quarta-feira, 29 de abril de 2026

O Jardim Perdido



Algumas frases no livro se tornaram desde o início objeto de lenda e paródia. Havia o começo, surpreendente numa obra de antropologia e de viagem pelo Amazonas: “Je haïs les voyages et les explorateurs” (“Odeio as viagens e os exploradores”). Havia a coda final — um monstro de uma sentença, cláusulas e mais cláusulas ornamentadas se empilhando, um sforzando barroco trinando até pousar na imagem, ao mesmo tempo cômica e mágica, do “breve relance do olhar, carregado de paciência, serenidade e perdão recíproco que um entendimento involuntário às vezes permite trocarmos com um gato” (a tradução em inglês é uma boa tentativa: “the brief glance, heavy with patience, serenity, and mutual forgiveness, that, through some involuntary understanding, one can sometimes exchange with a cat”, embora perca o páthos de “alourdi de patience” e a insinuação de uma quase graça teológica em “pardon réciproque qu’une entente involontaire permet parfois”). Tristes trópicos agora tem quase vinte anos. No intervalo, Claude Lévi-Strauss realizou em larga medida aquela revolução na antropologia, aquela renovação do vocabulário, dos rumos da argumentação própria ao “estudo do homem”, que eram pleiteadas por Tristes trópicos. Até onde alcança o clima geral da cultura letrada, ele é não só o mais celebrado antropólogo-etnógrafo vivo, mas também um escritor cujos tratados técnicos visivelmente especializados conseguiram penetrar na sensibilidade geral. O “estruturalismo” de Lévi-Strauss, termo na moda, mas não muito definido, de certa forma parece constituir o eixo dos trabalhos atuais em linguística e psicologia, em estudos sociais e estética. Mas a fama de Lévi-Strauss, a influência que ele exerce no tom de nossa cultura e de nossa palração de leitores instruídos (o reflexo pálido e suave que os meios de comunicação de massa devolvem à vida do espírito), tem uma forma paradoxal. Ela cresceu inversamente à posição dele entre seus pares profissionais. Do ponto de vista dos colegas antropólogos e etnógrafos, a curva segue mais ou menos este traçado: apesar da brevidade do trabalho de campo no Brasil nos anos 1930 e da metodologia talvez controversa, depois Lévi-Strauss produziu um estudo clássico das relações de parentesco, As estruturas elementares do parentesco, publicado em 1949. Junto com vários artigos técnicos escritos durante os anos que passou nos EUA e um pouco depois, essa opus constitui um desenvolvimento fundamental da compreensão do parentesco e da sociedade primitiva, que se iniciara com Marcel Mauss, Émile Durkheim e a escola antropológica britânica. No início dos anos 1950, em colaboração com Roman Jakobson, Lévi-Strauss começou a defender a existência de analogias fundamentais, de reciprocidades conceituais e metodológicas entre a linguística e a antropologia. Foi também um avanço estimulante. Certamente há muito a se aprender com a possível concordância entre a estrutura formal de uma língua e as estruturas sociais que ela organiza e reflete (a observação de Lévi-Strauss de que uma sociedade não pode proibir aquilo que não sabe nomear e classificar, e de que o reconhecimento do parentesco permitido ou proibido depende de uma precisão correspondente na designação linguística, é obviamente profunda e preciosa). Mas esses paralelos, quando podem ser demonstrados, precisam ser manuseados com extrema cautela. Saltar da escala monográfica para um modelo universal de funcionamento da mente humana, construir uma vasta teoria da mente e da evolução sobre uma base tão frágil, é abandonar os ideais da ciência. É isso, dizem os antropólogos, que Lévi-Strauss fez com Tristes trópicos e continua a fazer desde então. Ele pode ser um escritor de talento, um criador de mitos modernos, uma espécie de filósofo, mas não é mais um antropólogo que tem responsabilidade perante a opaca monotonia do detalhe, o “este é o caso”. Há um precedente famoso. Para poetas e dramaturgos, para o público em geral, sir James Frazer era o príncipe dos antropólogos; para os colegas de profissão e sucessores imediatos, era um fiandeiro de palavras preso no denso nevoeiro que ele mesmo tinha criado. Assim, as “Mitológicas”, a “mitologia dos mitos” em quatro volumes que tem ocupado Lévi-Strauss nos últimos quinze anos ou mais, serão — quando a tradução estiver completa — nosso Ramo de ouro.
É um tipo de constelação que reconhecemos: um especialista ultrapassa sua área técnica e adquire grande renome; os colegas que deixou para trás cerram fileiras num repúdio melindrado. É a história de Marx e os economistas acadêmicos, de Freud e os psicólogos contemporâneos, de Toynbee e os historiadores. A situação não se abranda quando o novo “astro” expressa sua impaciência com a mesquinharia, o paroquialismo corporativo de seus pares de outrora. (Lévi-Strauss, aliás, é um mestre do desdém.) Depois de um período — assim dizem a história e a hagiografia intelectual —, descobre-se que a obra do grande dissidente alterou a totalidade do campo com o qual rompera, e os detratores sobrevivem como ácidas notas de rodapé nas memórias do Mestre.
A resposta a isso precisa ser incomodamente dupla, afirmativa e negativa. Se as análises de Marx sobre o conflito social são ou não são “científicas”, se suas previsões têm ou não têm alguma força que se possa verificar, são questões que continuam controvertidas. Ninguém duvidaria da envergadura das realizações de Freud, da força moldadora de sua concepção filosófico-literária sobre o clima dominante da sensibilidade ocidental. Mas o modelo terapêutico que ele procurou universalizar e os fundamentos neurofisiológicos que tentou estabelecer para esse modelo vêm se revelando cada vez mais fugidios. As correntes “avançadas” dos estudos recentes da mente e do comportamento humano não são freudianas. O quadro que temos não é, pelo menos não inequivocamente, o do gênio individual, da rejeição invejosa dos colegas menos dotados e da apoteose subsequente. O que parece se dar é um desenvolvimento apenas dentro de uma área sensível de um campo tradicional. Esse desenvolvimento, que de início observa as convenções e a linguagem profissional do campo, logo se torna grande demais, problemático demais, para caber dentro das categorias estabelecidas. Ele rompe e arrasta consigo uma parte desse seu campo. Surgem novos ordenamentos: a “linguística antropológica”, a “semiótica” (que é a investigação sistemática dos signos e dos símbolos) surgiram da crise da antropologia clássica e do “impulso gravitacional” de Lévi-Strauss rumo a uma concepção conjunta da linguagem e da estrutura biológico-social. A querela entre o grande homem e seus colegas pragmáticos é, muitas vezes, sintoma de transição e reajuste. Em certo sentido, a relação de Lévi-Strauss com a antropologia desde o princípio foi tão ambivalente, tão intrinsecamente subversiva quanto, digamos, a relação de Marx com a teoria monetária e econômica clássica. Essa “duplicidade”, essa provocação, explica a opacidade e a importância de Tristes trópicos.
A nova tradução e edição (Atheneum, 1973) supera a versão de 1961. Por razões que nunca ficaram inteiramente claras, vários capítulos foram omitidos da edição inicial em inglês; agora estão incluídos. Foram incorporadas as alterações que Lévi-Strauss fez à edição francesa de 1968. Traduzir Lévi-Strauss é uma tarefa não só árdua, mas também feita sob a sombra exigente e rigorosa do autor. Embora tenham adotado um partido às vezes um pouco cansativo e dilatado demais, justamente com a intenção de esclarecer, de dissecar a retórica sinuosa do original, John e Doreen Weightman realizaram um trabalho admirável. Não raro, quando dificuldades especiais atrapalham a leitura, deixamos a linguagem de Lévi-Strauss e recorremos à deles. E, sendo os tradutores das “Mitológicas”, os Weightman mostram uma perspicácia inigualável ao verter a gênese do vocabulário de Lévi-Strauss, ao ver onde e como se iniciaram algumas de suas atitudes características.
Num determinado nível, Tristes trópicos é uma autobiografia intelectual, ironicamente ciente das distorções, das autodramatizações, complacentes ou críticas, inevitáveis num autorretrato. Mas as lembranças de Lévi-Strauss de sua carreira acadêmica, ao mesmo tempo brilhante e apaticamente vazia, levam a uma passagem que melhor pode fornecer a chave de sua obra. Por volta dos dezesseis anos de idade, ele conheceu as teorias de Freud e os textos fundamentais de Marx. Viu em ambos uma espécie de geologia, uma promessa da compreensão em profundidade, uma estratégia de atravessar a superfície das aparências no homem e na história social:

A passagem é difícil, mas oferece uma pista inequívoca. Combinando Marx e Freud (em relação aos quais Lévi-Strauss se mantém em certa posição de igualdade), usando o paradigma da geologia, com suas noções de superfície e estratos subjacentes e formadores — paradigma que já sugere a linguística moderna —, devemos desenvolver uma espécie de entendimento orgânico e unificador do que “significam as coisas”. Nesse estágio inicial de seu pensamento, Lévi-Strauss deu a esse entendimento da estrutura o nome de “super-racionalismo”, que não é um termo muito útil. Hoje ele poderia chama-lo de “mythologique”, uma lógica racional das maneiras (“mitos”) como o homem representa, enuncia e controla sua condição biológica, psíquica e social. Apenas tal compreensão, palavra que supõe uma apreensão completa, apenas tal understanding, palavra que, com seu prefixo under-, implica descer, se aprofundar, poderiam justificar o orgulhoso nome “antropologia”, estudo do homem. Ser um antropólogo nesse sentido total significava preencher e completar as análises socioeconômicas do marxismo com a leitura freudiana da consciência. Para isso, o jovem Lévi-Strauss estava disposto a abandonar a filosofia e aceitar um posto secundário para dar aulas em São Paulo.

O conflito entre esta concepção e a concepção normal da etnologia e do trabalho de campo é mais do que evidente. Lévi-Strauss empreendeu longas expedições, fisicamente penosas, pelo interior do Brasil. Tristes trópicos traz um relato detalhado de sua vida com vários grupos indígenas. Num dos casos, pode ter sido o primeiro contato com um homem branco desde alguns encontros casuais no século XVI. Suas anotações sobre a alimentação, os costumes sexuais e os artefatos dos índios eram disciplinadas e copiosas. Comeu comida bichada, passou sede nos grandes planaltos, percorreu entre tropeções a floresta virgem. Mas o foco, o enquadramento do diagnóstico, nunca foi o do antropólogo tradicional; diante dos elaborados desenhos faciais das mulheres kaduveu, nenhum “cientista” de campo concluiria que elas:

Nenhum psicólogo comportamental, observando as palhoças isoladas no interior brasileiro, afirmaria confiante que aqueles grupos de habitantes “desenvolveram várias formas de loucura” para conseguir enfrentar a chuva, a desnutrição e o abandono. Além disso, quando Lévi-Strauss atravessa os ermos lunares do interior, o que o fascina não é tanto a etnografia do grupo de nhambiquaras com que está viajando: é a relação do mundo ameríndio com a linha do telégrafo que se estende, semiabandonada, pelas vastidões estéreis diante deles.
O simbolismo é crucial. Como a famosa imagem de Joseph Conrad de uma canhoneira disparando tiros absurdos numa margem costeira da impenetrável floresta africana, a evocação da linha do telégrafo pelo Mato Grosso, em Lévi-Strauss, anuncia uma dúvida fundamental. Expressa as ilusões rapaces do homem branco e da tecnologia em suas relações com o mundo primitivo. Mas a rapacidade e as ilusões se estendem, e estão talvez manifestas com ironia ainda maior, na própria atividade da antropologia. A obsessiva percepção de Lévi-Strauss nesse ponto é, como ele mesmo ressalta, uma redescoberta: a natureza dúbia da abordagem antropológica, do estudo racional do homem como foi desenvolvido pelo Ocidente, já era evidente para Rousseau, o verdadeiro mestre de Lévi-Strauss. Apenas o homem ocidental — começando em Heródoto — gerou uma curiosidade sistemática sobre as outras raças e culturas; somente ele saiu para explorar os cantos mais remotos da terra em busca da classificação, da definição por contraste e comparação de sua própria superioridade. Mas essa busca, tantas vezes desinteressada e altruísta, levou consigo a conquista e a destruição. O pensamento analítico tem em si uma estranha violência. Conhecer analiticamente é reduzir o objeto de conhecimento, por mais complexo, por mais vital que possa ser, simplesmente a isto: um objeto. É desmembrar. Mais do que qualquer outro “conhecedor”, o antropólogo leva a destruição junto com ele. Nenhuma cultura primitiva sobrevive incólume à sua visitação. Mesmo os presentes que leva — medicamentosos, materiais, intelectuais — são fatais para as formas de vida, tal como as encontrou. A busca ocidental do conhecimento é, num sentido trágico, a exploração final.

É essa fatalidade que confere a Tristes trópicos seu registro elegíaco, até apocalíptico. “Uma civilização proliferante e demasiado agitada rompeu o silêncio dos mares para sempre.” Aonde quer que o viajante branco vá, ele encontra a desolação, os vestígios cruéis da pilhagem e da doença trazidas por suas conquistas anteriores. As tribos índias, as paisagens que o jovem Lévi-Strauss encontrou não eram edênicas, não eram “primitivas” em sentido puro. Encarnavam uma longa crônica de infecção, destruição ecológica e deslocamento forçado. O que tornava os povos da floresta inacessíveis não era tanto o isolamento geográfico ou o terreno acidentado. Era o fato brutal de que complexos grupos étnico-linguísticos, antes à vontade num amplo território, agora estavam reduzidos a poucos. “Até onde sei, ninguém voltou a ver os mundés desde minha visita, exceto uma missionária que encontrou um ou dois deles logo antes de 1950, no Guaporé de Cima, onde três famílias tinham procurado refúgio.” A dizimação é a culpa irreparável do homem branco. Mas não exclusivamente. Lévi-Strauss é um observador demasiado sutil, demasiado irônico para não sugerir que há na ruína das culturas primitivas um mecanismo ainda mais secreto de limitação, de uma inevitável inadequação. Os primeiros exploradores a chegar ao Brasil e à América Central encontraram civilizações que tinham “alcançado o pleno desenvolvimento e perfeição de que suas naturezas eram capazes”. A ressalva é obscura, mas vem tingida de um fatalismo quase calvinista.
Esse “calvinismo” (Lévi-Strauss, pessoalmente, preferia falar em “pessimismo schopenhaueriano”) gera sua própria alegoria punitiva. O que o etnógrafo encontrou em suas incursões amazônicas não foi o paraíso perdido, e sim uma paródia e uma destruição deliberada dos últimos pomares do Jardim do Éden. Era como se um homem, expulso do Jardim por ter colhido o fruto proibido da árvore do conhecimento — coleta essa que define sua eminência e solidão no mundo orgânico —, tivesse voltado furioso e começasse a arrancar todo e qualquer vestígio do Éden perdido que encontrasse em sua paisagem. Lévi-Strauss percebe na catástrofe ecológica, no tratamento assassino e, no entanto, também suicida que damos ao meio ambiente, muito mais do que mera ganância ou estupidez. O homem é possuído de alguma obscura fúria contra sua própria lembrança do Éden. Aonde quer que vá e encontre paisagens ou comunidades que parecem se assemelhar à sua imagem da inocência perdida, ele arremete e espalha destruição.
Assim, se Tristes trópicos é um dos primeiros clássicos da atual angústia ecológica, também é muito mais do que isso; em última análise, é uma alegoria moral-metafísica do fracasso humano. Avança numa arrogante melancolia até a imagem do globo — que se resfria, esvaziado da humanidade, purificado do lixo humano — que aparece na coda das “Mitológicas”. Há melodrama nessa antecipação, há certa pomposidade (e é uma bela e acertada coincidência que a cátedra que Lévi-Strauss irá ocupar dentro de poucas semanas na Academia Francesa seja a de Montherlant). Mas há também uma dor profunda e genuína. A “antropologia”, diz Lévi-Strauss concluindo Tristes trópicos, agora pode ser vista como “entropologia”: o estudo do homem se tornou o estudo da desintegração e da extinção certa. Não existe trocadilho mais sombrio na literatura moderna.
3 de junho de 1974

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

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