Um porteiro de cor escura
Os amigos reviram suas capas puídas e
varrem o chão com seus chapéus. Cumprida a mútua reverência, se
elogiam:
– Maravilha esse toco de braço!
– E essa tua chaga? Está tremenda!
Atravessam junto o descampado,
perseguidos pelas moscas. Conversam enquanto mijam, de costas para o
vento.
– Tempos sem te ver.
– Corri feito mosca. Sofrendo,
sofrendo.
– Ai.
Laxartixa extrai do bolso uma bolacha
dura, sopra, dá brilho e oferece a Pedepão. Sentados em uma pedra,
contemplam as flores dos abrolhos.
Pedepão morde com todos os seus três
dentes, e conta.
– Na Auditoria, boas esmolas
havia... O melhor lugarzinho de Lima. Me expulsaram a pontapés. Foi
o porteiro.
– Juan Ochoa?
– Satanás, você quer dizer. Lá
sabe meu Deus que eu não fiz nada.
– Já não está Juan Ochoa.
– Verdade?
– O expulsaram feito cachorro. Já
não é porteiro da Auditoria, nem nada.
Pedepão, vingado, sorri. Estica os
dedos de seus pés descalços.
– Por suas maldades, deve ter sido.
– Não, não.
– Por ser burro?
– Não, não. Por ser filho de
mulata e neto de negra. Por isso.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Nenhum comentário:
Postar um comentário