107.
Sou daquelas almas que as mulheres
dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram; daquelas que, se
elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a
delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho
todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos,
mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta
romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como
protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como
da minha alma, é não ser nunca protagonista.
Não tenho uma ideia de mim próprio;
nem aquela que consiste num a falta de ideia de mim próprio. Sou um
nómada da consciência de mim. Tresmalharam-se à primeira guarda os
rebanhos da minha riqueza íntima.
A única tragédia é não nos
podermos conceber trágicos. Vi sempre nitidamente a minha
coexistência com o mundo. Nunca senti nitidamente a minha falta de
coexistir com ele; por isso nunca fui um normal.
Agir é repousar.
Todos os problemas são insolúveis. A
essência de haver um problema é não haver uma solução. Procurar
um facto significa não haver um facto.
Pensar é não saber existir.
Passo horas, às vezes, no Terreiro do
Paço, à beira do rio, meditando em vão. A minha impaciência
constantemente me quer arrancar desse sossego, e a minha inércia
constantemente me detém nele. Medito, então, num a modorra de
físico, que se parece com a volúpia apenas como o sussurro de vento
lembra vozes, na eterna insaciabilidade dos meus desejos vagos, na
perene instabilidade das minhas ânsias impossíveis. Sofro,
principalmente, do mal de poder sofrer. Falta-me qualquer coisa que
não desejo e sofro por isso não ser propriamente sofrer.
O cais, a tarde, a maresia entram
todos, e entram juntos, na composição da minha angústia. As
flautas dos pastores impossíveis não são mais suaves que o não
haver aqui flautas e isso lembrar-mas. Os idílios longínquos, ao pé
de riachos, doem-me esta hora análoga por dentro.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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