terça-feira, 28 de abril de 2026

1618 – Lima

Um porteiro de cor escura

Os amigos reviram suas capas puídas e varrem o chão com seus chapéus. Cumprida a mútua reverência, se elogiam:
Maravilha esse toco de braço!
E essa tua chaga? Está tremenda!
Atravessam junto o descampado, perseguidos pelas moscas. Conversam enquanto mijam, de costas para o vento.
Tempos sem te ver.
Corri feito mosca. Sofrendo, sofrendo.
Ai.
Laxartixa extrai do bolso uma bolacha dura, sopra, dá brilho e oferece a Pedepão. Sentados em uma pedra, contemplam as flores dos abrolhos.
Pedepão morde com todos os seus três dentes, e conta.
Na Auditoria, boas esmolas havia... O melhor lugarzinho de Lima. Me expulsaram a pontapés. Foi o porteiro.
Juan Ochoa?
Satanás, você quer dizer. Lá sabe meu Deus que eu não fiz nada.
Já não está Juan Ochoa.
Verdade?
O expulsaram feito cachorro. Já não é porteiro da Auditoria, nem nada.
Pedepão, vingado, sorri. Estica os dedos de seus pés descalços.
Por suas maldades, deve ter sido.
Não, não.
Por ser burro?
Não, não. Por ser filho de mulata e neto de negra. Por isso.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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