100.
Vivo sempre no presente. O futuro, não
o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a
possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho
esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até
hoje — tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara —,
que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que
não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até
através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre
com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um
simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem
as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente
exige o momento; passado este, há um virar de página e a história
contínua, mas não o texto.
Breve sombra escura de uma árvore
citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva
regular — jardim público ao quase crepúsculo —, sois, neste
momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno
da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que
senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças
alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das
ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das
árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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