– Sabe quem chegou ontem de São
Paulo? perguntou-me uma noite o Luís Dutra.
O Luís Dutra era um primo de
Virgília, que também privava com as musas. Os versos dele agradavam
e valiam mais do que os meus; mas ele tinha necessidade da sanção
de alguns, que lhe confirmasse o aplauso dos outros. Como fosse
acanhado, não interrogava a ninguém; mas deleitava-se com ouvir
alguma palavra de apreço; então criava novas forças e arremetia
juvenilmente ao trabalho.
Pobre Luís Dutra! Apenas publicava
alguma coisa, corria à minha casa, e entrava a girar em volta de
mim, espreita de um juízo, de uma palavra, de um gesto, que lhe
aprovasse a recente produção, e eu falava-lhe de mil coisas
diferentes, – do último baile do Catete, da discussão das
câmaras, de berlindas e cavalos, – de tudo, menos dos seus versos
ou prosas. Ele respondia-me, a principio com animação, depois mais
frouxo, torcia a rédea da conversa para o assunto dele, abria um
livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que
sim ou que não, mas torcia a rédea para o outro lado, e lá ia ele
atrás de mim, até que empacava de todo e sala triste. Minha
intenção era fazê-lo duvidar de si mesmo, desanimá-lo,
eliminá-lo. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz…
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

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