segunda-feira, 6 de abril de 2026

Conserve o seu próprio caráter

Não há homem afortunado a ponto de ninguém festejar seu falecimento. Ainda que seja benfeitor e sábio, alguém comentará: “Respiro aliviado agora que me livrei desse pedante. De fato não foi áspero conosco, mas percebi que nos reprovava tacitamente.”
Comentam isso sobre os bons! Já no nosso caso, por quantos outros motivos querem livrar-se de nós? Ao mensurá-los, morrerá bem-aventurado: “Estou deixando uma vida em que até os meus companheiros — para os quais direcionei atenção, orações e cuidado — esperam pelo meu óbito na esperança de, porventura, obter vantagens. Nessa situação, por que me agarraria a uma estadia mais longa?”
Entretanto, não saia indisposto com eles ou como se estivesse sendo arrancado. Conserve o seu próprio caráter. Continue amigável, benevolente e compassivo. Quando morre tranquilo, a pobre alma se separa do corpo com facilidade. Deixe-os desse modo, pois a natureza os uniu e os associou e agora os desune. Desassocio-me dos meus parentes conforme a natureza: sem ser arrastado ou empurrado.

Marco Aurélio, em Meditações

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