[…]
Por curto! minto, se não conto que
estava duvidoso. E o senhor sabe no que era que eu estava imaginando,
em quem. Ele é? Ele pode? Ainda hoje eu conheço tormentos por saber
isso; trastempo que agora, quando as idades me sossegam. E o demo
existe? Só se existe o estilo dele, solto, sem um ente próprio ―
feito remanchas nágua. A saúde da gente entra no perigo daquilo,
feito num calor, num frio. Eu, então? Ao que fui, na encruzilhada, à
meia-noite, nas Veredas Mortas. Atravessei meus fantasmas? Assim mais
eu pensei, esse sistema, assim eu menos penso. O que era para haver,
se houvesse, mas que não houve! esse negócio. Se pois o Cujo nem
não me apareceu, quando esperei, chamei por ele? Vendi minha alma
algum? Vendi minha alma a quem não existe? Não será o pior?... Ah,
não! não declaro. Desgarrei da estrada, mas retomei meus passos. O
senhor segurado não acha? Ao que tropecei, e o chão não quis minha
queda. De hoje em dia, eu penso, eu purgo. Eu tive pena de minhas
velhas roupas. E rezo. Para a minha reza, Deus dá as costas, mas
abaixa meio ouvido. Rezo. Queria ver ainda uma igreja grande, brancas
torres, reinando de alto sino, no estado do Chapadão. Como que algum
santo ainda não há de vir, das beiras deste meu Urucúia? E o diabo
não há! Nenhum. E o que tanto digo. Eu não vendi minha alma. Não
assinei finco. Diadorim não sabia de nada. Diadorim só desconfiava
de meus mesmos ares. Escuto o claro riso dele, que era raramente;
quer dizer: me alembro. Compadre meu Quelemém me dá conselhos, de
tranquilidade. O que ele renova é: ― ...Em presente e futuros...
Eu sei.
Sempre sei, realmente. Só o que eu
quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa ―
a inteira ― cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre
tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo,
estreito, de cada uma pessoa viver ― e essa pauta cada um tem ―
mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que,
sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse
norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo
sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada
hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa.
Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa consequência, tudo o que
eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que
todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o
errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas
não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua
continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para
cada representador ― sua parte, que antes já foi inventada, num
papel...
Ora, veja. Remedêio peco com pecado?
Me tôrço! Com essa sonhação minha, compadre meu Quelemém
concorda, eu acho. E procurar encontrar aquele caminho certo, eu
quis, forcejei; só que fui demais, ou que cacei errado. Miséria em
minha mão. Mas minha alma tem de ser de Deus! se não, como é que
ela podia ser minha? O senhor reza comigo. A qualquer oração. Olhe!
tudo o que não é oração, é maluqueira... Então, não sei se
vendi? Digo ao senhor! meu medo é esse. Todos não vendem? Digo ao
senhor! o diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a alma... Meu
medo é este. A quem vendi? Medo meu é este, meu senhor! então, a
alma, a gente vende, só, é sem nenhum comprador...
Divulgo o meu. Essas coisas que pensei
assim; mas pensei abreviado. O que era como eu tivesse de furtar uma
folga nos centros de minha confusão, por amor de ter algum claro
juízo ― espaço de três credos. E o resto já vinha. O senhor
verá, pois.
Porém mais além.
Na serra do Tatú, o frio ali é tal,
que, em madrugadas, a gente necessita de uns três cobertores. Na
Serra dos Confins, meados de julho, lá já está sovertendo o laçaço
dos ventos, desencontrados, de agosto; como que venta! árvores
caídas. Aonde eu ia, todos achavam natural. Chefe é chefe. Será
que eles não sabiam que eu não sabia aonde ia? Isto é ― digo ―
isto é. Não soubessem os começos e os finais. Dalgum modo, eu
estava indo e sabendo. Sobre como é que a coruja conseguiu modo de
poder voar sem se escutar o rumor do voo? Ao que eu estava sofismado.
Menos que não guardei raiva de Diadorim, nem sentimentos. O desar
que ele tinha falado e feito, aquela ruim conversa nossa, não deixou
nem nublo! melhor fugiu, de todo, de minha lembrança.
O palpite meu, primeiro, era de chegar
até na Serra do Meio ― cruzar na Cachoeira-do-Urucúia. Daí,
desisti. De repente, torci direto para o norte; foi no Lagamar, a
travessia. Mas, fujo de dizer: que, antes, no Lugar-do-Touro, se
arrecadou a exata munição. Ainda antes se dando, dias, que a gente
tinha recebido uma boa surpresa. O Quipes!
Assim o Quipes, que retornava, depois
de tantos meses. De desde que tinha cumprido a ordem de sair por
travesso socórro, de lá ondonde estávamos cercados em combates, na
Fazenda dos Tucanos ― o senhor se alembrará. Ele vinha certo e
alegre. E, de ver um companheiro assim se aparecer, de ausências, a
gente ganhava mais mocidade.
Lampeiro, o Quipes entrado em boas
roupas, montado num bom cavalo amarelo, pitando maço de cigarros de
fábrica; rico feito um Mascarenhas. Arte que puxava um burro e uma
burra, adestros, e tinha comprado coisas: até trempe e caçarolas, e
açúcar real e chocolate em pó. Ao fagueiro, pujante, mesmo.
― Ara, veja, como passou? E dond é
que soube de nós? ― eu em atiço perguntei.
― Ao que pois, Tatarana: em faltas
de notícia, formei meu pião por aí... Já estive em Ingazeiras, na
Barra-da-Vaca, no Oi-Mãe, em Morrinhos... O Urucúia não é o meio
do mundo? ― assim ele se temperou.
O que não era toda a verdade. O que
ele estava era recém-chegando. E me tratou de Tatarana... O
seja que tivesse vivido esses tempos tangendo urubú, adformas que
vinha agora na ignorância de que eu é que era o Chefe. Indagou por
Zé Bebelo; e pois de Zé Bebelo mesmo ele tudo não sabia. Nem o
parar do Hermógenes. Nem não tinha nenhum sinal do Joaquim Beijú,
assim como aviso de outas novidades do mundo não deu. Só, por
terminar, se gabou de ter tido duas ofertas: para servir de jagunço
de Dona Adelaide, no Capão Redondo, e do Coronel Rotílio Manduca ―
em sua Fazenda Baluarte.
― Ah, entrei, gozando de minha
pessoa de paz, até nas cidades de Januária e São-Francisco... ―
ainda proseou. Devia de ser verdade. Assim como verdade completa que,
a burra e o burro, e a tralha, ou o dinheiro para tudo adquirir, ele
devia de ter roubado tomado em terra de riquezas. Tal que disse! ―
Isto eu bem comprei, na venda do José Vassalo... Desajuizado
gastador, esse o Quipes.
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Nenhum comentário:
Postar um comentário