quinta-feira, 21 de maio de 2026

4 – A perseguição




Os gritos histéricos das mulheres silenciaram, os apitos da polícia pararam de martelar e duas ambulâncias chegaram: uma levou o corpo decapitado e a cabeça cortada para o necrotério, e a outra, a bela motorneira ferida pelos estilhaços de vidro; varredores de aventais brancos limparam os estilhaços de vidro e cobriram as poças de sangue com areia. Já Ivan Nikoláievitch caiu no banco, sem alcançar a catraca, e do jeito que caiu, ficou.
Tentou se levantar várias vezes, mas as pernas não lhe obedeciam — algo parecido à paralisia havia atingido Bezdômny.
O poeta pusera-se a correr até a catraca assim que ouviu o primeiro berro e viu como a cabeça pulava pela calçada. Ele ficou tão enlouquecido por causa disso que caiu sentado no banco e mordeu sua mão até sangrar. É claro que já tinha esquecido o alemão louco e tentava entender só uma coisa: como era possível, agorinha mesmo ele estava falando com Berlioz e, um minuto depois, a cabeça...
Pessoas passavam alvoroçadas, correndo pela aleia diante do poeta, exclamando algo, mas Ivan Nikoláievitch não assimilava suas palavras.
No entanto, ao lado dele duas mulheres se chocaram, do nada, e uma delas, de nariz afilado e cabeça descoberta, gritou assim para a outra mulher, bem no ouvido do poeta:
Ánnuchka, foi a nossa Ánnuchka! Da Sadôvaia! Foi obra dela! Comprou óleo de girassol na mercearia, deixou cair e quebrou um litro sobre a catraca! Emporcalhou a saia toda... E xingou, nossa, xingou tanto! E ele, coitado, deve ter escorregado e caiu nos trilhos...
De tudo que a mulher gritou, só uma palavra grudou no cérebro transtornado de Ivan Nikoláievitch: “Ánnuchka”...
Ánnuchka... Ánnuchka? — balbuciou o poeta, olhando para os lados, aflito. — Espere, espere aí...
À palavra “Ánnuchka” juntaram-se as palavras “óleo de girassol” e então, sabe-se lá por quê, “Pôncio Pilatos”. O poeta descartou Pilatos e passou a fazer as conexões, passou pela palavra “Ánnuchka”. E essa rede de conexões formou-se com rapidez e, no mesmo instante, levou ao professor louco.
Espere aí. Mas foi ele mesmo que disse que não haveria reunião porque Ánnuchka derramaria óleo. E, façam-me o favor, não haverá reunião mesmo! Mas isso não é nada: ele não disse com todas as letras que uma mulher cortaria a cabeça de Berlioz?! Sim, sim, sim! A condutora era uma mulher! O que é isso? Hein?
Não restava sombra de dúvida de que o misterioso consultor sabia com antecedência de toda a cena da terrível morte de Berlioz. Dois pensamentos atravessaram o cérebro do poeta. O primeiro: “Ele não tem nada de louco! É tudo bobagem.” E o segundo: “Será que não foi ele mesmo que armou isso tudo?”
Muito bem, mas me permitam perguntar: como assim?
Ah, não! Isso é o que vamos descobrir.
Fazendo um tremendo esforço, Ivan Nikoláievitch levantou-se do banco e correu de volta, para onde conversara com o professor. Felizmente, ele ainda não havia ido embora.
As luzes na Brônnaia já estavam acesas e sobre Patriarchi a lua dourada brilhava. À luz da lua, que sempre engana, pareceu a Ivan Nikoláievitch que o professor estava de pé segurando embaixo do braço não sua bengala, mas uma espada.
O regente aposentado e embromador estava sentado no mesmíssimo lugar onde ainda há pouco estava o próprio Ivan Nikoláievitch. Agora, o regente prendeu no nariz um pincenê visivelmente desnecessário, já que faltava uma das lentes e a outra estava rachada. Com isso, o cidadão de xadrez tornou-se ainda mais torpe do que no momento em que indicou a Berlioz o caminho para os trilhos.
Com o coração gelado, Ivan aproximou-se do professor e, encarando-o bem de perto, convenceu-se de que ali não havia nem houvera nenhum sinal de loucura.
Confesse, quem é o senhor? — perguntou Ivan, inaudível.
O estrangeiro franziu o cenho, lançou um olhar como se estivesse vendo o poeta pela primeira vez e respondeu com antipatia:
Não entender... não falar russo...
Ele não entende! — intrometeu-se o regente que estava sentado no banco, apesar de ninguém ter lhe pedido para explicar as palavras do estrangeiro.
Não finja! — disse Ivan ameaçadoramente, e sentiu um frio na barriga. — Agora mesmo estava falando russo perfeitamente. O senhor não é alemão e muito menos professor! O senhor é um assassino e espião! Seus documentos! — gritou Ivan furioso.
O enigmático professor entortou a boca, que já era torta, com aversão, e deu de ombros.
Cidadão! — de novo intrometeu-se o abominável regente. — Por que é que o senhor está incomodando o turista estrangeiro? Será severamente castigado por isso! — E o suspeito professor fez cara de soberba, deu as costas para Ivan e foi embora.
Ivan sentiu que estava confuso. Sufocando, dirigiu-se para o regente:
Ei, cidadão, ajude-me a prender o criminoso! É sua obrigação!
Extremamente animado, o regente saltou e vociferou:
Que criminoso? Onde ele está? Um criminoso estrangeiro? — Seus olhinhos faiscaram, radiantes. — Este? Se ele for criminoso, em primeiro lugar deve-se gritar “Socorro!”, senão ele vai embora. Então, vamos, juntos! De uma vez! — nesse instante o falso regente escancarou a goela.
Perplexo, Ivan obedeceu ao regente espertalhão e gritou “Socorro!”, mas este o enganou e nada gritou.
O grito solitário e rouco de Ivan não trouxe bons resultados. Duas moças se afastaram dele bruscamente, saltando para o lado, e ele ouviu a palavra “bêbado”.
Ah, então é isso, vocês estão mancomunados! — gritou Ivan, afundando em ira. — O que há com você, está me ridicularizando? Deixe-me em paz!
Ivan inclinou-se para a direita, e o regente também foi para a direita. Ivan foi para a esquerda, e o desgraçado o seguiu para o mesmo lado.
Está no meu pé de propósito? — gritou Ivan, virando bicho. — Eu mesmo vou entregar você à polícia!
Ivan fez uma tentativa de agarrar o canalha pela manga, mas errou o alvo e não pegou absolutamente nada. O regente sumiu como que por encanto.
Ivan ficou boquiaberto, olhou para longe e avistou o odioso desconhecido. Ele já estava na saída para a travessa Patriarchi, e não estava só. O mais do que duvidoso regente tinha conseguido se juntar a ele. Mas isso não era tudo: o terceiro desse bando era um gato, enorme como um porco castrado, preto como fuligem ou como uma gralha, que surgiu sabe-se lá de onde, com arrojados bigodes de cavalaria. A troica marchava na travessa Patriarchi e mais: o gato se movimentava nas duas patas traseiras.
Ivan precipitou-se atrás dos miseráveis e, no mesmo instante, convenceu-se de que seria muito difícil alcançá-los.
Num átimo, a troica cruzou a travessa e apareceu na Spiridônovka. Por mais que Ivan acelerasse o passo, não diminuía em nada a distância entre ele e os perseguidos. E, antes que o poeta pudesse cair em si, logo depois da silenciosa Spiridônovka, já se encontrava em Nikítskie Vorotá, onde sua situação se agravou. Ali havia uma multidão, Ivan esbarrou em um transeunte, foi xingado. Ainda por cima, a quadrilha de facínoras resolveu aplicar o método preferido dos bandidos: separar-se durante a fuga.
Com muita astúcia, o regente pegou um ônibus em movimento, que voava para a praça Arbat, e desapareceu. Depois de perder de vista um dos perseguidos, Ivan concentrou sua atenção no gato e viu como esse estranho animal aproximou-se do estribo do bonde “A”, parado em um ponto. Afugentou de forma insolente uma mulher que gritava, agarrou-se ao corrimão e fez até mesmo uma tentativa de enfiar uma moeda de dez copeques na mão da condutora pela janela aberta.
O comportamento do gato impressionou tanto Ivan que ele ficou paralisado perto da mercearia da esquina. E se impressionou ainda mais com a reação da condutora. A mulher, assim que avistou o gato se metendo no bonde, gritou com uma perversidade que a fazia até mesmo tremer:
Proibido para gatos! Proibido entrar com gatos! Chispa! Desça, senão vou chamar a polícia!
Nem a condutora nem os passageiros ficaram impressionados com o ponto crucial da questão: o fato de que um gato estivesse subindo num bonde não era nada, mas sim que ele tivesse a intenção de pagar a passagem!
O gato revelou não só ter dinheiro, mas também ser um animal disciplinado. Ao primeiro grito da condutora, ele cessou a ofensiva, desceu do estribo, sentou-se no ponto e pôs-se a alisar os bigodes com a moeda. Mas, assim que a condutora puxou a corda e o bonde arrancou, o gato agiu como qualquer outra pessoa que era expulsa do bonde, mas tinha de fazer a viagem de qualquer jeito. Depois de deixar passar na sua frente todos os três vagões, o gato saltou no aro traseiro do último, agarrou-se com a pata num cano que saía de uma das janelas e deu o fora, economizando, assim, dez copeques.
Ocupado com o gato asqueroso, Ivan quase perdeu o principal dos três, o professor. Mas, felizmente, ele não havia conseguido escapar. Ivan avistou a boina cinza bem no meio, no início da rua Bolcháia Nikítskaia, ou rua Hertzen. Num abrir e fechar de olhos, o próprio Ivan estava lá. No entanto, não teve sorte. O poeta apressava o passo, corria a trote, empurrando os transeuntes, mas não se aproximava um centímetro sequer do professor.
Por mais que Ivan estivesse transtornado, mesmo assim ficava impressionado com a velocidade sobrenatural com a qual a perseguição transcorria. Não haviam passado nem vinte segundos após deixar Nikítskie Vorotá, e Ivan Nikoláievitch já era ofuscado pelas luzes da praça Arbat. Mais alguns segundos, e lá estava uma travessa escura com calçadas tortuosas, onde Ivan Nikoláievitch levou um tombo e arrebentou o joelho. De novo uma via iluminada — a rua Kropôtkin, depois uma travessa, depois a Ostôjenka e mais uma travessa desalentada, nojenta e mal iluminada. E foi ali que Ivan Nikoláievitch perdeu definitivamente aquele de quem tanto precisava. O professor desaparecera.
Ivan Nikoláievitch ficou perturbado, mas por pouco tempo, pois de repente percebeu que o professor deveria estar, sem dúvida, no edifício n° 13, com certeza no apartamento 47.
Ivan Nikoláievitch irrompeu na entrada, voou para o segundo andar, sem demora encontrou o apartamento e tocou a campainha, impaciente. Não precisou esperar muito: uma menina de uns cinco anos abriu-lhe a porta e, sem perguntar nada ao visitante, foi embora para algum lugar, sem demora.
A entrada, enorme e extremamente negligenciada, estava fracamente iluminada por uma lâmpada minúscula, sob um teto alto, negro de sujeira. Na parede havia uma bicicleta sem rodas pendurada, além de um enorme baú revestido de ferro e, em uma prateleira, em cima do cabideiro, um chapéu de inverno com seus longos tapa-orelhas pendentes. Por trás de uma das portas, uma voz masculina altissonante gritava algo em versos pelo rádio, enfurecida.
Ivan Nikoláievitch não ficou nem um pouco perplexo de estar naquele ambiente desconhecido e precipitou-se direto para o corredor, raciocinando: “É claro que ele se escondeu no banheiro.” O corredor estava escuro. Trombando na parede algumas vezes, Ivan avistou um feixe fraquinho de luz debaixo de uma porta, encontrou a maçaneta às apalpadelas e a puxou de leve. O trinco saltou e Ivan se viu exatamente no banheiro, pensando que havia tido sorte.
No entanto, a sorte não foi bem a que deveria ser! Um cheiro de calor úmido soprou na cara de Ivan e, sob a luz do carvão que ardia no aquecedor, ele discerniu grandes bacias penduradas na parede e uma banheira, toda coberta de terríveis manchas negras de esmalte descascado. Muito bem, nessa banheira havia uma cidadã nua, toda ensaboada e com uma esponja nas mãos. Ela apertou os olhos, míope, para o recém-chegado Ivan e, pelo visto, confundindo-se por causa da iluminação infernal, disse baixinho e alegre:
Kiriúcha! Chega de tagarelar! O que há com você, ficou maluco? Fiódor Ivánovitch voltará já, já. Saia já daqui! — E sacudiu a esponja em direção a Ivan.
Estávamos diante de um mal-entendido e o culpado era, é claro, Ivan Nikoláievitch. Mas, sem querer reconhecer isso, ele exclamou em tom de censura: “Ah, sua pervertida!...” — e na mesma hora foi parar na cozinha, sabe-se lá para quê. Lá não havia ninguém, e sobre o fogão havia quase uma dezena de fogareiros portáteis apagados, mudos, sob a penumbra. Um único raio de lua penetrou através da janela empoeirada, que não era limpa havia anos, e iluminou parcamente aquele canto onde, no meio da poeira e de uma teia de aranha, estava pendurado um ícone esquecido, as pontas de duas velas nupciais assomando atrás de seu caixilho. Debaixo do ícone grande, preso por alfinetes, estava pendurado outro menor, de papel.
Ninguém sabe qual foi o pensamento que dominou Ivan naquele instante, mas só que, antes de sair correndo para a porta dos fundos, ele se apoderou de uma das velas e também do ícone de papel. Com esses objetos, ele deixou o apartamento desconhecido, balbuciando algo, confuso com pensamentos sobre o que tinha acabado de presenciar no banheiro, tentando adivinhar involuntariamente quem era esse insolente Kiriúcha e se o repugnante chapéu com tapa-orelhas não lhe pertencia.
Na travessa deserta e desolada o poeta olhou ao redor, procurando o fugitivo, mas este não estava em lugar algum. Então, Ivan disse para si mesmo com firmeza:
Mas é claro, ele está no rio Moscou! Avante!
Seria bom, pelo visto, perguntar a Ivan Nikoláievitch por que ele supunha que o professor estava exatamente no rio Moscou, e não em qualquer outro lugar. Mas o problema era esse, não havia ninguém para perguntar. A travessa repulsiva estava completamente vazia.
Após um curtíssimo espaço de tempo, podia-se avistar Ivan Nikoláievitch nos degraus de granito do anfiteatro do rio Moscou.
Ivan tirou a roupa e confiou-a a um simpático barbudo, que fumava um cigarro enrolado a mão, de camisa típica branca rasgada e botinas gastas, desamarradas. Batendo os braços, para se aquecer, Ivan deu um salto de anjo. Ficou sem fôlego porque a água estava gelada e até chegou a pensar que pelo visto não conseguiria voltar à superfície. No entanto, conseguiu emergir e, resfolegando, bufando, com os olhos arregalados de terror, Ivan Nikoláievitch começou a nadar na água negra que cheirava a petróleo, entre os zigue-zagues entrecortados dos postes de iluminação das margens.
Quando o encharcado Ivan, pulando os degraus, chegou ao local em que deixara suas roupas sob os cuidados do barbudo, descobriu que não só elas haviam sido roubadas, mas também ele, ou seja, o próprio barbudo. Naquele exato local onde deixara o amontoado de roupas, restavam ceroulas listradas, a camisa rasgada, a vela, o pequeno ícone e uma caixa de fósforos. Ameaçando alguém ao longe com os punhos cerrados numa perversidade desastrada, Ivan se enrolou no que restava.
Então, duas considerações despertaram sua preocupação: a primeira era o desaparecimento da carteirinha da Massolit, da qual ele nunca se separava, e a segunda, será que ele conseguiria atravessar Moscou naqueles trajes? Afinal, estava de ceroulas... Na verdade, ninguém tinha nada a ver com isso, mas melhor não dar motivo para críticas ou embaraço.
Ivan arrancou os botões das ceroulas que abotoavam no tornozelo, partindo da premissa de que, quem sabe, daquele jeito poderiam passar por calças de verão, pegou o ícone, a vela, os fósforos e começou a se mexer, dizendo para si mesmo:
Para Griboiêdov! Sem dúvida alguma, ele está lá.
A cidade já vivia a vida noturna. Caminhões passavam voando, tilintando correntes, em meio à poeira, e em suas caçambas alguns homens estavam deitados sobre sacos, estirados com as barrigas para cima. Todas as janelas estavam abertas. Em cada uma delas ardia uma luzinha sob um abajur laranja, e de todas as janelas, de todas as portas, de todas as entradas, dos telhados e sótãos, dos porões e pátios escapava o rouco lamento da polonesa da ópera Ievguêni Oniêguin.
Os temores de Ivan Nikoláievitch se concretizaram por completo: os transeuntes prestavam atenção nele e riam, virando-se. Em função disso, ele resolveu deixar as ruas largas e caminhar pelas travessas, onde as pessoas não eram tão indiscretas, e havia menos chance de repararem em um homem descalço, cobrindo-o de perguntas sobre as ceroulas, que obstinadamente não desejavam ficar parecidas com calças.
E foi isso que Ivan fez. Aprofundou-se na rede misteriosa de travessas da Arbat e começou a caminhar perto dos muros, olhando assustado ao redor, de soslaio, virando-se a cada minuto, escondendo-se vez ou outra nas entradas dos prédios e fugindo dos cruzamentos com semáforos e das portas chiques das mansões das embaixadas.
E durante todo esse seu difícil caminho, sabe-se lá por quê, era indescritivelmente perturbado por uma orquestra onipresente, que acompanhava o baixo pesaroso que cantava sobre seu amor por Tatiana.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

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