companheiro.
Bem que gostaria... no duro falei. Mas o negócio é que eu sou meio aleijado de uma perna e tenho que ficar com ela numa certa posição. Acho melhor me sentar naquela cadeira que fica no hall do apartamento.
Ele não entendeu patavina, por isso só fez dizer "Ah, sei" e me levou. É engraçado, basta a gente dizer alguma coisa que ninguém entende para que façam praticamente tudo que a gente quer.
Saltei no nosso andar capengando como um doido e comecei a caminhar para o lado dos Dickstein. Aí, quando ouvi a porta do elevador se fechar, dei meia volta e fui para o nosso apartamento. Estava tudo correndo conforme o figurino. Nem me sentia mais de pileque. Tirei minha chave e abri a porta, bem de leve. Aí, com o maior cuidado e tudo, entrei e fechei a porta. Eu devia ter nascido ladrão.
O vestíbulo estava escuro pra chuchu, como era de se esperar, e naturalmente eu não podia acender a luz. Precisava ter cuidado para não esbarrar em nada e fazer um pandemônio dos diabos. Mas tinha a certeza de que estava em casa. O nosso vestíbulo cheira diferente de qualquer outro lugar. Não sei que diabo é. Não é couve-flor nem é perfume sei lá que porcaria é mas a gente sente logo que está em casa. Comecei a tirar o sobretudo para pendurar no armário do vestíbulo, mas mudei de ideia porque aquele armário vive entupido de cabides e faz um barulhão infernal quando a gente abre a porta. Aí fui andando bem devagarinho pelo corredor, na direção do quarto da Phoebe. Sabia que a empregada não ia me ouvir, porque ela só tinha um tímpano. Quando era criança, o irmão dela tinha lhe enfiado um canudo no ouvido. Era um bocado surda e tudo. Mas com meus pais a coisa era outra principalmente minha mãe, que tinha um ouvido de perdigueiro. Pisei macio pra burro quando passei pela porta deles. Pra falar a verdade, até prendi a respiração. Quando meu pai está dormindo, a gente pode dar uma cadeirada na cabeça dele que o velho não acorda; mas, para minha mãe acordar, basta a gente tossir lá pras bandas da Sibéria. Ela é nervosa pra chuchu. Quase sempre passa a noite toda acordada, fumando.
Afinal, mais ou menos uma hora depois, cheguei ao quarto da Phoebe. Ela não estava lá. Tinha-me esquecido. Ela sempre dorme no quarto do D. B. quando ele está em Hollywood ou outro lugar qualquer. Ela gosta de ficar lá porque é o maior quarto da casa. E também por causa da escrivaninha maluca que tem lá, que o D. B. comprou de uma mulher alcoólatra em Filadélfia, e da cama enorme, gigantesca, de dez quilômetros de comprimento por dez de largura. Não sei onde ele conseguiu comprar aquela cama. Seja como for, a Phoebe adora dormir no quarto do D. B. quando ele está fora, e ele não se importa. Vale a pena ver a Phoebe fazendo os trabalhos de casa naquela escrivaninha maluca. É quase tão grande quanto a cama, mas a Phoebe adora um troço desses. Não gosta do quarto dela porque acha muito pequeno. Ela diz que precisa se espalhar, e eu me esbaldo com isso. O que é que ela tem para espalhar? Nada.
De qualquer forma, entrei de mansinho no quarto do D. B. e acendi a luz da escrivaninha. Phoebe nem acordou. Fiquei olhando para ela, com a luz acesa e tudo. Estava espichada ali, dormindo, com o rosto meio de lado, para fora do travesseiro. A boca entre-aberta. É gozado, os adultos ficam horríveis quando estão dormindo de boca aberta, mas as crianças não. As crianças ficam cem por cento. Podem até ter babado todo o travesseiro, que continuam cem por cento.
Dei uma volta pelo quarto, bem devagar e tudo, olhando as coisas. Para variar, estava me sentindo muito bem. Nem me lembrei mais que podia ter apanhado uma pneumonia nem nada. Só para variar, estava me sentindo bem e mais nada. A roupa da Phoebe estava em cima da cadeira, perto da cama. Para uma criança, ela é muito arrumada. Por exemplo, não atira as coisas dela por todos os lados, como a maioria das crianças. Não é nenhuma relaxada. O casaco do costume havana que minha mãe havia trazido do Canadá estava nas costas da cadeira. A blusa e os outros troços estavam no assento. Os sapatos e as meias no chão, debaixo da cadeira, bem juntinho um do outro. Nunca tinha visto aqueles sapatos, deviam ser novos. Eram uns mocassins marron-escuro, parecidos com os meus, e combinavam um bocado com o costume que minha mãe tinha comprado no Canadá. Minha mãe veste a Phoebe muito bem, no duro. Minha mãe tem um gosto infernal para certas coisas. Não tem lá muito jeito para comprar patins de gelo ou coisa parecida, mas em matéria de roupa ela é o fino.
A Phoebe está quase sempre com uns vestidos do barulho. Acontece que a maioria das meninas, mesmo quando os pais são ricos e tudo, em geral usam uns vestidos horrorosos. Mas dava gosto ver a Phoebe com aquele costume que minha mãe tinha trazido do Canadá.
Sentei diante da escrivaninha do D. B. e fiquei olhando os troços que estavam ali por cima. Eram as coisas da Phoebe, da escola e tudo. O que mais tinha era livro. Em cima da pilha estava o Aritmética é Divertido. Abri na primeira página para dar uma olhada. Phoebe tinha escrito:

PHOEBE WEATHERFIELD CAULFIELD

4B – 1

Me esbaldei. O segundo nome dela é Josephine, e não Weatherfield. Mas ela não gosta e, por isso, cada vez que a vejo ela está usando um novo segundo nome.
Debaixo do livro de aritmética tinha um de geografia e, mais em baixo, um de ortografia. Esse é o tipo da coisa em que ela é ótima. Ela é ótima em todas as matérias, mas é melhor mesmo em ortografia. Mais para baixo havia uma porção de cadernos. Ela tem uns cinco mil cadernos. Nunca vi ninguém que tivesse tantos cadernos. Tirei o de cima e dei uma olhada na primeira folha. Estava escrito:

Berenice me procura no recreio que eu tenho uma coisa muito importante para te contar.
Não havia mais nada naquela página. Na seguinte estava escrito:
Por que há tantas fábricas de conservas no sudeste do Alaska?
Porque lá tem muito salmão.
Por que possui florestas valiosas?
Porque tem o clima adequado.
Que providências tomou nosso Governo para melhorar a vida dos esquimós?
estudar para amanhã!!!
Phoebe Weatherfield Caulfield
Phoebe Weatherfield Caulfield
Phoebe Weatherfield Caulfield
Phoebe W. Caulfield
Dra. Phoebe Weatherfield Caulfield
Favor passar adiante para Shirley!!!
Shirley você disse que era sagitário mas não passa de touro traga os patins quando for lá para casa

Ali, sentado na escrivaninha do D. B., li o caderno inteiro. Não me tomou muito tempo e posso passar o dia e a noite lendo um troço desses, seja caderno da Phoebe ou de qualquer outra criança. E morro de rir. Aí acendi outro cigarro era o meu último. Acho que naquele dia fumei uns vinte maços. Então, finalmente, acordei a Phoebe. Não podia ficar o resto da vida sentado naquela escrivaninha e, além do mais, estava com medo de que meus pais aparecessem de repente. Antes disso, queria pelo menos conversar um pouquinho com a Phoebe. Por isso tratei de acordá-la.
Ela acorda com muita facilidade. Quer dizer, não é preciso gritar nem nada. Praticamente, basta a gente se sentar ao lado dela na cama e dizer: "Acorda, Phoebe" e pronto, ela acorda.
Holden ela disse imediatamente. Passou o braço em volta do meu pescoço e tudo. Ela é muito carinhosa. Muito carinhosa para uma criança. Às vezes ela é até carinhosa demais. Dei uma espécie de beijo nela, e ela perguntou:
Quando é que você chegou?
Estava vibrando com a minha chegada, era evidente.
Fala mais baixo. Cheguei agorinha mesmo. Tudo bem com você?
Tudo bem. Recebeu minha carta? Te escrevi uma carta de cinco páginas...
Recebi sim, mas fala mais baixo. Gostei muito.
Ela tinha me escrito uma carta que eu não respondi. Falava da peça em que ela ia representar na escola. Mandou-me dizer que não marcasse nenhum programa para sexta-feira, para que eu pudesse assistir à peça.
Como vai a peça? perguntei. Como é mesmo o nome dela?
"Um Desfile de Natal para os Americanos". A peça é uma droga, mas eu faço o papel do Benedict Arnold. Meu papel é muito bom. Tenho praticamente a melhor parte.
Puxa, a esta altura ela já estava completamente acordada. Fica logo excitada com esse tipo de troço.
A peça começa quando eu estou morrendo. Um fantasma me aparece na véspera de Natal e pergunta se eu tenho vergonha, etc. Sabe como é... de ter traído meu país, etcétera e tal. Você vai ver?
Ela estava quase em pé na cama.
Foi sobre isso que eu escrevi para você. Você vai ver?
Claro que vou. Naturalmente que vou.
Papai não vai poder. Tem que viajar para a Califórnia ela disse.
Puxa, como ela estava acordada. Bastam dois segundos para ela acordar completamente. Estava meio ajoelhada lá para os lados da cabeceira da cama e segurava a droga da minha mão.
Escuta. Mamãe disse que você ia chegar na quarta-feira. Mamãe disse que era na quarta-feira.
Me deixaram sair antes. Fala mais baixo, se não você acorda todo mundo.
Que horas são? Eles só vão chegar muito tarde, mamãe é que disse. Foram a uma festa em Norwalk, Connecticut. Adivinha o quê que eu fiz hoje de tarde! Que filme que eu vi? Adivinha só!
Não sei... Escuta, eles não disseram a que horas…
"O Médico". É um filme especial exibido na Fundação Lister. Só ia ser passado uma vez hoje só. É a estória de um médico do Kentucky que mete um cobertor no rosto de uma garota aleijada que não podia andar. Aí mandam ele para a cadeia e tudo. É ótimo.
Espera aí, presta atenção um minuto. Eles não disseram a que horas...
Ele tem pena dela, o doutor. É por isso que ele mete o cobertor na cara dela e tudo, e sufoca ela. Aí mandam ele para a cadeia, condenado à prisão perpétua, mas essa menina que ele meteu o cobertor na cara dela vai sempre visitá-lo, e agradecer pelo que ele fez. Ele tinha matado por piedade. Mas ele sabe que merece ir para a cadeia, porque um médico não tem o direito de tirar as coisas de Deus. Quem me levou foi a mãe de uma colega de turma, a Alice Holmborg. É a minha melhor amiga. É a única na turma inteira que...
Quer fazer o favor de parar um instante? Estou te fazendo uma pergunta. Eles disseram a que horas vão voltar, ou não?
Não, mas só vão voltar muito tarde. Papai levou o carro e tudo para não ter que se preocupar com o trem. Ele mandou botar um rádio no carro! Mas mamãe disse que ninguém pode ligar o rádio no meio do trânsito.
Comecei a ficar mais descansado. Quer dizer, finalmente deixei de me preocupar se eles iam me pegar em casa ou não. Resolvi não me importar mais. Se pegassem, pegavam e pronto.
Valia a pena ver a pinta da Phoebe, com um daqueles pijamas com elefantes vermelhos na gola. Ela é tarada por elefantes.
Quer dizer que foi um bom filme, hem? perguntei.
Infernal. Só que a Alice estava resfriada e a mãe dela ficou o tempo todo perguntando se ela havia se constipado. Bem no meio do filme. Sempre no meio de alguma cena importante, a mãe dela se jogava toda por cima de mim para perguntar a Alice se ela havia se constipado. Esse negócio me deixou furiosa.
Aí contei para ela a estória do disco.
Escuta, comprei um disco para você, mas ele quebrou quando eu estava vindo para casa.
Tirei os pedacinhos do bolso do casaco.
Eu estava meio alto...
Me dá os pedaços. Vou guardar...
Praticamente arrancou os pedaços da minha mão e guardou tudo na mesinha de cabeceira. Não posso mesmo com ela.
O D. B. vem passar o Natal em casa? - perguntei.
Talvez sim, talvez não. Pelo menos foi o que mamãe disse. Tudo depende. Talvez tenha que ficar em Hollywood e escrever um filme sobre Anápolis.
Anápolis? Essa não!
É uma estória de amor e tudo. Adivinha quem vai trabalhar no filme. Que artista? Adivinha!
Tou pouco ligando. Anápolis! O quê que ele entende de Anápolis? Veja só! O quê que tem isso a ver com o tipo de estórias que ele escreve?
Puxa, um troço desses me deixa maluco. Aquela droga de Hollywood...
Quê que houve com o teu braço? perguntei. Ela tinha um baita dum curativo de esparadrapo no cotovelo. Só vi isso porque o pijama dela não tinha manga.
Tem um garoto, um tal de Curtis Weintraub, lá da minha turma, que me empurrou quando eu estava descendo a escada do parque. Quer ver?
Começou a tirar o esparadrapo do cotovelo.
Não, não mexe nisso. Por que é que ele te empurrou na escada?
Sei lá. Acho que ele tem raiva de mim. Eu e uma amiga minha, a Selma Alterbury, derramamos tinta e uma porção de troços no casaco de couro dele.
Isso não se faz. Afinal, que diabo, isso é coisa de criancinha.
Eu sei, mas sempre que vou ao parque ele fica me seguindo por tudo quanto é lugar. Ele está sempre andando atrás de mim, e isso me dá raiva.
Talvez ele goste de você. E isso não é motivo para derramar tinta...
Não quero que ele goste de mim.
Aí ela começou a olhar para mim com um jeito meio esquisito.
Holden, por que é que você veio para casa antes de quarta-feira?
O quê?
Puxa, é preciso a gente ficar de olho nela o tempo todo. Quem pensa que ela não é muito esperta é trouxa.
Por quê que você não veio pra casa só na quarta-feira? Você não foi expulso nem nada, foi?
Já te disse. Eles deixaram a gente sair mais cedo. Deixaram todo mundo...
Você foi expulso! Foi!
Aí me deu um murro na perna. Ela sabe dar os seus soquinhos.
Você foi expulso! Não é, Holden?
Ela estava cobrindo a boca com a mão e tudo. É um bocado emotiva, no duro.
Quem é que disse que eu fui expulso? Eu não disse.
Aí me deu outra cutucada. E olha que dava para machucar.
Papai vai te fazer nem sei o quê.
Aí ela se jogou de bruços na cama e botou a droga do travesseiro em cima da cabeça. Ela faz muito isso. De vez em quando parece uma alucinada.
Para com isso, tá? eu disse. Ninguém vai me fazer nada. Ninguém vai nem mesmo... Chega Phoebe, tira a porcaria desse troço da cabeça. Não vai me acontecer nada...
Mas cadê que ela tirava. Ninguém a obriga a fazer uma coisa quando ela não quer. Só fazia repetir: "Papai dessa vez te mata". A gente mal conseguia ouvir o que ela dizia, com a cabeça enfiada debaixo daquela droga daquele travesseiro.
Ninguém vai me matar. Deixa de ser boba. Em primeiro lugar, vou embora. Sabe o quê eu vou fazer? Vou trabalhar uns tempos numa fazenda. Conheço um camarada que tem um avô que tem um rancho no Colorado. Talvez ele me arranje um emprego por lá. Vou escrever sempre para você e tudo, quando estiver lá, tá bom? Agora, para, tira isso dá cabeça. Vamos, Phoebe, anda. Por favor. Tira isso da cabeça, por favor.
Mas qual nada. Tentei arrancar o travesseiro, mas ela é forte pra burro. Não há quem aguente brigar com a Phoebe. Se resolve ficar com a cabeça enfiada embaixo do travesseiro, fica mesmo.
Phoebe, por favor. Tira o travesseiro da cabeça. Vamos... Êi, Weatherfield, sai daí...
Mas não havia jeito dela sair. Às vezes é impossível querer argumentar com ela. Finalmente, fui até a sala e tirei uma porção de cigarros da caixa e enfiei no bolso. Os meus tinham acabado.

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

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