Uma vez mais Tuhair decide explorar os
matos vizinhos. A estrada não traz ninguém. Enquanto a guerra não
terminasse era mesmo melhor que nenhuma pessoa estradeasse por ali. O
velho sempre repetia:
— Alguma coisa, algum dia, há-de
acontecer. Mas não aqui, emendava baixinho.
De facto, a única coisa que acontece
é a consecutiva mudança da paisagem. Mas só Muidinga vê essas
mudanças. Tuahir diz que são miragens, frutos do desejo de seu
companheiro. Quem sabe essas visões eram resultado de tanto se
confinarem ao mesmo refúgio. Por isso ele queria uma vez mais
partir, tentar descobrir nem sabia o quê, uma réstia de esperança,
uma saída daquele cerco.
— Você quer sair, não é?
— Quero, tio. Esta estrada está
morta.
— Esta estrada está morta!? Mas
não entende que isso é muito bom, esta estrada estar morta é que
nos dá boa segurança?
— Mas nós, desta maneira, não
vamos a lado nenhum...
— Isso quer dizer que também
aqui não chega ninguém.
O velho pondera: não valia a pena
insistir. O melhor seria uma mentira, dessas tecidas pela bondade.
Diria ao miúdo que aceitava partir. Depois fingiria afastar-se,
enquanto andavam em círculos. Regressariam sempre ao machimbombo, à
mesma estrada de onde haviam partido. Assim ele fizera desde a
primeira vez que saíram da estrada.
Nessa tarde, o velho comanda uma
dessas falsas viagens. Primeiro, seguem ao longo da picada. A estrada
onde moram surge a Muidinga com novas vistas, parecendo pentear a
savana, risco ao meio. Só depois derivam por atalhos e trilhos. No
sossego da paisagem nenhuma coisa pedia urgência. Contudo, Muidinga
não está tranquilo: sempre o susto espreita no farfalhar da
folhagem, o segredar da morte, essa infatigável coscuvilheira. Vão
pisando caminhos saudosos do pé de gente. Tuahir segue à frente,
abrindo trilhos por onde depois o rapaz avança. De repente, o mundo
desaba, o chão desaparece. Tuahir e Muidinga se abismalham, tombados
numa enormíssima cova. É um desses buracos onde a noite se esconde
com o rabo de fora.
— Estamos onde, Tuahir?
— Nem fale. Deve ser morada do
sapo gigante, o tal comedor de escuro.
Ficam sentados, se acostumando ao
nada. Depois, seus olhos lusco-focaram: havia uma rede cobrindo as
paredes do buraco. Nenhum de ambos tem dúvida: estão dentro de uma
armadilha. Só restava esperar. Conversam para distrair os maus
espíritos que sempre aproveitam o silêncio para engordar intenções.
— Sabe o que eu me estou a
lembrar, tio? Lembro de Farida.
— E quem é essa?
— A mulher dos cadernos,
apaixonada de Kindzu.
Tuahir sorri da confissão, cheio de
idade. Sobre as mulheres ele, nos tempos, emitira opiniões que
vinham do coração. Agora, nem tanto:
— Há mulheres que são chuva,
outras cacimbo. Essa tal Farida deve ser uma que vale a pena a gente
se despentear com ela.
Muidinga vai fingindo que escuta,
preocupado em estudar as paredes do buracão e avaliar modos de sair
daquela prisão. O tempo passa sem solução e os dois adormecem,
cada um para seu lado. Muidinga sonha, agitado. Lhe surgem, confusas,
imagens de um tempo que ele nunca foi capaz de tocar. Muidinga se
revê menino, saindo de uma escola. Mas nenhum rosto é legível,
mesmo a escola não possui fachada. Confusas vozes lhe afluem: chamam
por si! Lhe chamam um outro nome. Tenta desesperadamente entender
esse nome. Mas os sons se desfocam, em eco de cacimbo. Depois, tudo
se esfuma, anoitece dentro de seu sonho. Na manhã seguinte, o miúdo
é o primeiro a acordar, o chão lhe doendo nas costas. Aquela noite
lhe dera a certeza: os sonhos são cartas que enviamos a nossas
outras, restantes vidas. Os cadernos de Kindzu não deveriam ter sido
escritos por mão de carne e ossuda mas por sonhos iguais aos dele.
A manhã ainda balbucia, a luz
pestaneja. Súbito, no meio do cacimbo, uma silhueta aparece. É
figura de gente. Muidinga se satisfaz, chama o companheiro:
— Acorda,Tuahir, nos vieram
salvar!
Festejam a chegada do intruso. Dão os
bons-dias mas não há resposta. O cacimbo se desfaz, ao sopro de uma
brisa. O vulto então se esclarece: é um velho alto, torto, usando
sobre o corpo nu uma gabardina comprida, maior que o seu tamanho. Um
dos olhos permanece fechado enquanto o outro está aberto. O olho de
serviço reveza-se, ora um ora outro. De vez em quando, tropeça no
excesso da pouca roupa. Fica espreitando, demorado, incrédulo. Por
fim, lhes lança uma rede. Ficam presos nas malhas, enredilhados como
peixes. Então o velho os puxa, os dois vão ajudando com as pernas a
subir, buraco acima. Saem mas ele não lhes solta. Traz a rede a
arrastar pelo chão, os dois lá dentro, iguais aos bichos caçados.
Quando por fim chegam a sua casa ele reforçou a rede com mais
amarras. Encara os prisioneiros com um só olho enquanto fala na
língua local. Tuahir traduz:
— Ele diz que nos vai semear.
— Semear?
— Não sabe o que é semear? É
isso que nos vai fazer. Ele quer companhia, quer que nasça mais
gente.
— O velho é doido, vai é matar
a gente.
Tuahir então combina com o moço: se
fingiriam doentes, estragados. Gemem, lançam feios cuspes e vómitos.
Mas o velho nem se impressiona. Vai buscar uma lata, abana-a, tirando
dela agudas estridências.
— Meu nome é Siqueleto.
Depois ele se apresenta com sua
estória. Enquanto fala vai sacudindo a lata como se acompanhasse uma
canção. Daquele lugar todos se tinham ido embora, por motivo do
terror. Os bandos assaltaram, mataram, queimaram. A aldeia foi
ficando deserta, todos partiram, um após nenhum. A família lhe
chamava o pensamento: venha connosco, já toda a gente foi embora!
Assim lhe rogavam na hora da partida. Ele respondia:
— Eu sou como a árvore, morro só
de mentira.
E agora perante os dois inesperados
visitantes ele repete as suas parecenças com as árvores que
renascem cada ano. Tuahir acompanha com dificuldade, a ausência de
dentes deforma as palavras do solitário aldeão.
— Sou velho, já assisti muita
desgraça. Mas igual como essa nunca eu vi. E abana a cabeça,
pesaroso.
— Estás triste, velho?,
pergunta-lhe Tuahir.
— Já não fico triste, só
cansado.
Era por causa do cansaço que ele não
abria os dois olhos de uma só vez. O idoso homem tinha, apesar de
tudo, seus pensamentos futuros. Para ele só havia uma maneira de
ganhar aquela guerra: era ficar vivo, teimando no mesmo lugar. Não
desejava nenhuma felicidade, nem sequer se deliciar com doces
lembranças. Lhe bastava sobreviver, restar como um guarda daquela
aldeia em ruínas. Agora ele amaldiçoa os que tinham saído dali.
— Satanhocos, hão-de comer
poeira!
Fala com raiva, todo levantado.
Depois, se zanga com os visitantes. Pontapina nas redes,
insultando-os: vocês são fugistas, vosso mal está nos dentes.
São os dentes que convidam a fome. É por isso eu tirei toda a
dentaria. Estão aqui, nesta lata. Abana a lata ferrugenta, os
dentes tintinam e ele sorri, satisfeito com o barulho.
— É minha música, essa.
Prossegue seus lamentos: nos dias
de hoje, os filhos mordem as mães quando ainda estão no ventre.
Vejam a pedra em que me sento: parece morta, enquanto não, vive
devagarinho, sem barulho. Como eu, conclui. Depois, se volta a
zangar, manifestivo. O velho braceja, boca fora dos bofes.
— Vão os dois para baixo da
terra, satanhocas!
Muidinga, então, se excede. Grita. O
velho aldeão se atenta para escutar, através da tradução de
Tuahir. Por que motivo ele não recebia bem os visitantes como
ordenavam as velhas leis hospitaleiras? De facto, responde o velho,
não é assim a maneira da nossa raça. Antigamente quem chegava era
em bondade de intenção. Agora quem vem traz a morte na ponta dos
dedos.
O rapaz insiste em explicar seus
motivos. As razões deles não eram iguais às dos que hoje cruzem os
matos. Tuahir interrompe-o pedindo calma. Lento como um rosário
desfia toda a estória, razão de estarem ali, requerendo tais
ousadias. Nem Muidinga sabia de tais dotes em seu companheiro. Tuahir
fala de um mundo que nem há, engraçando suas visões. Que a
nossa terra se ia aquietar, todos se familiariam, moçambicanos. E
nos visitaríamos, como nos tempos, roendo os caminhos sem nunca mais
termos medo.
— Verdade isso?, pergunta o
desdentado.
Longe se ouvem tiros, a guerra
continua a infligir seus estrondos. Tuahir prossegue, arrebatado: diz
que ouviu falar de países ricos onde a gente já nem tem que cavar a
terra: enterra-se a enxada, bem direito no chão. Do cabo brotam
árvores, plantas cheias de verde.
— Seremos assim também,
sentenciou.
Mas o desdentado aldeão já
anoitecera, queixo no peito. Seu mundo já era esse que Tuahir
anunciara, de extensos sossegos. O próprio Muidinga está como se
encantado com as palavras de Tuahir. Não é a estória que o fascina
mas a alma que está nela. E ao ouvir os sonhos de Tuahir, com os
ruídos da guerra por trás, ele vai pensando: “não inventaram
ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de explodir os homens sem
lhes matar. Uma pólvora que, em avessos serviços, gerasse mais
vida. E do homem explodido nascessem os infinitos homens que lhes
estão por dentro”.
Tuahir se revela, por um instante,
como um curandeiro amenizando o universo, seu paciente. E ali está o
velho Siqueleto, sonecando em trégua de existir. Olhando o seu corpo
abandonado dá vontade de sorrir como se faz ao contemplar o sono
indefeso de uma criança. E os dois prisioneiros se entretêm a
fabricar um tabaco, feito de folha que o velho deixara cair. Fumam
com o gosto de serem eles mesmos o incenso, fumam como se em seus
dedos esfumasse o tempo, como se não houvesse rede os aprisionando.
Tuahir adivinhou a cabeça do rapaz:
— Acreditaste em mim? Fizeste
bem. Te dou um conselho: não confies em homem que não sabe mentir.
Foi então que, entre o lusco e o
fusco, vêem chegar a hiena. Ao princípio, parece é nada, só um
arrepio no capim, um suspiro do verde-escuro. Vai surgindo inteira,
balançando as patas traseiras. Depois, se senta, sozinhando,
espreitando o mundo de cá.
Sentem um aperto. Que vinha ali fazer
aquele bicho sem aprumo, despromovido das traseiras? Trazer má sorte
ao destino dos viventes, só podia ser esse o serviço desse animal.
A hiena permanece parada, em vistoria dos cheiros. Depois, se encosta
na própria sombra e, assim deitada, lambe os beiços. Faz medo
ver-lhe à maneira de doméstica, nem besta se parecia. Os bichos
temem o homem, desvizinham-se dele. Mas este, no entanto, deita no
lugar exclusivo de gente.
O velho, entretanto, desperta. Vendo o
espanto dos outros, esclarece a hiena: o bicho sentinelava sua vida.
Ninguém me aproxima, sorri o velho enquanto acaricia a hiena
que se enrosca, regalada. Aquele era o seu exército privado,
segurança e guarda-corpo. Tuahir avisa, em segredo:
— Não confia, miúdo. Aquilo nem
hiena não é.
A noite vai descendo. O frio aperta
enquanto se alarga um silêncio do tamanho da terra. Muidinga se
queixa. Lhe dói o corpo da posição que a rede lhe obrigava,
dobrado pelo umbigo. A dor, afinal, é uma janela por onde a morte
nos espreita. Sucumbente, se encosta a Tuahir a buscar um quentinho.
Mas o sono não lhe chega. Por um buraco da rede Muidinga consegue
retirar um braço. Apanha um pau e escreve no chão.
— Que desenhos são esses?,
pergunta Siqueleto.
— É o teu nome, responde Tuahir.
— Esse é o meu nome?
O velho desdentado se levanta e roda
em volta da palavra. Está arregalado. Joelha-se, limpa em volta dos
rabiscos. Ficou ali por tempos, gatinhoso, sorrindo para o chão com
sua boca desprovida de brancos. Depois, com voz descolorida trauteia
uma canção. Parece rezar. Com aquela cantoria Muidinga acaba por
adormecer. Não faz ideia quanto tempo dorme. Porque desperta em
sobressalto: o brilho de uma lâmina relampeja frente a seus olhos. O
velho Siqueleto armaneja uma faca.
— Andam comigo!
Solta Tuahir e Muidinga das redes. São
conduzidos pelo mato, para lá do longe. Então, frente a uma grande
árvore, Siqueleto ordena algo que o jovem não entende.
— Está mandar que escrevas o
nome dele.
Passa-lhe o punhal. No tronco Muidinga
grava letra por letra o nome do velho. Ele queria aquela árvore para
parteira de outros Siqueletos, em fecundação de si. Embevecido, o
velho passava os dedos pela casca da árvore. E ele diz:
— Agora podem-se ir embora. A
aldeia vai continuar, já meu nome está no sangue da árvore.
Então ele mete o dedo no ouvido, vai
enfiando mais e mais fundo até que sentem o surdo som de qualquer
coisa se estourando. O velho tira o dedo e um jorro de sangue repuxa
da orelha. Ele se vai definhando, até se tornar do tamanho de uma
semente.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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