terça-feira, 28 de abril de 2026

Quarto capítulo — A Lição de Siqueleto




Uma vez mais Tuhair decide explorar os matos vizinhos. A estrada não traz ninguém. Enquanto a guerra não terminasse era mesmo melhor que nenhuma pessoa estradeasse por ali. O velho sempre repetia:
Alguma coisa, algum dia, há-de acontecer. Mas não aqui, emendava baixinho.
De facto, a única coisa que acontece é a consecutiva mudança da paisagem. Mas só Muidinga vê essas mudanças. Tuahir diz que são miragens, frutos do desejo de seu companheiro. Quem sabe essas visões eram resultado de tanto se confinarem ao mesmo refúgio. Por isso ele queria uma vez mais partir, tentar descobrir nem sabia o quê, uma réstia de esperança, uma saída daquele cerco.
Você quer sair, não é?
Quero, tio. Esta estrada está morta.
Esta estrada está morta!? Mas não entende que isso é muito bom, esta estrada estar morta é que nos dá boa segurança?
Mas nós, desta maneira, não vamos a lado nenhum...
Isso quer dizer que também aqui não chega ninguém.
O velho pondera: não valia a pena insistir. O melhor seria uma mentira, dessas tecidas pela bondade. Diria ao miúdo que aceitava partir. Depois fingiria afastar-se, enquanto andavam em círculos. Regressariam sempre ao machimbombo, à mesma estrada de onde haviam partido. Assim ele fizera desde a primeira vez que saíram da estrada.
Nessa tarde, o velho comanda uma dessas falsas viagens. Primeiro, seguem ao longo da picada. A estrada onde moram surge a Muidinga com novas vistas, parecendo pentear a savana, risco ao meio. Só depois derivam por atalhos e trilhos. No sossego da paisagem nenhuma coisa pedia urgência. Contudo, Muidinga não está tranquilo: sempre o susto espreita no farfalhar da folhagem, o segredar da morte, essa infatigável coscuvilheira. Vão pisando caminhos saudosos do pé de gente. Tuahir segue à frente, abrindo trilhos por onde depois o rapaz avança. De repente, o mundo desaba, o chão desaparece. Tuahir e Muidinga se abismalham, tombados numa enormíssima cova. É um desses buracos onde a noite se esconde com o rabo de fora.
Estamos onde, Tuahir?
Nem fale. Deve ser morada do sapo gigante, o tal comedor de escuro.
Ficam sentados, se acostumando ao nada. Depois, seus olhos lusco-focaram: havia uma rede cobrindo as paredes do buraco. Nenhum de ambos tem dúvida: estão dentro de uma armadilha. Só restava esperar. Conversam para distrair os maus espíritos que sempre aproveitam o silêncio para engordar intenções.
Sabe o que eu me estou a lembrar, tio? Lembro de Farida.
E quem é essa?
A mulher dos cadernos, apaixonada de Kindzu.
Tuahir sorri da confissão, cheio de idade. Sobre as mulheres ele, nos tempos, emitira opiniões que vinham do coração. Agora, nem tanto:
Há mulheres que são chuva, outras cacimbo. Essa tal Farida deve ser uma que vale a pena a gente se despentear com ela.
Muidinga vai fingindo que escuta, preocupado em estudar as paredes do buracão e avaliar modos de sair daquela prisão. O tempo passa sem solução e os dois adormecem, cada um para seu lado. Muidinga sonha, agitado. Lhe surgem, confusas, imagens de um tempo que ele nunca foi capaz de tocar. Muidinga se revê menino, saindo de uma escola. Mas nenhum rosto é legível, mesmo a escola não possui fachada. Confusas vozes lhe afluem: chamam por si! Lhe chamam um outro nome. Tenta desesperadamente entender esse nome. Mas os sons se desfocam, em eco de cacimbo. Depois, tudo se esfuma, anoitece dentro de seu sonho. Na manhã seguinte, o miúdo é o primeiro a acordar, o chão lhe doendo nas costas. Aquela noite lhe dera a certeza: os sonhos são cartas que enviamos a nossas outras, restantes vidas. Os cadernos de Kindzu não deveriam ter sido escritos por mão de carne e ossuda mas por sonhos iguais aos dele.
A manhã ainda balbucia, a luz pestaneja. Súbito, no meio do cacimbo, uma silhueta aparece. É figura de gente. Muidinga se satisfaz, chama o companheiro:
Acorda,Tuahir, nos vieram salvar!
Festejam a chegada do intruso. Dão os bons-dias mas não há resposta. O cacimbo se desfaz, ao sopro de uma brisa. O vulto então se esclarece: é um velho alto, torto, usando sobre o corpo nu uma gabardina comprida, maior que o seu tamanho. Um dos olhos permanece fechado enquanto o outro está aberto. O olho de serviço reveza-se, ora um ora outro. De vez em quando, tropeça no excesso da pouca roupa. Fica espreitando, demorado, incrédulo. Por fim, lhes lança uma rede. Ficam presos nas malhas, enredilhados como peixes. Então o velho os puxa, os dois vão ajudando com as pernas a subir, buraco acima. Saem mas ele não lhes solta. Traz a rede a arrastar pelo chão, os dois lá dentro, iguais aos bichos caçados. Quando por fim chegam a sua casa ele reforçou a rede com mais amarras. Encara os prisioneiros com um só olho enquanto fala na língua local. Tuahir traduz:
Ele diz que nos vai semear.
Semear?
Não sabe o que é semear? É isso que nos vai fazer. Ele quer companhia, quer que nasça mais gente.
O velho é doido, vai é matar a gente.
Tuahir então combina com o moço: se fingiriam doentes, estragados. Gemem, lançam feios cuspes e vómitos. Mas o velho nem se impressiona. Vai buscar uma lata, abana-a, tirando dela agudas estridências.
Meu nome é Siqueleto.
Depois ele se apresenta com sua estória. Enquanto fala vai sacudindo a lata como se acompanhasse uma canção. Daquele lugar todos se tinham ido embora, por motivo do terror. Os bandos assaltaram, mataram, queimaram. A aldeia foi ficando deserta, todos partiram, um após nenhum. A família lhe chamava o pensamento: venha connosco, já toda a gente foi embora! Assim lhe rogavam na hora da partida. Ele respondia:
Eu sou como a árvore, morro só de mentira.
E agora perante os dois inesperados visitantes ele repete as suas parecenças com as árvores que renascem cada ano. Tuahir acompanha com dificuldade, a ausência de dentes deforma as palavras do solitário aldeão.
Sou velho, já assisti muita desgraça. Mas igual como essa nunca eu vi. E abana a cabeça, pesaroso.
Estás triste, velho?, pergunta-lhe Tuahir.
Já não fico triste, só cansado.
Era por causa do cansaço que ele não abria os dois olhos de uma só vez. O idoso homem tinha, apesar de tudo, seus pensamentos futuros. Para ele só havia uma maneira de ganhar aquela guerra: era ficar vivo, teimando no mesmo lugar. Não desejava nenhuma felicidade, nem sequer se deliciar com doces lembranças. Lhe bastava sobreviver, restar como um guarda daquela aldeia em ruínas. Agora ele amaldiçoa os que tinham saído dali.
Satanhocos, hão-de comer poeira!
Fala com raiva, todo levantado. Depois, se zanga com os visitantes. Pontapina nas redes, insultando-os: vocês são fugistas, vosso mal está nos dentes. São os dentes que convidam a fome. É por isso eu tirei toda a dentaria. Estão aqui, nesta lata. Abana a lata ferrugenta, os dentes tintinam e ele sorri, satisfeito com o barulho.
É minha música, essa.
Prossegue seus lamentos: nos dias de hoje, os filhos mordem as mães quando ainda estão no ventre. Vejam a pedra em que me sento: parece morta, enquanto não, vive devagarinho, sem barulho. Como eu, conclui. Depois, se volta a zangar, manifestivo. O velho braceja, boca fora dos bofes.
Vão os dois para baixo da terra, satanhocas!
Muidinga, então, se excede. Grita. O velho aldeão se atenta para escutar, através da tradução de Tuahir. Por que motivo ele não recebia bem os visitantes como ordenavam as velhas leis hospitaleiras? De facto, responde o velho, não é assim a maneira da nossa raça. Antigamente quem chegava era em bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos dedos.
O rapaz insiste em explicar seus motivos. As razões deles não eram iguais às dos que hoje cruzem os matos. Tuahir interrompe-o pedindo calma. Lento como um rosário desfia toda a estória, razão de estarem ali, requerendo tais ousadias. Nem Muidinga sabia de tais dotes em seu companheiro. Tuahir fala de um mundo que nem há, engraçando suas visões. Que a nossa terra se ia aquietar, todos se familiariam, moçambicanos. E nos visitaríamos, como nos tempos, roendo os caminhos sem nunca mais termos medo.
Verdade isso?, pergunta o desdentado.
Longe se ouvem tiros, a guerra continua a infligir seus estrondos. Tuahir prossegue, arrebatado: diz que ouviu falar de países ricos onde a gente já nem tem que cavar a terra: enterra-se a enxada, bem direito no chão. Do cabo brotam árvores, plantas cheias de verde.
Seremos assim também, sentenciou.
Mas o desdentado aldeão já anoitecera, queixo no peito. Seu mundo já era esse que Tuahir anunciara, de extensos sossegos. O próprio Muidinga está como se encantado com as palavras de Tuahir. Não é a estória que o fascina mas a alma que está nela. E ao ouvir os sonhos de Tuahir, com os ruídos da guerra por trás, ele vai pensando: “não inventaram ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de explodir os homens sem lhes matar. Uma pólvora que, em avessos serviços, gerasse mais vida. E do homem explodido nascessem os infinitos homens que lhes estão por dentro”.
Tuahir se revela, por um instante, como um curandeiro amenizando o universo, seu paciente. E ali está o velho Siqueleto, sonecando em trégua de existir. Olhando o seu corpo abandonado dá vontade de sorrir como se faz ao contemplar o sono indefeso de uma criança. E os dois prisioneiros se entretêm a fabricar um tabaco, feito de folha que o velho deixara cair. Fumam com o gosto de serem eles mesmos o incenso, fumam como se em seus dedos esfumasse o tempo, como se não houvesse rede os aprisionando. Tuahir adivinhou a cabeça do rapaz:
Acreditaste em mim? Fizeste bem. Te dou um conselho: não confies em homem que não sabe mentir.
Foi então que, entre o lusco e o fusco, vêem chegar a hiena. Ao princípio, parece é nada, só um arrepio no capim, um suspiro do verde-escuro. Vai surgindo inteira, balançando as patas traseiras. Depois, se senta, sozinhando, espreitando o mundo de cá.
Sentem um aperto. Que vinha ali fazer aquele bicho sem aprumo, despromovido das traseiras? Trazer má sorte ao destino dos viventes, só podia ser esse o serviço desse animal. A hiena permanece parada, em vistoria dos cheiros. Depois, se encosta na própria sombra e, assim deitada, lambe os beiços. Faz medo ver-lhe à maneira de doméstica, nem besta se parecia. Os bichos temem o homem, desvizinham-se dele. Mas este, no entanto, deita no lugar exclusivo de gente.
O velho, entretanto, desperta. Vendo o espanto dos outros, esclarece a hiena: o bicho sentinelava sua vida. Ninguém me aproxima, sorri o velho enquanto acaricia a hiena que se enrosca, regalada. Aquele era o seu exército privado, segurança e guarda-corpo. Tuahir avisa, em segredo:
Não confia, miúdo. Aquilo nem hiena não é.
A noite vai descendo. O frio aperta enquanto se alarga um silêncio do tamanho da terra. Muidinga se queixa. Lhe dói o corpo da posição que a rede lhe obrigava, dobrado pelo umbigo. A dor, afinal, é uma janela por onde a morte nos espreita. Sucumbente, se encosta a Tuahir a buscar um quentinho. Mas o sono não lhe chega. Por um buraco da rede Muidinga consegue retirar um braço. Apanha um pau e escreve no chão.
Que desenhos são esses?, pergunta Siqueleto.
É o teu nome, responde Tuahir.
Esse é o meu nome?
O velho desdentado se levanta e roda em volta da palavra. Está arregalado. Joelha-se, limpa em volta dos rabiscos. Ficou ali por tempos, gatinhoso, sorrindo para o chão com sua boca desprovida de brancos. Depois, com voz descolorida trauteia uma canção. Parece rezar. Com aquela cantoria Muidinga acaba por adormecer. Não faz ideia quanto tempo dorme. Porque desperta em sobressalto: o brilho de uma lâmina relampeja frente a seus olhos. O velho Siqueleto armaneja uma faca.
Andam comigo!
Solta Tuahir e Muidinga das redes. São conduzidos pelo mato, para lá do longe. Então, frente a uma grande árvore, Siqueleto ordena algo que o jovem não entende.
Está mandar que escrevas o nome dele.
Passa-lhe o punhal. No tronco Muidinga grava letra por letra o nome do velho. Ele queria aquela árvore para parteira de outros Siqueletos, em fecundação de si. Embevecido, o velho passava os dedos pela casca da árvore. E ele diz:
Agora podem-se ir embora. A aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore.
Então ele mete o dedo no ouvido, vai enfiando mais e mais fundo até que sentem o surdo som de qualquer coisa se estourando. O velho tira o dedo e um jorro de sangue repuxa da orelha. Ele se vai definhando, até se tornar do tamanho de uma semente.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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