Algumas frases no livro se tornaram
desde o início objeto de lenda e paródia. Havia o começo,
surpreendente numa obra de antropologia e de viagem pelo Amazonas:
“Je haïs les voyages et les explorateurs” (“Odeio as
viagens e os exploradores”). Havia a coda final — um monstro de
uma sentença, cláusulas e mais cláusulas ornamentadas se
empilhando, um sforzando barroco trinando até pousar na
imagem, ao mesmo tempo cômica e mágica, do “breve relance do
olhar, carregado de paciência, serenidade e perdão recíproco que
um entendimento involuntário às vezes permite trocarmos com um
gato” (a tradução em inglês é uma boa tentativa: “the
brief glance, heavy with patience, serenity, and mutual forgiveness,
that, through some involuntary understanding, one can sometimes
exchange with a cat”, embora perca o páthos de “alourdi
de patience” e a insinuação de uma quase graça teológica em
“pardon réciproque qu’une entente involontaire permet
parfois”). Tristes trópicos agora tem quase vinte anos.
No intervalo, Claude Lévi-Strauss realizou em larga medida aquela
revolução na antropologia, aquela renovação do vocabulário, dos
rumos da argumentação própria ao “estudo do homem”, que eram
pleiteadas por Tristes trópicos. Até onde alcança o clima
geral da cultura letrada, ele é não só o mais celebrado
antropólogo-etnógrafo vivo, mas também um escritor cujos tratados
técnicos visivelmente especializados conseguiram penetrar na
sensibilidade geral. O “estruturalismo” de Lévi-Strauss, termo
na moda, mas não muito definido, de certa forma parece constituir o
eixo dos trabalhos atuais em linguística e psicologia, em estudos
sociais e estética. Mas a fama de Lévi-Strauss, a influência que
ele exerce no tom de nossa cultura e de nossa palração de leitores
instruídos (o reflexo pálido e suave que os meios de comunicação
de massa devolvem à vida do espírito), tem uma forma paradoxal. Ela
cresceu inversamente à posição dele entre seus pares
profissionais. Do ponto de vista dos colegas antropólogos e
etnógrafos, a curva segue mais ou menos este traçado: apesar da
brevidade do trabalho de campo no Brasil nos anos 1930 e da
metodologia talvez controversa, depois Lévi-Strauss produziu um
estudo clássico das relações de parentesco, As estruturas
elementares do parentesco, publicado em 1949. Junto com vários
artigos técnicos escritos durante os anos que passou nos EUA e um
pouco depois, essa opus constitui um desenvolvimento
fundamental da compreensão do parentesco e da sociedade primitiva,
que se iniciara com Marcel Mauss, Émile Durkheim e a escola
antropológica britânica. No início dos anos 1950, em colaboração
com Roman Jakobson, Lévi-Strauss começou a defender a existência
de analogias fundamentais, de reciprocidades conceituais e
metodológicas entre a linguística e a antropologia. Foi também um
avanço estimulante. Certamente há muito a se aprender com a
possível concordância entre a estrutura formal de uma língua e as
estruturas sociais que ela organiza e reflete (a observação de
Lévi-Strauss de que uma sociedade não pode proibir aquilo que não
sabe nomear e classificar, e de que o reconhecimento do parentesco
permitido ou proibido depende de uma precisão correspondente na
designação linguística, é obviamente profunda e preciosa). Mas
esses paralelos, quando podem ser demonstrados, precisam ser
manuseados com extrema cautela. Saltar da escala monográfica para um
modelo universal de funcionamento da mente humana, construir uma
vasta teoria da mente e da evolução sobre uma base tão frágil, é
abandonar os ideais da ciência. É isso, dizem os antropólogos, que
Lévi-Strauss fez com Tristes trópicos e continua a fazer
desde então. Ele pode ser um escritor de talento, um criador de
mitos modernos, uma espécie de filósofo, mas não é mais um
antropólogo que tem responsabilidade perante a opaca monotonia do
detalhe, o “este é o caso”. Há um precedente famoso. Para
poetas e dramaturgos, para o público em geral, sir James Frazer era
o príncipe dos antropólogos; para os colegas de profissão e
sucessores imediatos, era um fiandeiro de palavras preso no denso
nevoeiro que ele mesmo tinha criado. Assim, as “Mitológicas”, a
“mitologia dos mitos” em quatro volumes que tem ocupado
Lévi-Strauss nos últimos quinze anos ou mais, serão — quando a
tradução estiver completa — nosso Ramo de ouro.
É um tipo de constelação que
reconhecemos: um especialista ultrapassa sua área técnica e adquire
grande renome; os colegas que deixou para trás cerram fileiras num
repúdio melindrado. É a história de Marx e os economistas
acadêmicos, de Freud e os psicólogos contemporâneos, de Toynbee e
os historiadores. A situação não se abranda quando o novo “astro”
expressa sua impaciência com a mesquinharia, o paroquialismo
corporativo de seus pares de outrora. (Lévi-Strauss, aliás, é um
mestre do desdém.) Depois de um período — assim dizem a história
e a hagiografia intelectual —, descobre-se que a obra do grande
dissidente alterou a totalidade do campo com o qual rompera, e os
detratores sobrevivem como ácidas notas de rodapé nas memórias do
Mestre.
A resposta a isso precisa ser
incomodamente dupla, afirmativa e negativa. Se as análises de Marx
sobre o conflito social são ou não são “científicas”, se suas
previsões têm ou não têm alguma força que se possa verificar,
são questões que continuam controvertidas. Ninguém duvidaria da
envergadura das realizações de Freud, da força moldadora de sua
concepção filosófico-literária sobre o clima dominante da
sensibilidade ocidental. Mas o modelo terapêutico que ele procurou
universalizar e os fundamentos neurofisiológicos que tentou
estabelecer para esse modelo vêm se revelando cada vez mais
fugidios. As correntes “avançadas” dos estudos recentes da mente
e do comportamento humano não são freudianas. O quadro que temos
não é, pelo menos não inequivocamente, o do gênio individual, da
rejeição invejosa dos colegas menos dotados e da apoteose
subsequente. O que parece se dar é um desenvolvimento apenas dentro
de uma área sensível de um campo tradicional. Esse desenvolvimento,
que de início observa as convenções e a linguagem profissional do
campo, logo se torna grande demais, problemático demais, para caber
dentro das categorias estabelecidas. Ele rompe e arrasta consigo uma
parte desse seu campo. Surgem novos ordenamentos: a “linguística
antropológica”, a “semiótica” (que é a investigação
sistemática dos signos e dos símbolos) surgiram da crise da
antropologia clássica e do “impulso gravitacional” de
Lévi-Strauss rumo a uma concepção conjunta da linguagem e da
estrutura biológico-social. A querela entre o grande homem e seus
colegas pragmáticos é, muitas vezes, sintoma de transição e
reajuste. Em certo sentido, a relação de Lévi-Strauss com a
antropologia desde o princípio foi tão ambivalente, tão
intrinsecamente subversiva quanto, digamos, a relação de Marx com a
teoria monetária e econômica clássica. Essa “duplicidade”,
essa provocação, explica a opacidade e a importância de Tristes
trópicos.
A nova tradução e edição
(Atheneum, 1973) supera a versão de 1961. Por razões que nunca
ficaram inteiramente claras, vários capítulos foram omitidos da
edição inicial em inglês; agora estão incluídos. Foram
incorporadas as alterações que Lévi-Strauss fez à edição
francesa de 1968. Traduzir Lévi-Strauss é uma tarefa não só
árdua, mas também feita sob a sombra exigente e rigorosa do autor.
Embora tenham adotado um partido às vezes um pouco cansativo e
dilatado demais, justamente com a intenção de esclarecer, de
dissecar a retórica sinuosa do original, John e Doreen Weightman
realizaram um trabalho admirável. Não raro, quando dificuldades
especiais atrapalham a leitura, deixamos a linguagem de Lévi-Strauss
e recorremos à deles. E, sendo os tradutores das “Mitológicas”,
os Weightman mostram uma perspicácia inigualável ao verter a gênese
do vocabulário de Lévi-Strauss, ao ver onde e como se iniciaram
algumas de suas atitudes características.
Num determinado nível, Tristes
trópicos é uma autobiografia intelectual, ironicamente ciente das
distorções, das autodramatizações, complacentes ou críticas,
inevitáveis num autorretrato. Mas as lembranças de Lévi-Strauss de
sua carreira acadêmica, ao mesmo tempo brilhante e apaticamente
vazia, levam a uma passagem que melhor pode fornecer a chave de sua
obra. Por volta dos dezesseis anos de idade, ele conheceu as teorias
de Freud e os textos fundamentais de Marx. Viu em ambos uma espécie
de geologia, uma promessa da compreensão em profundidade, uma
estratégia de atravessar a superfície das aparências no homem e na
história social:
A passagem é difícil, mas oferece
uma pista inequívoca. Combinando Marx e Freud (em relação aos
quais Lévi-Strauss se mantém em certa posição de igualdade),
usando o paradigma da geologia, com suas noções de superfície e
estratos subjacentes e formadores — paradigma que já sugere a
linguística moderna —, devemos desenvolver uma espécie de
entendimento orgânico e unificador do que “significam as coisas”.
Nesse estágio inicial de seu pensamento, Lévi-Strauss deu a esse
entendimento da estrutura o nome de “super-racionalismo”, que não
é um termo muito útil. Hoje ele poderia chama-lo de “mythologique”,
uma lógica racional das maneiras (“mitos”) como o homem
representa, enuncia e controla sua condição biológica, psíquica e
social. Apenas tal compreensão, palavra que supõe uma apreensão
completa, apenas tal understanding,
palavra que, com seu prefixo under-,
implica descer, se aprofundar, poderiam justificar o orgulhoso nome
“antropologia”, estudo do
homem. Ser um antropólogo nesse sentido total significava
preencher e completar as análises socioeconômicas do marxismo com a
leitura freudiana da consciência. Para isso, o jovem Lévi-Strauss
estava disposto a abandonar a filosofia e aceitar um posto secundário
para dar aulas em São Paulo.
O conflito entre esta concepção e a
concepção normal da etnologia e do trabalho de campo é mais do que
evidente. Lévi-Strauss empreendeu longas expedições, fisicamente
penosas, pelo interior do Brasil. Tristes trópicos traz um
relato detalhado de sua vida com vários grupos indígenas. Num dos
casos, pode ter sido o primeiro contato com um homem branco desde
alguns encontros casuais no século XVI. Suas anotações sobre a
alimentação, os costumes sexuais e os artefatos dos índios eram
disciplinadas e copiosas. Comeu comida bichada, passou sede nos
grandes planaltos, percorreu entre tropeções a floresta virgem. Mas
o foco, o enquadramento do diagnóstico, nunca foi o do antropólogo
tradicional; diante dos elaborados desenhos faciais das mulheres
kaduveu, nenhum “cientista” de campo concluiria que elas:
Nenhum psicólogo comportamental,
observando as palhoças isoladas no interior brasileiro, afirmaria
confiante que aqueles grupos de habitantes “desenvolveram várias
formas de loucura” para conseguir enfrentar a chuva, a desnutrição
e o abandono. Além disso, quando Lévi-Strauss atravessa os ermos
lunares do interior, o que o fascina não é tanto a etnografia do
grupo de nhambiquaras com que está viajando: é a relação do mundo
ameríndio com a linha do telégrafo que se estende, semiabandonada,
pelas vastidões estéreis diante deles.
O simbolismo é crucial. Como a
famosa imagem de Joseph Conrad de uma canhoneira disparando tiros
absurdos numa margem costeira da impenetrável floresta africana, a
evocação da linha do telégrafo pelo Mato Grosso, em Lévi-Strauss,
anuncia uma dúvida fundamental. Expressa as ilusões rapaces do
homem branco e da tecnologia em suas relações com o mundo
primitivo. Mas a rapacidade e as ilusões se estendem, e estão
talvez manifestas com ironia ainda maior, na própria atividade da
antropologia. A obsessiva percepção de Lévi-Strauss nesse ponto é,
como ele mesmo ressalta, uma redescoberta: a natureza dúbia da
abordagem antropológica, do estudo racional do homem como foi
desenvolvido pelo Ocidente, já era evidente para Rousseau, o
verdadeiro mestre de Lévi-Strauss. Apenas o homem ocidental —
começando em Heródoto — gerou uma curiosidade sistemática sobre
as outras raças e culturas; somente ele saiu para explorar os cantos
mais remotos da terra em busca da classificação, da definição por
contraste e comparação de sua própria superioridade. Mas essa
busca, tantas vezes desinteressada e altruísta, levou consigo a
conquista e a destruição. O pensamento analítico tem em si uma
estranha violência. Conhecer analiticamente é reduzir o objeto de
conhecimento, por mais complexo, por mais vital que possa ser,
simplesmente a isto: um objeto. É desmembrar. Mais do que qualquer
outro “conhecedor”, o antropólogo leva a destruição junto com
ele. Nenhuma cultura primitiva sobrevive incólume à sua visitação.
Mesmo os presentes que leva — medicamentosos, materiais,
intelectuais — são fatais para as formas de vida, tal como as
encontrou. A busca ocidental do conhecimento é, num sentido trágico,
a exploração final.
É essa fatalidade que confere a
Tristes trópicos seu registro elegíaco, até apocalíptico.
“Uma civilização proliferante e demasiado agitada rompeu o
silêncio dos mares para sempre.” Aonde quer que o viajante branco
vá, ele encontra a desolação, os vestígios cruéis da pilhagem e
da doença trazidas por suas conquistas anteriores. As tribos índias,
as paisagens que o jovem Lévi-Strauss encontrou não eram edênicas,
não eram “primitivas” em sentido puro. Encarnavam uma longa
crônica de infecção, destruição ecológica e deslocamento
forçado. O que tornava os povos da floresta inacessíveis não era
tanto o isolamento geográfico ou o terreno acidentado. Era o fato
brutal de que complexos grupos étnico-linguísticos, antes à
vontade num amplo território, agora estavam reduzidos a poucos. “Até
onde sei, ninguém voltou a ver os mundés desde minha visita, exceto
uma missionária que encontrou um ou dois deles logo antes de 1950,
no Guaporé de Cima, onde três famílias tinham procurado refúgio.”
A dizimação é a culpa irreparável do homem branco. Mas não
exclusivamente. Lévi-Strauss é um observador demasiado sutil,
demasiado irônico para não sugerir que há na ruína das culturas
primitivas um mecanismo ainda mais secreto de limitação, de uma
inevitável inadequação. Os primeiros exploradores a chegar ao
Brasil e à América Central encontraram civilizações que tinham
“alcançado o pleno desenvolvimento e perfeição de que suas
naturezas eram capazes”. A ressalva é obscura, mas vem tingida de
um fatalismo quase calvinista.
Esse “calvinismo” (Lévi-Strauss,
pessoalmente, preferia falar em “pessimismo schopenhaueriano”)
gera sua própria alegoria punitiva. O que o etnógrafo encontrou em
suas incursões amazônicas não foi o paraíso perdido, e sim uma
paródia e uma destruição deliberada dos últimos pomares do Jardim
do Éden. Era como se um homem, expulso do Jardim por ter colhido o
fruto proibido da árvore do conhecimento — coleta essa que define
sua eminência e solidão no mundo orgânico —, tivesse voltado
furioso e começasse a arrancar todo e qualquer vestígio do Éden
perdido que encontrasse em sua paisagem. Lévi-Strauss percebe na
catástrofe ecológica, no tratamento assassino e, no entanto, também
suicida que damos ao meio ambiente, muito mais do que mera ganância
ou estupidez. O homem é possuído de alguma obscura fúria contra
sua própria lembrança do Éden. Aonde quer que vá e encontre
paisagens ou comunidades que parecem se assemelhar à sua imagem da
inocência perdida, ele arremete e espalha destruição.
Assim, se Tristes trópicos é
um dos primeiros clássicos da atual angústia ecológica, também é
muito mais do que isso; em última análise, é uma alegoria
moral-metafísica do fracasso humano. Avança numa arrogante
melancolia até a imagem do globo — que se resfria, esvaziado da
humanidade, purificado do lixo humano — que aparece na coda das
“Mitológicas”. Há melodrama nessa antecipação, há certa
pomposidade (e é uma bela e acertada coincidência que a cátedra
que Lévi-Strauss irá ocupar dentro de poucas semanas na Academia
Francesa seja a de Montherlant). Mas há também uma dor profunda e
genuína. A “antropologia”, diz Lévi-Strauss concluindo Tristes
trópicos, agora pode ser vista como “entropologia”: o estudo
do homem se tornou o estudo da desintegração e da extinção certa.
Não existe trocadilho mais sombrio na literatura moderna.
3 de junho de 1974
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

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